Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcordo às cinco e meia da manhã. Levanto da cama ainda com sono, tomo banho rápido, visto a roupa social que preparei na noite anterior e saio de casa. São duas horas de caminho até a empresa. Pego o ônibus lotado e depois o metrô. Fico em pé quase o tempo todo.
A Bitencourt Advogados fica em um bairro nobre de Goiânia. O prédio é moderno e imponente. Chego às oito em ponto. Quando entro no andar da empresa, o senhor Michel Bitencourt já está na recepção, de braços cruzados, como se esperasse por mim. — Bom dia. Vejo que você é pontual. Isso é bom! — diz ele com tom sério. — Bom dia, senhor Bitencourt. Ele faz um gesto com a cabeça para que eu o siga. — Seja bem-vinda oficialmente à equipe. Hoje você começa de verdade. Vou te apresentar para as pessoas com quem vai trabalhar. Ele me leva até a sala de estagiários e fala com voz firme para todos: — Esta é a nova estagiária. Ela vai ficar na área societária por enquanto. Ajudem ela a se adaptar. Logo depois que ele sai, duas estagiárias se aproximam de mim. Uma delas, loira e bem arrumada, sorri. — Oi, eu sou a Julia. Essa é a Letícia. Bem-vinda. Já viu o chefe? Ele é exigente, né? Mas paga bem. Só não erra nos prazos que ele te dá. A outra ri baixinho. — Tem fofoca boa aqui. A secretária dele vive estressada. Dizem que ele quase nunca dorme. E olha, cuidado com o café. Ele odeia café frio. Elas falam rápido, contam sobre quem namora quem no escritório e quais advogados são mais difíceis. Fico ouvindo, ajustando meus óculos de vez em quando. Enquanto isso, um rapaz de uns vinte e quatro anos se aproxima. Ele é alto, cabelos lisos e loiros, de camisa social clara, e sorri. — Oi, eu sou o Lucas. Bem-vinda. Se precisar de ajuda com alguma coisa, é só falar. Eu estou aqui tem seis meses. Posso te mostrar onde fica o café bom e como funciona o sistema de arquivos. — Obrigada, Lucas — respondo, um pouco tímida. Eles começam a me treinar. Mostram como abrir os processos no sistema, como organizar os documentos e como preparar minutas simples de contratos. Passo a manhã toda entre explicações e tarefas básicas. Anoto tudo em um caderno. O dia passa rápido. Às seis da tarde, a maioria das pessoas começa a arrumar as coisas para ir embora. Estou terminando uma revisão quando o senhor Michel Bitencourt aparece na porta da sala. — Você ainda está aqui. Ótimo. Preciso que revise esses três contratos até amanhã de manhã. São para um cliente importante. Marque em vermelho todos os pontos que podem gerar risco. Também quero um resumo de uma sentença de ontem. Aqui estão os arquivos. Ele coloca uma pilha de pastas na minha mesa. Meu estômago aperta. — Sim, senhor. Fico trabalhando sozinha. O escritório vai esvaziando. São quase oito da noite quando termino tudo. Sou a última a sair. Apago a luz da sala e desço. Primeiro dia e já me enche de trabalho, mas faz parte, essa é a vida adulta. Espero me dar bem aqui e tomara que o senhor Michel não me escravize, pois pela expressão de algumas pessoas, ele b**e com um chicote imaginário. Pego o ônibus de volta para casa. O caminho parece ainda mais longo. Chego morta de cansada, com os pés doendo e a cabeça cheia de informações novas. Amanhã vai ser outro dia igual, ou pior.






