O CONTRATO DA MINHA IMPERFEIÇÃO
O CONTRATO DA MINHA IMPERFEIÇÃO
Por: Euridce
CAPÍTULO 1

Evelyn Carter

O despertador tocou às seis horas da manhã.

Abri os olhos devagar, encarando o teto branco do meu pequeno apartamento.

Durante alguns segundos, fiquei ali, imóvel, tentando encontrar um motivo para levantar da cama.

Todos os dias pareciam iguais.

As mesmas ruas.

As mesmas pessoas.

Os mesmos olhares.

E a mesma sensação de nunca ser suficiente.

Soltei um suspiro longo antes de me levantar.

O piso gelado fez meus pés arrepiarem, mas eu mal percebi. Caminhei até o banheiro e acendi a luz.

Então aconteceu o ritual que eu mais odiava.

Olhar para mim.

Fiquei diante do espelho em silêncio.

Meu cabelo cacheado estava completamente bagunçado. Meus olhos castanhos ainda carregavam o cansaço da noite anterior.

Mas não era isso que eu enxergava.

Nunca foi.

Meu olhar desceu lentamente pelo meu rosto, meus ombros, meus seios, minha cintura larga, meus quadris, minhas pernas...

Eu só conseguia ver aquilo que o mundo passou anos me ensinando a enxergar.

Defeitos.

Fechei os olhos.

Ainda conseguia ouvir a voz da minha tia durante um almoço de família quando eu tinha apenas dez anos.

— Evelyn é uma menina bonita... pena que come demais.

Todos riram.

Inclusive eu.

Aprendi cedo que rir junto fazia doer um pouco menos.

Quando completei treze anos, uma colega da escola olhou para mim durante a aula de educação física.

— Você sabe que ninguém vai querer dançar com você na festa, né?

Naquele dia inventei uma febre para não ir.

Foi a primeira de muitas vezes em que escolhi desaparecer antes que alguém me rejeitasse.

Passei a mão sobre o espelho embaçado.

— Você já não é mais aquela menina...

Minha voz saiu baixa.

Mas meu coração não acreditava.

Abri o guarda-roupa.

Havia poucas roupas.

Quase todas escuras.

Largas.

Discretas.

Eu passava horas procurando peças que escondessem meu corpo.

Não porque eu gostasse.

Porque aprendi que ocupar pouco espaço incomodava menos as pessoas.

Meus dedos tocaram um vestido vermelho.

Era lindo.

Eu o havia comprado há quase um ano.

Nunca tive coragem de usar.

Sorri sem humor.

— Um dia...

Fechei o armário.

Escolhi o blazer preto de sempre.

A calça preta de sempre.

A blusa branca de sempre.

Era impossível chamar atenção daquele jeito.

E talvez fosse exatamente isso que eu queria.

...

Enquanto preparava café, meu celular vibrou.

"Mamãe."

Sorri imediatamente.

— Bom dia, filha.

— Bom dia, mãe.

— Dormiu bem?

Mentira.

— Dormi.

Ela percebeu.

Sempre percebia.

— Evelyn...

Fiquei em silêncio.

— Você voltou a chorar ontem?

Olhei pela janela.

A cidade já começava a despertar.

Pessoas caminhavam apressadas.

Carros passavam.

A vida seguia.

Enquanto eu ainda tentava juntar os pedaços da minha autoestima.

— Foi só um dia difícil.

— Ou mais um dia em que fizeram você esquecer quem é?

Engoli em seco.

Minha mãe conhecia todas as minhas dores.

Ela as viu nascer.

Ela esteve presente cada vez que eu chegava da escola fingindo que estava tudo bem.

Cada vez que eu dizia que não queria ir às festas.

Cada vez que escondia o rosto nas fotos.

— Filha...

A voz dela era doce.

— Você não precisa pedir desculpas por existir.

As lágrimas chegaram sem pedir licença.

— Eu sei.

Mas eu não sabia.

Nunca soube.

...

Cheguei ao trabalho quinze minutos antes do horário.

Gostava disso.

Quanto menos pessoas encontrasse no elevador, melhor.

Minha mesa ficava no canto da agência.

Longe das janelas.

Longe da recepção.

Longe de todos.

Era quase como se aquele lugar tivesse sido feito para alguém invisível.

E talvez tivesse.

Liguei o computador.

Antes mesmo de abrir meus e-mails, ouvi gargalhadas atrás de mim.

— Nossa, a cliente nova parece modelo.

— Ainda bem que quem vai apresentar é a Isabella.

— Imagina colocar a Evelyn na frente de um cliente milionário...

Os três riram.

Meu estômago embrulhou.

Continuei digitando.

Fingindo.

Sempre fingindo.

Era incrível como as pessoas acreditavam que alguém acima do peso não escutava.

Ou talvez simplesmente não se importassem.

...

Pouco depois, meu chefe apareceu.

— Evelyn.

Levantei a cabeça.

— Sim?

— O projeto foi aprovado.

Meu coração acelerou.

Passei semanas trabalhando nele.

Virando noites.

Refazendo apresentações.

Pesquisando estratégias.

— Sério?

— Sim.

Sorri.

Finalmente.

Talvez...

Talvez fosse meu momento.

Então ele continuou.

— Quem fará a apresentação será a Isabella.

Meu sorriso desapareceu.

— Mas...

Fui eu quem criou o projeto.

Ele desviou o olhar.

— Você sabe como funciona.

Não.

Eu sabia exatamente como funcionava.

Eles queriam alguém bonita.

Alguém que vendesse uma imagem perfeita.

Não uma mulher como eu.

— Entendi.

Não tinha entendido.

Tinha me machucado.

Mais uma vez.

...

Na hora do almoço sentei sozinha perto da janela.

Observei meu reflexo no vidro.

Era estranho.

Eu sempre me senti invisível.

Mas, ao mesmo tempo, parecia que todos olhavam para mim apenas para encontrar algo errado.

Meu peso.

Meu rosto.

Meu cabelo.

Minha roupa.

Sempre havia alguma coisa.

Peguei o celular.

Uma nova mensagem da minha mãe.

"Nunca deixe que um espelho conte uma história diferente daquela que Deus escreveu sobre você. Você é suficiente. Sempre foi."

As lágrimas escorreram sem que eu pudesse impedir.

Segurei o telefone contra o peito.

Naquele momento, eu não fazia ideia de que minha vida estava prestes a mudar completamente.

Enquanto eu tentava convencer a mim mesma de que merecia existir, um homem conhecido por nunca amar ninguém estava prestes a tomar a decisão mais inesperada de sua vida.

E, sem saber, escolheria justamente a mulher que o mundo inteiro havia aprendido a ignorar.

Eu.

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