Mundo ficciónIniciar sesiónPROPOSTA INDECOROSA, TERMOS ACEITÁVEIS
O banco do SUV blindado não fazia um ruído. Nem rangido, nem barulho de motor. Eu só sabia que o carro estava em movimento porque os postes lá fora passavam rápido demais. Estava acostumada a metrô lotado, não a carro que parecia flutuar no asfalto. O trajeto da lanchonete até a Faria Lima durou menos de quinze minutos. O motorista não disse uma palavra, o painel não tocava música, e o vidro escuro me isolava da garoa. Eu estava sendo transportada como um pacote de alto risco. E, considerando o documento na minha bolsa, talvez eu fosse exatamente isso. O carro desceu para a garagem de uma torre espelhada que se enfiava no céu de São Paulo como se quisesse furar a nuvem. O elevador foi ativado com um cartão do motorista e subiu quarenta e cinco andares sem fazer ruído nem parada. Minhas orelhas estalaram com a pressão. Meu estômago já tinha ficado lá embaixo há muito tempo. As portas se abriram direto em uma antessala limpa demais. Sem secretária, sem revista de negócios jogada na mesinha. Só carpete grosso engolindo o som dos meus coturnos baratos e uma porta dupla de madeira entreaberta. Empurrei a porta. O escritório era grande demais para um homem só. Mesa enorme, duas telas ligadas, nenhum porta-retrato. A cidade piscava lá fora, mas a sensação era de sala fechada, não de mirante. Vincent Blackwood estava de pé perto da mesa, servindo uísque num copo de cristal. Ele era mais alto do que parecia nas capas de revista. Perto de um metro e noventa, cabelo escuro, ombros largos cobertos por um terno impecável que ele usava como quem veste uniforme, não por vaidade. Quando ele se virou, a primeira coisa que me acertou foi a cor dos olhos. Cinza. Não o cinza de céu nublado, mas o cinza de prédio sem janela, de parede de concreto. Ele não sorriu. Não ajeitou a postura. Só me analisou, e eu tive a sensação exata de ser um prédio condenado sendo inspecionado pelo engenheiro-chefe. Apoiei a bolsa no ombro, mantendo o queixo reto. Ele devia estar acostumado a ver gente recuar ou mexer na gravata quando ele entrava. Eu cruzei os braços e tracei mentalmente a distância até a porta. — Senhorita Whitmore. — A voz dele era grave, o tipo de voz que manda na sala sem precisar subir um tom. — Você tem um péssimo jeito de convidar pessoas pra tomar café, senhor Blackwood. — Eu não convido pessoas pra tomar café. Sente-se. Ele indicou uma das cadeiras de couro em frente à mesa. Eu não me mexi. — Prefiro ficar de pé pra negociar os termos da minha rendição. Vincent deu um gole lento no uísque. O gelo bateu no cristal, seco. Ele deixou o copo na mesa e veio até parar a dois metros de mim. A presença física dele era quase opressiva. Cheiro de perfume caro e de reunião que ninguém ousa chegar atrasado. — Não há negociação. Os termos foram redigidos com clareza. Você leu o contrato. — Eu li um termo de refém disfarçado de juros corporativos — rebati, a raiva finalmente passando da exaustão. — Meu pai cometeu crime financeiro, sim. Eu não sou ingênua, sei quem o Roberto é. Mas você não quer o dinheiro dele, porque o dinheiro dele não é nada pra você. A Cláusula 4 exige que eu me mude pra sua casa. A 5 exige controle da minha imagem. Por que eu? Ele enfiou uma das mãos no bolso da calça. A postura relaxou um nada, mas o olhar continuava preso no meu rosto. Ele estava procurando medo. E o fato de eu estar devolvendo com raiva parecia tirar ele um milímetro do eixo. — Seu pai fez mais do que movimentar dinheiro — Vincent disse. — Ele falou demais, com gente com quem eu não faço negócio. Ele abriu um buraco na minha estrutura. — E você vai me usar de cimento pra fechar. — Eu vou usar você como garantia de que ele não vai abrir a boca de novo. Se você estiver sob o meu teto, Roberto não respira sem a minha permissão. A sinceridade fria quase soava como respeito. Ele não estava tentando me convencer. Estava só avisando. — Então é isso — eu disse, rindo sem achar graça. — Um sequestro de luxo por seis meses. Eu viro sua funcionária vinte e quatro horas, você paga a fiança e a gente finge que se tolera em evento de gala. Vincent inclinou a cabeça, como se analisasse um defeito curioso numa máquina. — Você não leu a versão final do contrato que meu assessor deixou no restaurante, leu? — Ele deu um passo à frente, entrando de vez no meu espaço. — Não é prestação de serviço, Lena. A mídia não compra “assessora morando na casa do chefe” sem questionar. A mídia compra uma união. Minha cabeça travou por dois segundos. A palavra ficou ali, entre a gente, pesada. — Casamento — ele disse, baixinho. — O senhor está louco — saiu de mim antes mesmo de eu pensar. — Eu não vou casar com o credor do meu pai pra salvar a pele dele. Isso é doentio. Foi aí que aconteceu. A máscara de gelo de Vincent Blackwood rachou, só nas bordas. O canto da boca dele subiu milímetros. Ele sorriu. Pela primeira vez. E não foi um sorriso pra acalmar ninguém. — Acredite no que eu digo, Lena. Você vai. Porque a transferência da fiança precisa estar na conta do juiz amanhã às onze. E o cartório abre às nove. Eu não recuei, mesmo com o corpo inteiro querendo dar um passo pra trás. Minhas unhas se cravaram na palma da mão, marcando meia-lua na pele. Ele tinha calculado tudo. O tempo, o desespero, a falta de opção. Roberto estaria morto em uma semana na penitenciária estadual, e nós dois sabíamos disso. — Casamento civil — falei, minha voz saindo bem mais fria do que a bagunça na minha cabeça. — Sem igreja. Sem festa. Sem padre. Se eu vou vender meu nome pra tampar o buraco que meu pai cavou, a gente vai fazer isso em cartório de centro, assinando papel como quem compra lote. Vincent me encarou por um bom tempo. O silêncio no escritório pesava, só o barulho distante do trânsito lá embaixo. Eu esperei ele pedir circo midiático, vestido branco, foto em revista. Mas ele só balançou a cabeça, concordando. — Apenas o civil. Sem convidados. Era uma vitória vazia. Eu tinha acabado de escolher o cenário do meu próprio abate, e ele deixou porque, no fim, a coleira ia estar no meu pescoço de qualquer jeito. Ele se virou pra mesa de mogno, abriu uma gaveta e tirou outra cópia do contrato que pesava na minha bolsa. Alinhou as folhas sobre a madeira. Depois pegou uma caneta e estendeu pra mim. O metal brilhou sob a luz da cidade. — Escolha — ele disse.






