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Capítulo 2 — Quando Clara desapareceu

O silêncio na sala se estendeu por alguns segundos.

Giulia permaneceu parada diante da porta, a mão ainda apoiada na maçaneta. O coração acelerado, a tensão evidente no modo como sustentava o próprio corpo.

Atrás dela, Alessandro falou novamente:

— Sente-se, Giulia.

A voz era calma.

Mas não soava como um pedido.

Giulia fechou os olhos por um instante, respirou fundo e soltou a maçaneta.

Quando se virou, encontrou o olhar dele esperando.

Sustentou por um segundo, avaliando.

Mas Alessandro não desviou.

Confiante demais.

Ela voltou até a cadeira e se sentou, o movimento mais rígido agora. Cruzou as mãos sobre o colo, tentando esconder o leve tremor nos dedos.

Alessandro observou em silêncio.

Então apoiou as mãos sobre a mesa.

— Há seis meses — começou, a voz baixa e controlada —, quando você tentou usar a minha filha para se aproximar de mim…

Giulia levantou a cabeça imediatamente.

— Eu já disse que não fiz isso.

Alessandro inclinou levemente a cabeça.

— Não usar contra mim — corrigiu com calma. — Usar para se aproximar de mim.

Ela apertou os dedos, contendo a irritação.

Ele continuou:

— Então comecei a fazer algumas perguntas sobre você.

Os olhos permaneceram fixos nela.

— Você fala vários idiomas, ensina com facilidade, tem uma educação refinada…

O olhar dele percorreu o rosto dela com calma.

— E, ainda assim, escolheu viver escondida em um convento, usando um nome comum.

Uma pausa breve.

— Alguém com tantas habilidades… vivendo uma vida tão simples.

Ele se inclinou levemente para frente.

— Aquilo me pareceu estranho.

Giulia manteve o rosto neutro.

— Então comecei a investigar.

Alessandro abriu a pasta sobre a mesa.

— Primeiro procurei por Clara Alves.

Virou uma página.

— Não encontrei nada.

Levantou os olhos.

— Nenhum registro consistente. Nenhum passado verificável.

Os dedos de Giulia se pressionaram com mais força.

— Apenas informações genéricas… — continuou ele — que, imagino, você mesma tenha criado.

Uma leve inclinação de cabeça.

— Uma identidade conveniente.

Ela ergueu o queixo.

Não respondeu.

Alessandro pegou outro documento.

— Foi então que encontrei algo mais interessante.

O olhar voltou para ela.

— A pessoa que recriou seus documentos.

O ar pareceu pesar.

Ele levou a mão ao bolso do paletó, retirou algo pequeno e colocou sobre a mesa.

O objeto deslizou até parar diante dela.

Um cordão delicado de ouro, com um pequeno pingente de pedra azul.

— Acredito que isto seja seu.

Giulia ficou imóvel por um instante.

Os olhos presos no objeto.

Reconheceu imediatamente.

Quando seus dedos tocaram o metal frio, um arrepio percorreu sua pele.

Era dele.

O cordão que seu pai lhe deu quando ela ainda era criança.

Ela tinha dez anos.

Ele havia colocado o colar em seu pescoço com um sorriso orgulhoso.

— Para minha pequena Giulia.

Um ano depois, ele morreu.

E aquele colar se tornou uma das poucas coisas que restaram dele.

Giulia apertou o pingente na palma da mão.

Precisou controlar a respiração.

Porque havia vendido.

Quando fugiu.

Precisava desaparecer.

E aquela joia era tudo que tinha.

Por um instante, algo atravessou sua expressão.

Rápido.

Contido.

Mas suficiente.

Quando levantou os olhos novamente, havia tensão neles.

— Onde… o senhor conseguiu isso?

Alessandro se recostou na cadeira.

— Como eu disse, fiz algumas perguntas.

Uma pausa.

— E descobri coisas interessantes sobre você.

Giulia apertou o cordão com mais força.

Então ele completou:

— Inclusive quem ajudou Giulia Castarelli a desaparecer.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

E, naquele momento, Giulia entendeu:

Ele não estava apenas investigando.

Estava à frente.

Alessandro a observava com calma.

— A partir do momento em que encontrei Giulia Castarelli, não foi difícil descobrir quem você realmente era.

Os dedos dela se apertaram.

— Nem por que você fugiu.

Ele virou algumas páginas do contrato.

— Cinco milhões por um casamento…

Levantou os olhos.

— Não é pouca coisa.

O maxilar de Giulia se tensionou.

— E conhecendo Gregor Varga… — continuou ele — sei exatamente como aquele homem funciona.

Os olhos dele se estreitaram levemente.

— Aposto que ele ainda está disposto a cobrar o que já foi pago.

Uma pausa.

O olhar desceu até o cordão na mão dela.

Depois voltou.

— Ou melhor…

Mais baixo:

— Cobrar por você.

O estômago dela revirou.

Porque ele não estava errado.

Gregor Varga não aceitava perder.

Muito menos cinco milhões.

Giulia permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Então algo nela mudou.

A tensão nos ombros diminuiu.

A respiração se estabilizou.

Ela soltou o pingente devagar e o colocou sobre a mesa.

Quando levantou os olhos, já não havia hesitação.

O queixo se ergueu.

Os ombros se alinharam.

E, pela primeira vez, sustentou o olhar dele sem recuar.

A mulher à sua frente já não era mais Irmã Clara.

Agora…

era Giulia Castarelli.

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