CAPÍTULO 4

CLÁUSULA 7: APARÊNCIAS SERÃO MANTIDAS

Doze horas depois de sair do escritório na Faria Lima, eu estava de pé no corredor do 2º Subdistrito de Registro Civil, no centro de São Paulo. O lugar cheirava a café requentado, mofo em arquivo de metal e papel velho de cartório.

Eu não dormi. Voltei pro apartamento vazio, tomei um banho frio até a pele doer e vesti a única roupa que não me fazia parecer uma herdeira falida implorando por esmola: um vestido midi preto, liso, de gola alta. Era o vestido que eu usaria na formatura de jornalismo. Agora ia servir de mortalha pra minha liberdade.

O relógio na parede descascada marcava oito e quarenta da manhã. O ponteiro dos segundos travava a cada volta, soltando um estalo seco que ecoava na sala de espera lotada. Tinha casal feliz ali. Uma mulher com buquê de margarida de plástico ria de alguma coisa que o noivo sussurrava. Uma família tirava foto na frente da parede de gesso com o brasão da República. O contraste entre a alegria deles e o nó no meu estômago dava vontade de vomitar.

Vincent Blackwood entrou exatamente às oito e cinquenta.

A temperatura do cartório pareceu cair. Ele não usava o terno cinza da noite anterior. Vestia preto. O corte da roupa era tão preciso que ofendia as cadeiras de plástico azul. Atrás dele, o mesmo homem magro do restaurante — o do isqueiro dourado — caminhava com uma pasta de couro e um tablet na mão.

O barulho na sala de espera foi diminuindo. As pessoas pararam pra olhar. Vincent não olhou de volta pra ninguém. Atravessou o piso de cerâmica encardida como se aquilo fosse corredor de escritório dele, os olhos cinza varrendo o espaço até me encontrar encostada perto do bebedouro quebrado.

Ele parou na minha frente. O cheiro de perfume dele cortou o cheiro de mofo do ar.

— Bom dia, Lena. — A voz saiu no mesmo tom neutro que ele usaria pra comprar ação de siderúrgica.

— Vai ser um dia ótimo assim que eu parar de ser propriedade do Estado e começar a ser tua — respondi, cruzando os braços pra esconder o tremor nos dedos.

Vincent não sorriu, mas alguma coisa piscou na expressão controlada. Uma fração de reconhecimento. Ele gostava que eu batesse de volta.

— O juiz de paz nos encaixou antes da abertura oficial. O tabelião já conferiu os documentos — ele disse, ignorando minha ironia. — Mas antes de assinarmos o livro de registro, precisamos formalizar o acordo privado.

O homem magro deu um passo à frente, abriu a pasta de couro e colocou o contrato grosso sobre o balcão de fórmica gasta. Do lado, pousou a mesma caneta escura da noite anterior.

— O juiz assina o alvará de soltura de Roberto ao meio-dia — o assessor falou baixo, só pra nós. — A transferência da fiança já está programada. Cai na conta do tribunal no segundo em que a sua assinatura tocar a última página deste documento e a do registro de casamento. O senhor Blackwood cumpre a parte dele. Você cumpre a sua.

Olhei pro contrato. Páginas e páginas de controle. Minha mudança pra mansão. Minha presença obrigatória em jantares. A venda da minha voz, da minha imagem, da minha lealdade.

Destampei a caneta. O metal era frio e pesado. Minha mão tremeu a um milímetro do papel.

Por que eu tava fazendo isso? Roberto Whitmore não era herói injustiçado. A parte racional em mim sabia que ele tinha sujado a mão. Ele mentiu pra mim. Afundou a construtora e me arrastou junto. Eu tinha motivo de sobra pra virar as costas e deixar o sistema engolir o homem que causou tudo isso.

Mas a memória veio, cortando a dúvida.

Eu tinha dezenove anos. Terça-feira de temporal em São Paulo. A Santo Amaro alagada, ônibus parados. Eu, ilhada num ponto sem cobertura, água no tornozelo, celular sem bateria. Três horas ali. Tremendo. Aí os faróis de um sedan preto cortaram a chuva. Roberto parou o carro no meio da enchente, ignorando buzina e água subindo. Ele destravou a porta. Não disse “eu te amo”, não fez discurso. Só esticou o braço, ligou o aquecedor no máximo e me entregou um casaco seco do banco de trás.

Roberto amava com o que tinha. E o que ele tinha era torto, egoísta, cheio de falha. Mas ele apareceu quando a água bateu no meu pescoço.

Eu sabia quem meu pai era. E sabia o preço de salvar ele. Meu amor não era cego. Era consciente do custo.

— Nós temos dez minutos antes da pauta do juiz fechar — o assessor murmurou, checando o relógio. — Se não assinarmos agora, a transferência não processa a tempo. Ele vai para a penitenciária estadual.

Meu estômago afundou. O tempo tinha acabado.

Apoiei a ponta da caneta na página de rosto. Rubriquei.

Virei a folha. Rubriquei a segunda. A terceira.

O som da ponta arranhando o papel ficou alto na minha cabeça, abafando o barulho do cartório.

Cláusula 4. Domicílio. Rubrica.

Cláusula 5. Aparências. Rubrica.

Cláusula 7. Confidencialidade. Rubrica.

— Rápido, senhorita — o assessor pressionou. Vincent continuava parado, me observando em silêncio. Ele não olhava pro papel. Olhava pra mim.

A urgência tomou conta das minhas mãos. Eu precisava do comprovante da fiança. Precisava do meu pai fora daquela viatura. Comecei a virar as páginas de duas em duas, de três em três, jogando minhas iniciais no canto de cada folha timbrada sem ler o título. Os blocos de texto denso viraram mancha escura sob meus olhos.

Cláusula 9... Cláusula 10... Cláusula 11...

Pulei a página seguinte. Fui direto pra folha final.

Na linha pontilhada abaixo do meu nome impresso, apertei a caneta e assinei “Lena Whitmore” pela última vez como mulher livre.

Empurrei o contrato pelo balcão na direção do assessor e larguei a caneta em cima da mesa. O clique da tampa pareceu tranca de cela.

— Feito — eu disse, a garganta seca.

O homem magro pegou o documento, conferiu a assinatura final e assentiu pra Vincent.

Blackwood finalmente tirou os olhos de mim e olhou pra pasta. Ele sabia o que eu tinha feito. Sabia que a pressão do tempo tinha me feito rubricar as últimas páginas no escuro. E, pelo jeito que ele ajeitou o botão do paletó antes de se virar pra porta do tabelião, eu tive certeza de que o que quer que estivesse escrito naquelas páginas que eu não li ia ser a minha ruína.

— O juiz de paz está esperando — Vincent avisou, oferecendo o braço pra eu segurar, como manda o figurino.

Eu não toquei nele. Passei reto, indo em direção à porta dupla do cartório.

Eu tinha assinado o contrato. Mas a leitura calma das Cláusulas 12 em diante ia ficar pra outro dia. Um dia em que eu ia descobrir que tinha vendido bem mais do que só a minha imagem.

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