Mundo de ficçãoIniciar sessãoCLÁUSULA 7: APARÊNCIAS SERÃO MANTIDAS
Olhei para o papel. Minha mão agiu antes do meu cérebro. Assinei aquela declaração de intenção sentindo o peso de cada letra. Joguei a caneta na mesa e saí daquela sala sem olhar para trás. Não houve aperto de mão. Só o barulho do meu salto batendo no mármore da Nações Unidas enquanto eu fugia de uma decisão que já estava tomada. Passei a noite encarando o teto do meu apartamento, sentindo o banho frio ainda queimando na pele e o silêncio daquelas paredes me cobrando a conta. Tomei um café amargo que não desceu e vesti a única roupa que não me fazia parecer uma herdeira falida: um vestido midi preto, liso, de gola alta. O tipo de roupa que serve tanto para uma reunião importante quanto para um velório. Doze horas depois de sair do escritório na Nações Unidas, eu estava de pé no corredor do 2º Subdistrito de Registro Civil, no centro de São Paulo. O lugar estava sufocante, cheio de gente impaciente e aquele barulho irritante de carimbo batendo sem parar. O relógio na parede descascada marcava oito e quarenta da manhã. O ponteiro dos segundos travava a cada volta, soltando um estalo seco que ecoava na sala de espera lotada. Tinha casal feliz ali. Uma mulher com buquê de margarida de plástico ria de alguma coisa que o noivo sussurrava. Uma família tirava foto na frente da parede de gesso com o brasão da República. O contraste entre a alegria deles e o nó no meu estômago dava vontade de vomitar. Vincent Blackwood entrou exatamente às oito e cinquenta. A temperatura do cartório pareceu cair. Ele não usava o terno cinza da noite anterior. Vestia preto. O corte da roupa era tão preciso que ofendia as cadeiras de plástico azul. Atrás dele, o mesmo homem magro do restaurante — o do isqueiro dourado — caminhava com uma pasta de couro e um tablet na mão. O barulho na sala de espera foi diminuindo. As pessoas pararam pra olhar. Vincent não olhou para ninguém. Atravessou o piso encardido como se fosse o dono do prédio, os olhos cinzas varrendo o espaço até me encontrar perto do bebedouro quebrado. Ele parou na minha frente e o perfume dele cortou o ar pesado do lugar. — Bom dia, Lena. — A voz saiu no mesmo tom neutro que ele usaria pra comprar ação de siderúrgica. — Vai ser um dia ótimo assim que eu parar de ser propriedade do Estado e começar a ser tua — respondi, cruzando os braços pra esconder o tremor nos dedos. Vincent não sorriu, mas a tensão no rosto dele cedeu um milímetro. Foi um reconhecimento rápido, de bicho que encontra outro da mesma espécie. Ele queria o embate tanto quanto eu. — O juiz de paz nos encaixou antes da abertura oficial. O tabelião já conferiu os documentos — ele disse, ignorando minha ironia. — Mas antes de assinarmos o livro de registro, precisamos formalizar o acordo privado. O assessor deu um passo à frente e jogou o contrato grosso sobre o balcão de madeira riscada. Do lado, largou a mesma caneta pesada da noite anterior. — O juiz assina o alvará de soltura do seu pai ao meio-dia — o homem falou baixo, checando o relógio. — A transferência da fiança cai no segundo em que sua assinatura tocar a última página deste documento. O senhor Blackwood cumpre a parte dele. Você cumpre a sua. Olhei para o contrato. Páginas e páginas de controle. Minha mudança, minha presença em jantares, a venda do meu silêncio. Destampei a caneta. O metal era frio. Minha mão hesitou a um milímetro do papel. Por que eu estava fazendo isso? Roberto não era um herói. Ele mentiu para mim, afundou a construtora e me arrastou junto. Eu tinha motivo de sobra para deixar o sistema engolir o homem que causou tudo isso. Mas a memória veio, cortando a dúvida. Eu tinha dezenove anos. Terça-feira de temporal em São Paulo. A Santo Amaro alagada, ônibus parados. Eu, ilhada num ponto sem cobertura, água no tornozelo, celular sem bateria. Três horas ali. Tremendo. Aí os faróis de um sedan preto cortaram a chuva. Roberto parou o carro no meio da enchente, ignorando buzina e água subindo. Ele destravou a porta. Não disse “eu te amo”, não fez discurso. Só esticou o braço, ligou o aquecedor no máximo e me entregou um casaco seco dele.. Meu pai amava com o que tinha. E o que ele tinha era torto, egoísta, cheio de falha. Mas ele apareceu quando a água bateu no meu pescoço. Eu sabia quem meu pai era. E sabia o preço de salvar ele. Meu amor não era cego. Era consciente. — Temos dez minutos antes da pauta do juiz fechar — o assessor pressionou. Meu estômago afundou. O tempo tinha acabado. Apoiei a ponta da caneta na página e rubriquei. Virei a folha. Rubriquei a segunda. A terceira. O som do metal arranhando o papel ficou alto na minha cabeça. Cláusula 4. Domicílio. Rubrica. Cláusula 5. Aparências. Rubrica. Cláusula 7. Confidencialidade. Rubrica. — Rápido, senhorita — o assessor pressionou. Vincent continuava parado, me observando em silêncio. Ele não olhava pro papel. Olhava pra mim. A urgência tomou conta das minhas mãos. Eu precisava do comprovante da fiança. Precisava do meu pai fora daquela viatura. Comecei a virar as páginas de duas em duas, de três em três, jogando minhas iniciais no canto de cada folha timbrada sem ler o título. Os blocos de texto denso viraram mancha escura sob meus olhos. Cláusula 9... Cláusula 10... Cláusula 11... Pulei a página seguinte. Fui direto pra folha final. Na linha pontilhada abaixo do meu nome impresso, apertei a caneta e assinei “Lena Whitmore” pela última vez como mulher livre. Empurrei o contrato pelo balcão na direção do assessor e larguei a caneta em cima da mesa. O clique da tampa pareceu tranca de cela. — Feito — eu disse, a garganta seca. O homem magro, o assessor ,pegou o documento, conferiu a assinatura final e assentiu pra Vincent. Blackwood finalmente tirou os olhos de mim e olhou pra pasta. Ele sabia o que eu tinha feito. Sabia que a pressão do tempo tinha me feito rubricar as últimas páginas no escuro. E, pelo jeito que ele ajeitou o botão do paletó antes de se virar pra porta do tabelião, eu tive certeza de que o que quer que estivesse escrito naquelas páginas que eu não li ia ser a minha ruína. — O juiz de paz está esperando — Vincent avisou, oferecendo o braço pra eu segurar, como manda o figurino. Eu não toquei nele. Passei reto, indo em direção à porta dupla do cartório. Eu tinha assinado o contrato. Mas a leitura calma das Cláusulas 12 em diante ia ficar pra outro dia. Um dia em que eu ia descobrir que tinha vendido bem mais do que só a minha imagem.






