Mundo de ficçãoIniciar sessãoGiulia saiu da sala com passos firmes, mas assim que a porta se fechou atrás dela, o peso da conversa caiu inteiro sobre seus ombros.
O corredor parecia mais longo do que antes. O ar mais pesado. Ela atravessou o pequeno pátio interno do convento quase sem perceber o caminho. As mãos estavam tensas. Os pensamentos giravam em sua mente. Gregor Varga. Cinco milhões. Casamento. Proteção. Ela parou por um instante perto do jardim, tentando organizar a confusão que tomava conta de sua cabeça. Seu peito parecia apertado demais. Então uma pequena voz alegre quebrou seus pensamentos. — Irmã Clara! Giulia levantou o olhar. Elisa corria em sua direção pelo pátio, os passinhos rápidos e desajeitados. — Eu tava te procurando! Antes que Giulia pudesse responder, a menina já estava abraçando suas pernas com força. E naquele instante algo na expressão de Giulia mudou completamente. A tensão desapareceu. A dureza em seus olhos se dissolveu. No lugar surgiu uma expressão suave. Gentil. Quase luminosa. Ela se abaixou imediatamente para ficar na altura da menina. — Oi, querida… A voz saiu doce, completamente diferente da firmeza que usara minutos antes. Ela passou a mão delicadamente pelos cabelos da criança. — O que foi? Elisa fez um biquinho leve. — Você sumiu. Giulia sorriu com carinho. — Eu só estava resolvendo algumas coisas. A menina inclinou a cabeça, observando o rosto dela com atenção. Então levantou a pequena mão e tocou a bochecha de Giulia com cuidado. — Mas você tá tristinha… O gesto foi tão simples que fez o coração de Giulia apertar. Ela segurou delicadamente a mãozinha da menina. — Não, meu amor. O sorriso dela foi carinhoso. — Eu estou bem. Ela acariciou a bochecha da criança. — E você sempre consegue me deixar bem. Elisa abriu um pequeno sorriso satisfeito. — Eu gosto de você. Giulia sentiu o coração apertar ainda mais. Ela puxou a menina para um abraço rápido e carinhoso. Às vezes, em silêncio, ela imaginava como teria sido se Elisa fosse realmente sua filha. Talvez pudesse levá-la para casa. Tirá-la daquele colégio interno. Dar a ela o amor que a menina claramente desejava. O amor que Giulia mesma sentiu falta depois que perdeu o pai. Ela ainda estava abaixada diante da menina, falando com delicadeza, quando um movimento ao longe chamou atenção. Alessandro Moretti atravessava o pátio em direção à saída do convento. Os passos dele diminuíram. Por um instante, ele parou. Observando. Seus olhos se fixaram na cena diante dele. Giulia abaixada diante de Elisa. A mão acariciando os cabelos da menina. O sorriso suave. Não havia cálculo ali. Nem estratégia. Apenas carinho. Algo raro. E, mais uma vez, Alessandro percebeu algo que já havia notado antes. Giulia Castarelli realmente gostava de sua filha. Talvez até mais do que deveria. E isso apenas tornava sua decisão… ainda mais certa. ——- O quarto estava quase totalmente escuro. A única luz vinha da pequena luminária sobre a mesa, lançando um círculo fraco de luz amarelada sobre as poucas coisas que Giulia havia separado. Ela estava arrumando tudo em silêncio. Cada movimento era rápido, mas cuidadoso. O convento dormia. Do lado de fora, o vento da madrugada balançava levemente as folhas das árvores do pátio, fazendo um sussurro constante contra as janelas antigas. Giulia fechou a pequena bolsa com mãos trêmulas. Era tudo o que podia levar. Ela respirou fundo, tentando controlar o nó apertado no peito. Então seus olhos caíram sobre algo sobre a mesa. Uma pequena fotografia. Ela pegou o retrato. Era Elisa. A menina estava sorrindo, com os cabelos bagunçados pelo vento, segurando um desenho que havia feito. Os olhos de Giulia se encheram imediatamente de lágrimas. Ela passou o polegar sobre o rosto da criança na fotografia. — Desculpa, pequena… — murmurou em voz baixa. Quando fosse embora dali, não sentiria falta do convento. Nem da rotina. Nem da identidade falsa. Mas sentiria falta dela. Da menina. Do jeito que Elisa corria até ela. Do abraço apertado. Da forma como confiava nela. Uma lágrima escapou e caiu sobre a foto. Giulia enxugou rapidamente o rosto com o dorso da mão. Não podia chorar agora. Guardou a fotografia com cuidado dentro da bolsa. Respirou fundo. Era hora. Ela apagou a pequena luminária. O quarto mergulhou na escuridão. Giulia abriu a janela com cuidado, evitando qualquer barulho. O ar frio da madrugada entrou imediatamente no quarto. Ela apoiou as mãos no parapeito. Olhou para o pátio vazio. Silencioso. Perfeito. Com cuidado, ela passou o corpo pela janela e se pendurou do lado de fora. Então soltou. Seus pés tocaram o chão de terra dos fundos do colégio. Mas o impacto foi mais forte do que esperava. — Ah! — ela soltou um pequeno gemido. Uma dor aguda atravessou seu tornozelo. Giulia apertou os dentes. Não podia parar. Apoiou-se na parede por um instante, respirando fundo. Depois começou a caminhar. Primeiro devagar. Depois tentando apressar o passo. Mas o tornozelo doía cada vez mais. Ela mancou pelo caminho de terra que levava para longe do colégio. O coração batia acelerado. Só precisava chegar à estrada. Só mais um pouco. Então uma voz masculina surgiu atrás dela. Calma. Quase casual. — Precisa de uma carona?






