Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlexander Blackwood
Naquela noite, sozinho na cobertura, servi uma dose de uísque. Observei as luzes da cidade pela varanda. O império que construí estava escapando das minhas mãos. E tudo por uma única razão. Eu estava sozinho. Sem esposa. Sem filhos. Sem herdeiros. Sem alguém para dividir o peso da coroa. Naquele momento, ainda acreditava que um casamento seria apenas mais um contrato. Uma assinatura. Uma obrigação. Eu ainda não sabia que a mulher destinada a mudar minha vida jamais aceitaria ser apenas um nome em um documento. E, quando ela surgisse, descobriria que o verdadeiro preço do império nunca foi o dinheiro. Foi a parte de mim que precisei sacrificar para mantê-lo de pé. Nunca imaginei que um contrato pudesse decidir o meu destino. Durante toda a minha vida, fui eu quem assinou contratos. Eu comprava empresas. Vendia ações. Fechava acordos internacionais. Colocava minha assinatura em documentos que movimentavam bilhões. Mas, pela primeira vez, O contrato seria sobre mim. ***** Na manhã seguinte, acordei antes do amanhecer. Não havia dormido mais que duas horas. A conversa com meu pai continuava ecoando na minha cabeça. "Você tem noventa dias." Noventa dias para encontrar uma esposa. Noventa dias para convencer uma desconhecida a dividir a vida comigo. Noventa dias para salvar o império Blackwood. Olhei para o teto do quarto. A cobertura permanecia silenciosa. Silenciosa demais. Não havia risadas. Não havia cheiro de café sendo preparado por alguém que me esperava. Não havia fotografias de família espalhadas pelos móveis. Aquele apartamento era um retrato perfeito da minha vida. Luxuoso. Organizado. E completamente vazio. Levantei-me da cama. Vestir um terno era mais fácil do que enfrentar os próprios pensamentos. Enquanto ajustava a gravata diante do espelho, encarei meu reflexo. Olhos azuis. Mandíbula marcada. Expressão séria. A imprensa dizia que eu era o homem mais desejado do país. Se ao menos soubessem... Nunca fui desejado por quem eu era. As pessoas desejavam meu sobrenome. Meu dinheiro. Meu poder. Jamais Alexander. Às oito horas, Lucas entrou no meu escritório. Trazia uma pasta grossa debaixo do braço. Assim que a colocou sobre minha mesa, percebi pelo sorriso discreto que ele havia preparado alguma coisa. — O que é isso? — Sua única saída. Abri a pasta. Centenas de páginas. Fotografias. Perfis. Informações pessoais. Fechei-a imediatamente. — Explique. Lucas puxou uma cadeira. — Essas são mulheres que aceitariam um casamento estratégico. Cruzei os braços. — Você fez um catálogo de esposas? Ele riu. — Prefiro chamar de levantamento de possibilidades. Olhei novamente para a pasta. Aquilo parecia absurdo. Meu casamento havia sido transformado em uma seleção de candidatos. Sem sentimentos. Sem romance. Sem escolha. Apenas negócios. Folheei algumas páginas. Uma modelo internacional. Uma herdeira de uma empresa farmacêutica. Uma influenciadora digital. Filhas de políticos. Empresárias. Socialites. Todas impecáveis. Todas bonitas. Todas sorrindo para as câmeras. Todas pareciam exatamente iguais. Fechei a pasta outra vez. — Não. Lucas franziu a testa. — Nem terminou de olhar. — Não preciso. — Alexander... — Nenhuma delas serve. — E o que exatamente você procura? Pensei durante alguns segundos. Era uma pergunta simples. Mas nunca havia refletido sobre isso. — Alguém que não esteja interessada na minha fortuna. Lucas começou a rir. — Boa sorte encontrando essa mulher. Passei o restante da manhã mergulhado em reuniões. Mas minha concentração desaparecia a cada poucos minutos. As palavras do conselho voltavam como um martelo. "A empresa precisa de estabilidade." "Os investidores exigem um herdeiro." "Você deve se casar." Eu odiava quando tentavam controlar minha vida. Sempre odiei. Foi exatamente por isso que saí da casa dos meus pais aos vinte e um anos. Precisava respirar. Precisava provar que era capaz de construir meu próprio caminho. Construí. Transformei a Blackwood Empire em uma potência mundial. Mesmo assim. Ainda era tratado como um garoto incapaz de tomar decisões. No início da tarde, fui chamado novamente à mansão da família. Meu pai me esperava na biblioteca. Como sempre. Aquele cômodo parecia representar perfeitamente quem ele era. Organizado. Elegante. Frio. Ele permaneceu olhando pela janela. Nem sequer me cumprimentou. — Sentado. Não obedeci. Continuei em pé. — Se me chamou para falar sobre casamento, pode economizar seu tempo. Ele finalmente virou. Os cabelos grisalhos contrastavam com os olhos igualmente frios. — Você acha que isso é sobre você? Respondi sem hesitar. — É a minha vida. Ele balançou a cabeça. — Não. É sobre o nome Blackwood. Aquelas palavras me atingiram de forma diferente. Durante toda a minha infância ouvi exatamente a mesma coisa. Quando queria brincar. Quando queria viajar. Quando queria escolher minha profissão. Quando queria viver. "Você é um Blackwood." Como se isso fosse mais importante do que ser humano. — Meu nome sustentou esse império por quinze anos. Meu pai caminhou lentamente até uma antiga fotografia. Era uma imagem da minha mãe. Ela sorria. Segurava minha mão. Eu devia ter uns seis anos. — Sua mãe acreditava que eu estava errado. Olhei para a fotografia. — Ela estava certa. Ele ignorou meu comentário. — Ela dizia que um homem precisava de amor. Fez uma pausa. Depois sorriu de maneira amarga. — O amor a matou. Meu peito apertou. — Não. A falta dele foi o que a matou. O silêncio tomou conta da biblioteca. Foi a primeira vez, em muitos anos, que enfrentei meu pai daquela maneira. Ele respirou profundamente. — Você se parece muito com ela. Franzi a testa. — Não. Você passa a vida tentando convencer o mundo de que não sente nada. Mas seus olhos continuam exatamente iguais aos dela. Desviei o olhar. Porque ele tinha razão. Minha mãe enxergava as pessoas. Eu tentava não enxergar ninguém. Era a única maneira de sobreviver.






