Alexander Blackwood
Dizem que um homem que tem tudo não precisa de mais nada.
Mentira.
Quanto mais você possui, mais pessoas tentam tirar isso de você.
Aprendi essa lição antes mesmo de completar dezoito anos.
Meu nome é Alexander Blackwood.
Tenho trinta e seis anos.
Sou presidente da Blackwood Empire, um conglomerado presente em dezenas de países, avaliado em bilhões.
Os jornais me chamam de gênio dos negócios.
Os concorrentes me chamam de monstro.
Os funcionários me chamam de senhor.
Mas existe uma palavra que define exatamente quem eu me tornei.
Frio.
E fui eu quem escolheu ser assim.
Porque sentimentos custam caro.
E eu já havia pago um preço alto demais.
Meu despertador nunca tocava.
Não precisava.
Às cinco da manhã meus olhos se abriam automaticamente, como acontecia havia anos.
Disciplina.
Era assim que meu pai me criou.
Enquanto outras crianças aprendiam a brincar, eu aprendia a administrar empresas.
Enquanto outros meninos ganhavam brinquedos, eu recebia livros sobre economia.
Enquanto outros eram abraçados...
Eu aprendia que homens fortes não precisavam de carinho.
Levantei da cama e caminhei até a enorme janela da cobertura.
A cidade ainda dormia.
Luzes espalhadas iluminavam avenidas quase vazias.
Lá embaixo, milhares de pessoas começariam mais um dia sem imaginar que um dos homens mais ricos do país acordava todas as manhãs com a mesma sensação de vazio.
Minha cobertura era luxuosa.
Obras de arte.
Móveis importados.
Tecnologia de última geração.
Silêncio absoluto.
Nenhuma fotografia.
Nenhuma lembrança.
Nenhuma família.
Parecia um museu.
Bonito.
Frio.
Assim como eu.
Entrei na academia particular.
O cheiro de ferro e couro sempre me acalmava.
Comecei o treino.
Cada soco no saco de pancadas carregava anos de frustrações.
Meu pai dizia que dor era fraqueza.
Então aprendi a transformar qualquer sentimento em esforço.
Quando terminei, meu corpo estava coberto de suor.
Mas minha mente continuava pesada.
Peguei uma toalha.
Nesse instante, meu celular vibrou.
Lucas.
Meu melhor amigo.
Meu advogado.
Uma das poucas pessoas que ainda ousava falar comigo sem medo.
Atendi.
— Fale.
Do outro lado da linha ele riu.
— Você realmente não sabe dizer "bom dia", não é?
— O que aconteceu?
— Reunião às oito.
Seu pai confirmou presença.
Meu humor piorou imediatamente.
Meu pai nunca aparecia sem motivo.
E, quando aparecia...
Alguém sempre saía perdendo.
Às oito em ponto, entrei na Blackwood Empire.
O prédio possuía sessenta andares.
Todo revestido de vidro.
Imponente.
Assim como o sobrenome estampado na entrada.
Assim que atravessei o saguão, os funcionários interromperam as conversas.
Era sempre assim.
O ambiente mudava quando eu chegava.
Uns abaixavam a cabeça.
Outros endireitavam a postura.
Alguns sequer respiravam direito.
Nunca pedi respeito.
Conquistei através do medo.
Porque medo era mais eficiente que simpatia.
A recepcionista sorriu.
— Bom dia, senhor Blackwood.
Assenti discretamente.
Entrei no elevador privativo.
Sozinho.
Sempre sozinho.
A reunião começou exatamente às oito e cinco.
O diretor financeiro fazia uma apresentação sobre os resultados do trimestre.
Projetos.
Lucros.
Expansões.
Tudo estava dentro do esperado.
Até que ele mudou de expressão.
— Senhor Blackwood...
Olhei para ele.
— Tivemos um pequeno problema.
Pequeno.
Eu odiava essa palavra.
— Continue.
Ele respirou fundo.
— Perdemos um contrato importante na Europa.
Cruzei os braços.
— Quanto?
— Aproximadamente cento e cinquenta milhões.
Silêncio.
Todos esperavam minha reação.
Levantei lentamente.
Caminhei até a tela onde os gráficos estavam sendo exibidos.
Olhei para cada diretor.
— Digam-me uma coisa.
Ninguém respondeu.
— Se perderam esse contrato...
Quem aqui acredita que fez um bom trabalho?
O silêncio permaneceu.
— Exatamente.
Desliguei a apresentação.
— Quero uma solução até amanhã.
— Mas...
O diretor tentou argumentar.
Olhei diretamente para ele.
— Amanhã.
Minha voz era calma.
Mas bastava isso para encerrar qualquer discussão.
Quando todos saíram da sala, Lucas entrou segurando duas xícaras de café.
Colocou uma diante de mim.
— Você assusta pessoas demais.
Peguei o café.
— Elas são pagas para trabalhar.
— Também são seres humanos.
Sorri sem humor.
— Esse detalhe nunca aumentou os lucros da empresa.
Lucas balançou a cabeça.
— Você realmente não sente pena de ninguém?
Olhei pela janela.
Pensei durante alguns segundos.
Depois respondi.
— Pena não fecha contratos.
Ele permaneceu em silêncio.
Sabia que eu acreditava naquilo.
Ou pelo menos tentava acreditar.
No fim da tarde fui chamado à mansão da família.
Meu pai já me esperava na biblioteca.
O ambiente tinha cheiro de madeira antiga e livros raros.
Sebastian Blackwood permanecia de pé, observando a lareira acesa.
Nem sequer virou quando entrei.
— Você chegou.
— Sim.
Ele continuou olhando para o fogo.
— Sabe por que sua mãe morreu triste?
Fechei o semblante.
Aquela pergunta foi inesperada.
— Não.
Ele finalmente me encarou.
— Porque acreditou que amor era suficiente.
Meu peito apertou.
Minha mãe era a única pessoa que realmente havia me amado.
Ela passava horas tentando convencer meu pai de que dinheiro não era tudo.
Ele nunca escutou.
No dia em que ela morreu, prometi a mim mesmo que jamais permitiria que alguém tivesse poder para me destruir daquela forma.
Meu pai voltou a falar.
— Sua mãe era fraca.
Foi a gota d'água.
Aproximei-me dele.
— Nunca mais fale dela dessa maneira.
Ele sustentou meu olhar sem recuar.
— Está vendo?
Essa é exatamente a diferença entre nós.
Você ainda sente.
Mesmo tentando esconder.
Fiquei em silêncio.
Porque ele tinha razão.
Eu havia enterrado meus sentimentos.
Mas eles nunca morreram completamente.
Apenas estavam presos em algum lugar que eu me recusava a visitar.
Sebastian caminhou até uma gaveta e retirou um documento.
Colocou-o sobre a mesa.
— Está na hora de cumprir seu dever.
Olhei para a pasta.
— Que dever?
— Casar.
Ri pela primeira vez em muitos dias.
Uma risada seca.
Sem alegria.
— Deve estar brincando.
— Nunca falei tão sério.
Abri a pasta.
Havia documentos, cláusulas e exigências do conselho administrativo.
Meu casamento era tratado como uma negociação empresarial.
— Não vou me casar.
Meu pai cruzou os braços.
— Vai.
— Não.
— Então perderá o controle da Blackwood Empire.
Meu coração permaneceu calmo.
Mas minha mente entrou em guerra.
Passei anos construindo aquele império.
Sacrifiquei minha juventude.
Minha liberdade.
Minha felicidade.