quero o seu serviço.
Capítulo 1
Korine Mille
Meu nome é Korine Mille. Tenho 31 anos e trabalho como detetive particular especializada em relacionamentos. Em outras palavras, eu vivo desvendando traições, mentiras e segredos que destroem casamentos todos os dias.
Desde pequena, eu era fascinada por investigações. Enquanto as outras meninas sonhavam com princesas e vestidos cor-de-rosa, eu passava horas na frente da televisão assistindo a séries policiais, anotando pistas e imaginando como seria ser a pessoa que resolve tudo no final. Sonhava em me tornar uma detetive criminal respeitada, daquelas que colocam bandidos atrás das grades.
A vida, porém, tinha outros planos para mim.
Depois de pegar meu ex-namorado, Gael, traindo-me com a minha própria prima — e ainda descobrir que ela estava grávida dele —, algo dentro de mim quebrou. Percebi que, antes de caçar criminosos nas ruas, eu precisava ajudar pessoas que sofriam a mesma dor que eu havia sentido: a dor da traição mais profunda.
Foi assim que criei minha agência de detetive particular focada em relacionamentos. Meu trabalho é expor infidelidades, reunir provas irrefutáveis e entregar a verdade nas mãos de quem paga por ela. Com o tempo, me tornei bastante conhecida na capital. As mulheres me procuram chorando, os homens chegam com orgulho ferido. Eu escuto todos eles.
Mas há uma regra que nunca quebrei em seis anos de profissão:
Nunca me envolvo emocionalmente com clientes.
Nunca misturo trabalho com desejo.
E nunca deixo que um homem, por mais atraente que seja, abale minhas barreiras.
Até hoje, eu cumpria essa regra com disciplina de ferro.
Seis anos atrás
Eu tinha voltado mais cedo da academia naquele dia. O suor ainda escorria pela minha pele quando empurrei a porta do apartamento que dividia com Gael. Estava tudo silencioso, exceto por uma voz baixa vindo do quarto.
Parei no corredor, com a bolsa ainda no ombro. A porta estava entreaberta.
— Amanhã às três, amor. Estou louco de saudade de você... Sim, vou dar um jeito de sair mais cedo. Beijo na sua boca.
O nome que ele murmurou em seguida não foi o meu. Foi o da minha prima, Mara.
Senti o chão sumir sob meus pés. Fiquei paralisada, ouvindo cada palavra que saía da boca dele como facadas no peito. Quando ele percebeu minha presença, mudou o tom imediatamente, fingindo que falava com um amigo do trabalho. Tarde demais. Eu já tinha ouvido o suficiente.
Nos dias seguintes, usei tudo o que estava aprendendo na faculdade de Investigação Profissional. Segui Gael discretamente, troquei de roupa, mudei o carro de lugar, fiquei horas esperando. E a confirmação veio como um soco no estômago.
Lá estavam os dois, num café discreto da cidade, se beijando com fome, como se o mundo pudesse acabar a qualquer momento. Pior ainda: eu ouvi quando ela, com a mão sobre a barriga, disse que estava grávida de três meses.
Saí de trás do poste onde me escondia e caminhei até eles com passos firmes. Comecei a bater palmas devagar, um sorriso amargo nos lábios.
— Parabéns, Gael. Vai ser papai. Que família linda vocês vão formar.
Ele ficou branco como papel. Mara cobriu a boca, chocada. Eu olhei diretamente nos olhos dele e disse com a voz gelada:
— Só volte ao apartamento para buscar suas coisas. Se eu te vir de novo, não vai ser bonito.
Ele tentou se explicar, disse que me amava, que ela tinha sido apenas uma diversão, que foi um erro. Eu perdi o controle. Dei dois t***s fortes no rosto dele, virei as costas e fui embora dirigindo sem destino, chorando até meus olhos incharem.
Naquela mesma semana, arrumei minhas malas, deixei o apartamento e voltei temporariamente para a casa dos meus pais. Terminei a faculdade com nota máxima, mas o sonho de ser detetive criminal tinha perdido o brilho. Mudei-me para a capital em busca de recomeço.
Foi lá que encontrei um pequeno escritório vago bem ao lado do meu novo apartamento. Em menos de dois meses, eu já estava com minha placa na porta: “Korine Mille – Investigações Particulares”. Especializada em relacionamentos.
De volta ao presente
O telefone tocou enquanto eu organizava os arquivos do dia. Número desconhecido.
Atendi com voz profissional:
— Korine Mille.
— Senhorita Mille, meu nome é Leonardo Valek. Preciso dos seus serviços com extrema urgência. Venha ao meu escritório agora. Não aceito não como resposta.
