— Vejo que você está machucada.
Ela virou lentamente.
E o viu.
Alessandro Moretti estava encostado em um carro preto parado à beira da estrada.
Os faróis estavam apagados, mas a luz fraca da lua era suficiente para revelar seu rosto.
Perto dele estavam dois homens.
O assistente pessoal dele — que também dirigia — e outro segurança.
Giulia sentiu o sangue gelar.
Então correu.
Ou pelo menos tentou.
Mas a dor no tornozelo a fez mancar após poucos passos.
Era inútil.
Alessandro observou a tentativa dela com uma expressão quase divertida.
— Entre no carro, Giulia.
O tom era firme.
Ela virou-se novamente para ele.
— Eu não vou entrar em lugar nenhum com o senhor.
Alessandro soltou um pequeno suspiro.
— Sabe…
Ele deu alguns passos na direção dela.
— Você acabou de facilitar muitas coisas para mim.
Os olhos dele se estreitaram levemente.
— Porque eu já suspeitava que não podia confiar em você.
Uma pausa.
O canto da boca dele se ergueu em um sorriso frio.
— Uma vez fugitiva… sempre fugitiva.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Não é mesmo, noviça?
Giulia sentiu a raiva subir.
Mas Alessandro ainda não tinha terminado.
— Mas saiba que seu pequeno plano de fuga acabou me ajudando bastante.
Ela franziu o cenho.
— Como assim?
Ele respondeu com tranquilidade absoluta:
— Porque agora a história fica muito mais simples.
Giulia o encarou.
— Que história?
Ele cruzou os braços.
— A história de que uma noviça resolveu correr atrás do pai de uma aluna.
O coração dela disparou.
— O quê?
Ele continuou, completamente calmo.
— E que vocês dois tiveram uma noite… bastante intensa.
Os olhos dela se arregalaram.
— Eu o quê?
Alessandro deu de ombros.
— É isso que a madre vai saber.
O silêncio caiu pesado entre eles.
Giulia sentiu a raiva e o desespero se misturarem no peito.
Mas ela não podia deixar que ele visse o desespero que começava a crescer dentro dela.
Não diante dele.
Não diante de ninguém.
Ela respirou fundo e ergueu o queixo.
Então deixou um pequeno sorriso irônico aparecer em seus lábios.
— O senhor pode contar essa história para a madre se quiser.
Ela cruzou os braços com calma.
— Mas ela não vai acreditar.
Os olhos dela brilharam com desafio.
— Ela sabe muito bem o quanto eu desprezo o senhor.
Por um breve instante, o silêncio caiu entre eles.
Atrás de Alessandro, o assistente — que também dirigia para ele — desviou o olhar por um momento.
Ele havia escutado tudo.
E não pôde evitar a surpresa.
Nunca tinha visto ninguém falar com Alessandro Moretti daquele jeito.
Muito menos na frente dele.
O canto de sua boca quase se ergueu em um sorriso contido, mas ele rapidamente voltou à expressão neutra.
Alessandro percebeu.
E isso apenas fez sua expressão endurecer um pouco mais.
Ele franziu levemente a testa.
Então deu mais um passo em direção a Giulia.
— Muito bem.
A voz dele saiu mais fria agora.
— Se você prefere assim…
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Posso simplesmente entregá-la à polícia.
O sangue de Giulia pareceu congelar.
Ele continuou, como se estivesse comentando algo banal.
— Falsidade ideológica.
Uma pequena pausa.
Os olhos dele se estreitaram.
— E também posso citar o nome de quem ajudou você a fugir da casa dos seus pais.
Ele lançou um rápido olhar na direção do assistente antes de voltar a encará-la.
— Afinal, ajudar alguém a fugir também é crime.
O coração de Giulia deu um salto doloroso.
Seu corpo ficou imóvel.
Ela não tinha medo por si mesma.
Mas não podia…
Não podia envolver quem havia arriscado tudo para ajudá-la.
Por um instante, ela ficou completamente em silêncio.
E Alessandro percebeu imediatamente.
Ele havia encontrado o ponto certo.
Giulia sentiu o peito apertar.
O sangue parecia pulsar alto demais em seus ouvidos.
— O senhor não tem limites.
A voz dela saiu mais alta do que pretendia.
Carregada de indignação.
— Isso é cruel.
Ela deu um passo na direção dele, os olhos brilhando.
— Por que prejudicaria uma pessoa que não tem nada a ver com isso?
Ela apontou rapidamente para o assistente atrás dele.
— Ele só quis me ajudar uma vez.
A respiração dela estava irregular agora.
— Foi no passado. Não tem nada a ver com o senhor.
Os olhos dela voltaram para Alessandro.
— Deixe ele em paz.
Por um instante, o silêncio caiu novamente.
O vento da madrugada soprou entre as árvores.
Mas Alessandro não reagiu como ela esperava.
Ele apenas a observou.
Imóvel.
Frio.
Como se aquelas palavras não o afetassem nem um pouco.
Então falou, com a mesma calma de antes:
— Como eu já disse… eu não negocio para perder.
Ele fez um pequeno gesto em direção ao carro.
— Então…
Uma pequena pausa.
— Entre no carro.
Giulia ficou parada.
O peito subindo e descendo com força.
A dor no tornozelo pulsava.
A estrada escura se estendia atrás dela.
E, pela primeira vez desde que tudo começara, ela sentiu algo que raramente permitia a si mesma sentir.
Impotência.
Porque Alessandro Moretti havia fechado todas as saídas.
E ela sabia disso.
O silêncio da madrugada pareceu engoli-la enquanto permanecia ali, parada entre a fuga e a rendição.
Sem saber qual das duas opções era, na verdade, a pior.