Alexander Blackwood
E agora queriam usar tudo isso para me obrigar a colocar uma aliança no dedo.
Fechei a pasta lentamente.
— Nunca amarei mulher nenhuma.
Meu pai sorriu.
Um sorriso frio.
Calculista.
— Ótimo.
Porque amor nunca foi uma exigência.
Naquele instante, sem que eu percebesse, meu destino começou a mudar.
Em algum lugar da cidade existia uma mulher que acreditava não ser digna de ser amada.
E eu, um homem que acreditava ser incapaz de amar.
O que nenhum de nós imaginava era que nossas maiores feridas seriam exatamente o caminho que nos levaria um ao outro.
****
Existe uma diferença entre nascer rico e nascer dentro de um império.
Quem nasce rico aprende a gastar dinheiro.
Quem nasce dentro de um império aprende que cada decisão custa uma parte da própria vida.
Eu nunca tive escolha.
Desde criança, meu sobrenome foi mais importante que meu nome.
Antes de ser Alexander.
Eu já era um Blackwood.
Na manhã seguinte à conversa com meu pai, cheguei à empresa antes das sete horas.
O último andar da Blackwood Empire era silencioso.
Do lado de fora, a cidade despertava lentamente.
Do lado de dentro, uma guerra começava.
Minha secretária entrou carregando um tablet.
— Bom dia, senhor Blackwood.
— O primeiro compromisso?
Ela consultou a agenda.
— Reunião extraordinária com o conselho administrativo às sete e meia.
Levantei os olhos.
— Extraordinária?
— Sim.
Respirei fundo.
Isso nunca significava boas notícias.
Às sete e trinta em ponto, entrei na sala de reuniões.
Meu pai já estava sentado.
Ao redor da mesa encontravam-se os maiores acionistas do grupo.
Todos vestidos com ternos caros.
Todos sorrindo de forma educada.
Todos escondendo interesses por trás da cordialidade.
Sentei-me na cabeceira.
— Vamos direto ao assunto.
O diretor financeiro abriu uma apresentação.
Gráficos surgiram na enorme tela.
Linhas verdes.
Linhas vermelhas.
Números.
Lucros.
Projeções.
Tudo aquilo fazia parte da minha rotina.
Até que apareceu um gráfico diferente.
As ações da Blackwood Empire começavam a oscilar.
Olhei para o diretor.
— Explique.
Ele engoliu em seco.
— Os investidores estão preocupados.
— Com o quê?
— Com o futuro da empresa.
Cruzei os braços.
— O faturamento b**e recordes todos os anos.
— Sim.
— Expandimos para três novos mercados.
— Sim.
— Então qual é o problema?
O silêncio tomou conta da sala.
Foi meu pai quem respondeu.
— Você.
Olhei para ele.
— Eu?
— Você não é casado.
Soltei uma risada baixa.
Inacreditável.
— Estamos falando de uma empresa avaliada em bilhões...
E o problema é meu estado civil?
Um dos acionistas tomou coragem.
— Senhor Blackwood...
Os investidores enxergam estabilidade quando existe uma família.
Um herdeiro.
Uma sucessão clara.
Caso algo aconteça com o senhor...
Quem assumiria o controle?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Eu nunca havia pensado nisso.
Não porque me achasse imortal.
Mas porque nunca tive tempo para imaginar um futuro diferente daquele escritório.
Minha vida sempre foi trabalho.
Nada além disso.
A reunião terminou sem qualquer solução.
Assim que todos saíram, permaneci sozinho observando a cidade.
Lucas entrou alguns minutos depois.
Trazia duas xícaras de café.
Entregou uma para mim.
— Você está mais irritado que o normal.
Continuei olhando pela janela.
— Eles querem controlar minha vida.
— Eles querem proteger o dinheiro deles.
— Exatamente.
Lucas ficou ao meu lado.
— Posso fazer uma pergunta?
— Faça.
— Você já pensou em como seria sua vida se não fosse um Blackwood?
Sorri pela primeira vez.
Um sorriso vazio.
— Nunca existiu essa possibilidade.
Meu pai escolheu meu destino antes mesmo do meu nascimento.
Lucas permaneceu em silêncio.
Ele conhecia minha história.
Mas ninguém conhecia todos os detalhes.
Eu tinha apenas nove anos quando participei da minha primeira reunião empresarial.
Enquanto outras crianças brincavam no parque, eu passava horas sentado ouvindo adultos discutirem contratos.
Naquele dia, depois da reunião, perguntei ao meu pai:
— Posso brincar lá fora?
Ele nem levantou os olhos dos documentos.
— Herdeiros não brincam.
Eles aprendem.
Nunca esqueci aquelas palavras.
A partir daquele momento, minha infância terminou.
Aprendi cinco idiomas.
Administração.
Economia.
Direito.
Finanças.
Tudo.
Menos uma coisa.
Como ser feliz.
Minha mãe tentava compensar a frieza dele.
Todas as noites esperava eu voltar dos estudos para jantarmos juntos.
Ela perguntava sobre meu dia.
Escutava meus problemas.
Contava histórias.
Era o único momento em que eu me sentia apenas um menino.
Não um sucessor.
Mas ela partiu cedo demais.
Depois que a perdi...
Meu pai proibiu qualquer demonstração de tristeza.
— Homens Blackwood não choram.
Obedeci.
Naquele dia enterrei minha mãe.
E junto dela enterrei todas as minhas emoções.
Uma batida na porta interrompeu minhas lembranças.
Era minha secretária.
— Senhor Blackwood...
Há jornalistas esperando.
Franzi a testa.
— Sobre o quê?
— Há rumores de que o conselho deseja mudanças na presidência.
A notícia se espalhava mais rápido do que imaginei.
Respirei fundo.
Peguei meu paletó.
— Prepare a coletiva.
Os flashes das câmeras iluminavam o salão.
Assim que subi ao palco, dezenas de perguntas começaram ao mesmo tempo.
— Senhor Blackwood!
É verdade que existe uma crise na empresa?
— O senhor será substituído?
— Os investidores exigem seu casamento?
Ignorei todas.
Ajustei o microfone.
— A Blackwood Empire continua sólida.
Não existe crise financeira.
Nem risco de falência.
Os investimentos seguem normalmente.
Uma jornalista levantou a mão.
— Senhor Blackwood...
Então por que as ações oscilaram?
Olhei diretamente para ela.
— Porque pessoas confundem rumores com fatos.
Outro jornalista insistiu.
— O senhor pretende se casar?
Meu silêncio respondeu antes de qualquer palavra.
Os fotógrafos dispararam dezenas de flashes.
Sorri discretamente.
Um sorriso frio.
Calculado.
— Minha vida pessoal jamais será assunto desta empresa.
Virei as costas e deixei o palco.
Assim que entrei no elevador privativo, senti meu celular vibrar.
Era uma mensagem do meu pai.
"Você pode esconder a verdade da imprensa, Alexander. Mas não pode escondê-la do conselho."
Fechei os olhos.
A pressão aumentava a cada hora.
Pela primeira vez em muitos anos, eu estava cercado.
Não por concorrentes.
Não por inimigos.
Mas pela própria família.
Enquanto o elevador subia, observei meu reflexo nas portas de aço.
Terno impecável.
Gravata perfeitamente alinhada.
Olhar frio.
Expressão inabalável.
Todos enxergavam um homem poderoso.
Ninguém imaginava o peso que aquele sobrenome carregava.