A voz era grave, profunda e carregada de autoridade. Um arrepio percorreu minha espinha. Desliguei o telefone com o coração acelerado, peguei minha pasta e entrei no carro.
Quarenta minutos depois, eu estacionava em frente a um dos prédios mais luxuosos da capital. A recepção era toda de mármore e vidro. A recepcionista me olhou de cima a baixo, sorriu educadamente e me acompanhou até o elevador privativo.
No último andar, a porta dupla de madeira escura se abriu para um escritório impressionante. Janelas do chão ao teto, vista panorâmica da cidade, móveis de design caro. E no centro de tudo, ele.
Leonardo Valek.
Alto, provavelmente mais de 1,90m. Ombros largos, corpo definido sob o terno preto impecável. Barba bem aparada, cabelo escuro penteado com perfeição e olhos castanhos intensos que pareciam capazes de ler cada pensamento meu. O homem era absurdamente bonito. Do tipo que faz qualquer mulher esquecer o próprio nome por alguns segundos.
Calma, Korine. Ele é cliente. Segura essa piriquita, pensei, sentindo o calor subir pelo meu pescoço.
— Senhorita Mille — disse ele, levantando-se e estendendo a mão. O aperto foi firme, quente e durou um segundo a mais do que o necessário. — Sente-se, por favor.
Sentei com elegância, cruzando as pernas e mantendo a postura profissional.
— Em que posso ajudá-lo, Sr. Valek?
Ele deslizou uma fotografia sobre a mesa de vidro. Nela, uma mulher loira, linda, sorridente, com traços delicados.
— Essa é Karla, minha esposa. Estamos casados há cinco anos. Nos últimos três meses, ela mudou completamente. Recusa qualquer intimidade, sai sem dar explicações, vive grudada no celular e com um sorriso que não é mais para mim. Quero que a investigue. Preciso de provas concretas. Quero saber se ela está me traindo.
Seus olhos fixaram-se nos meus com uma intensidade quase sufocante.
— Faça o que for preciso. Dinheiro não é problema. Quero resultados rápidos.
Mantive o rosto neutro, embora sentisse o peso daquele olhar sobre mim.
— Entendido. Mas antes precisamos formalizar um contrato. Regras claras protegem nós dois.
Ele franziu o cenho, demonstrando impaciência, mas acabou concordando. Enquanto eu preparava os documentos, sentia seus olhos percorrendo meu rosto e meu corpo. Assinou com traços firmes e devolveu a pasta.
— Quero atualizações frequentes, senhorita Mille.
— Terá — respondi, levantando-me. — Entrarei em contato assim que tiver algo relevante.
Quando cheguei à porta, sua voz soou baixa e grave atrás de mim:
— Uma última coisa...
Eu me virei.
— Não se apaixone por mim no processo.
Sorri com ironia, erguendo uma sobrancelha.
— Fique tranquilo, Sr. Valek. Eu nunca me apaixono por clientes.
Mas enquanto descia no elevador, meu coração batia descompassado. E pela primeira vez em seis anos, aquela regra pareceu um pouco mais difícil de seguir.
Leonardo Valek
Cheguei em casa por volta das sete da noite, exausto depois de um dia cheio de reuniões. O apartamento de luxo estava silencioso, iluminado apenas pela luz da televisão da sala.
Karla estava deitada no sofá, mexendo no celular com um sorriso leve nos lábios — aquele mesmo sorriso que costumava ser só meu. Quando me aproximei para beijá-la na testa, ela virou o rosto rapidamente e se levantou.
— Vou sair com as meninas hoje. Não me espere para o jantar.
Mais uma vez.
Fiquei olhando enquanto ela se arrumava no quarto, colocando um vestido justo e maquiagem caprichada. Antigamente, ela se arrumava assim para mim. Agora, eu nem sabia mais para onde ela ia.
Entrei no banheiro, tomei um banho longo e quente, tentando lavar a inquietação que me consumia. Cinco anos de casamento. Três meses de pura tortura. Eu tinha dado tudo a Karla: atenção, viagens, presentes, carinho. Nunca neguei tempo para ela. E mesmo assim, sentia que a estava perdendo aos poucos.
Deitado na cama enorme e vazia depois que ela saiu, passei a mão pelo rosto, cansado.
Só me restava uma esperança agora: a detetive Korine Mille.
Eu precisava da verdade. Mesmo que ela doesse. Mesmo que destruísse tudo o que construí.
Porque viver na dúvida estava me matando lentamente.