Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio na sala se estendeu por alguns segundos.
Giulia permaneceu parada diante da porta, a mão ainda apoiada na maçaneta. O coração acelerado, a tensão evidente no modo como sustentava o próprio corpo. Atrás dela, Alessandro falou novamente: — Sente-se, Giulia. A voz era calma. Mas não soava como um pedido. Giulia fechou os olhos por um instante, respirou fundo e soltou a maçaneta. Quando se virou, encontrou o olhar dele esperando. Sustentou por um segundo, avaliando. Mas Alessandro não desviou. Confiante demais. Ela voltou até a cadeira e se sentou, o movimento mais rígido agora. Cruzou as mãos sobre o colo, tentando esconder o leve tremor nos dedos. Alessandro observou em silêncio. Então apoiou as mãos sobre a mesa. — Há seis meses — começou, a voz baixa e controlada —, quando você tentou usar a minha filha para se aproximar de mim… Giulia levantou a cabeça imediatamente. — Eu já disse que não fiz isso. Alessandro inclinou levemente a cabeça. — Não usar contra mim — corrigiu com calma. — Usar para se aproximar de mim. Ela apertou os dedos, contendo a irritação. Ele continuou: — Então comecei a fazer algumas perguntas sobre você. Os olhos permaneceram fixos nela. — Você fala vários idiomas, ensina com facilidade, tem uma educação refinada… O olhar dele percorreu o rosto dela com calma. — E, ainda assim, escolheu viver escondida em um convento, usando um nome comum. Uma pausa breve. — Alguém com tantas habilidades… vivendo uma vida tão simples. Ele se inclinou levemente para frente. — Aquilo me pareceu estranho. Giulia manteve o rosto neutro. — Então comecei a investigar. Alessandro abriu a pasta sobre a mesa. — Primeiro procurei por Clara Alves. Virou uma página. — Não encontrei nada. Levantou os olhos. — Nenhum registro consistente. Nenhum passado verificável. Os dedos de Giulia se pressionaram com mais força. — Apenas informações genéricas… — continuou ele — que, imagino, você mesma tenha criado. Uma leve inclinação de cabeça. — Uma identidade conveniente. Ela ergueu o queixo. Não respondeu. Alessandro pegou outro documento. — Foi então que encontrei algo mais interessante. O olhar voltou para ela. — A pessoa que recriou seus documentos. O ar pareceu pesar. Ele levou a mão ao bolso do paletó, retirou algo pequeno e colocou sobre a mesa. O objeto deslizou até parar diante dela. Um cordão delicado de ouro, com um pequeno pingente de pedra azul. — Acredito que isto seja seu. Giulia ficou imóvel por um instante. Os olhos presos no objeto. Reconheceu imediatamente. Quando seus dedos tocaram o metal frio, um arrepio percorreu sua pele. Era dele. O cordão que seu pai lhe deu quando ela ainda era criança. Ela tinha dez anos. Ele havia colocado o colar em seu pescoço com um sorriso orgulhoso. — Para minha pequena Giulia. Um ano depois, ele morreu. E aquele colar se tornou uma das poucas coisas que restaram dele. Giulia apertou o pingente na palma da mão. Precisou controlar a respiração. Porque havia vendido. Quando fugiu. Precisava desaparecer. E aquela joia era tudo que tinha. Por um instante, algo atravessou sua expressão. Rápido. Contido. Mas suficiente. Quando levantou os olhos novamente, havia tensão neles. — Onde… o senhor conseguiu isso? Alessandro se recostou na cadeira. — Como eu disse, fiz algumas perguntas. Uma pausa. — E descobri coisas interessantes sobre você. Giulia apertou o cordão com mais força. Então ele completou: — Inclusive quem ajudou Giulia Castarelli a desaparecer. O silêncio que se seguiu foi pesado. E, naquele momento, Giulia entendeu: Ele não estava apenas investigando. Estava à frente. Alessandro a observava com calma. — A partir do momento em que encontrei Giulia Castarelli, não foi difícil descobrir quem você realmente era. Os dedos dela se apertaram. — Nem por que você fugiu. Ele virou algumas páginas do contrato. — Cinco milhões por um casamento… Levantou os olhos. — Não é pouca coisa. O maxilar de Giulia se tensionou. — E conhecendo Gregor Varga… — continuou ele — sei exatamente como aquele homem funciona. Os olhos dele se estreitaram levemente. — Aposto que ele ainda está disposto a cobrar o que já foi pago. Uma pausa. O olhar desceu até o cordão na mão dela. Depois voltou. — Ou melhor… Mais baixo: — Cobrar por você. O estômago dela revirou. Porque ele não estava errado. Gregor Varga não aceitava perder. Muito menos cinco milhões. Giulia permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então algo nela mudou. A tensão nos ombros diminuiu. A respiração se estabilizou. Ela soltou o pingente devagar e o colocou sobre a mesa. Quando levantou os olhos, já não havia hesitação. O queixo se ergueu. Os ombros se alinharam. E, pela primeira vez, sustentou o olhar dele sem recuar. A mulher à sua frente já não era mais Irmã Clara. Agora… era Giulia Castarelli.






