Capítulo 4 — Fissuras no Gelo

Capítulo 4 — Fissuras no Gelo

Damien Knight

Fechei a porta do carro com uma força desnecessária, o som abafado do metal de luxo selando o mundo exterior. Silêncio. Era disso que eu precisava. De ordem. De lógica.

Virei o rosto para o banco de trás, esperando encontrar Luca devidamente acomodado, mas o que vi fez meu estômago contrair. Ele não estava chorando, Luca raramente emitia qualquer som desde o acidente, mas seu corpo estava rígido, as mãos pequenas apertando o estofado de couro com uma força que deixava os nós dos dedos brancos.

Ele estava entrando em colapso.

— Luca, respire. Acabou. Estamos indo para casa.

Minha voz, a mesma que encerrava negociações bilionárias, não teve efeito. Ele começou a balançar o corpo, um movimento rítmico e desesperado, os olhos fixos na janela, procurando algo que eu acabara de expulsar da minha frente. Ele bateu com a palma da mão no vidro. Uma, duas vezes.

— Pare com isso. Agora.

Tentei manter o tom monocórdico, mas o controle estava escapando por entre meus dedos. Olhei pelo retrovisor, pronto para dar a ordem de partida ao motorista, mas meus olhos travaram em um ponto no jardim em frente ao prédio.

Lá estava ela. Emma Anderson.

Ela estava ajoelhada no chão, o corpo curvado sobre a irmã pequena. Mesmo à distância, eu conseguia ver o desespero na linha de seus ombros. A garota no colo dela parecia uma boneca de pano, imóvel, pendendo sem vida.

Luca emitiu um som. Não foi um choro. Foi um ganido agudo, um ruído de garganta que eu nunca, em dois anos de silêncio absoluto, ouvira sair de sua boca. Ele apontava para o vidro, as unhas arranhando a película escura.

Aquilo me atingiu como um soco.

Abri a porta do carro antes mesmo de raciocinar. O ar frio da rua invadiu o interior aquecido, mas eu não sentia o gelo. Caminhei até ela. Não corri, Knight não correm, mas meus passos eram rápidos, decididos.

Emma levantou o rosto quando minha sombra a cobriu. Os olhos dela estavam inundados, o rosto sujo de fuligem ou cansaço, não sei dizer. Ela parecia um animal acuado protegendo sua cria.

— Coloque-a no carro — ordenei. Minha voz saiu seca, uma diretriz, não um convite.

— O quê? — Ela soluçou, apertando a irmã mais forte.

— Não vou repetir. Ela precisa de um hospital e o seu desespero não vai salvá-la. Coloque a menina no banco de trás. Agora.

Ela hesitou por um segundo, o orgulho lutando contra a necessidade, até que olhou para o rosto pálido da irmã e cedeu. Eu a ajudei a levantar, sentindo por um breve instante a fragilidade do seu braço sob meus dedos. Ela era feita de ossos e teimosia.

O trajeto até o hospital foi um exercício de tortura silenciosa. Luca se acalmou no instante em que Emma entrou no carro, sentando-se ao lado dela e segurando a ponta de sua blusa como se sua vida dependesse daquele pedaço de pano barato. Eu observava tudo pelo retrovisor, a mente trabalhando a mil por hora. Quem é essa mulher? Por que meu filho reage a ela como se fosse uma divindade?

Ao chegarmos na emergência do Memorial, o movimento foi imediato. Meus seguranças abriram caminho.

— Eu… eu não tenho como pagar por isso — Emma sussurrou quando viu a placa do hospital privado. Ela parou no meio do saguão, o rosto queimando de vergonha. — E agora não tenho nem emprego para tentar pagar depois.

Aquelas palavras me atingiram de um jeito que eu não esperava. Havia uma dignidade ferida na voz dela que me incomodou mais do que qualquer grito de fúria.

— Eu assumo a responsabilidade, senhorita Anderson. Não estamos aqui para discutir sua conta bancária. Estamos aqui pela criança. Resolvemos os detalhes depois.

— Detalhes? — Ela riu, um som amargo e sem alegria. — Para você são detalhes. Para mim é o resto da minha vida.

Eu não respondi. Não podia. Uma enfermeira se aproximou com uma maca e levou a pequena. Emma fez menção de seguir, mas Luca, que ainda estava grudado nela, se recusou a soltar. Ele fincou os pés no chão, os olhos verdes transbordando pânico.

— Luca, solte — eu disse, tentando pegá-lo.

Foi então que aconteceu. Luca abriu a boca e soltou um som gutural, um "Não" arrastado e imperfeito, mas perfeitamente reconhecível.

Eu paralisei. O mundo parou de girar. Meu filho falou.

Emma se agachou na altura dele, ignorando minha estátua de choque. 

— Luca, pequeno… eu preciso ir com a Ellie. Ela está dodói, lembra? Fica com o seu papai. Eu volto logo. Prometo.

Ela beijou a testa dele e, milagrosamente, ele soltou. Luca ficou ali, parado, olhando-a desaparecer pelo corredor. Eu queria ir embora. Queria pegar meu filho, levá-lo para os melhores especialistas do mundo e exigir que explicassem aquele som. Mas Luca me puxou pela manga da camisa, apontando obstinadamente para a direção onde Emma foi..

— Luca, precisamos ir…

Ele balançou a cabeça e se sentou no chão do hospital. Ele não sairia dali sem ela.

Meia hora depois, a enfermeira retornou. 

— Ela está medicada, senhor Knight. A febre cedeu um pouco, mas estamos aguardando os resultados dos exames de sangue. Ela está no quarto 402.

Luca levantou-se num salto e puxou minha mão. Eu cedi.

Quando entramos no quarto, o cenário era de uma paz devastadora. A garotinha, Ellie, dormia sob o efeito dos remédios, parecendo pequena demais para aquela cama imensa. Emma estava sentada em uma cadeira ao lado, as mãos cobrindo o rosto, os ombros subindo e descendo em um choro silencioso que parecia drenar toda a sua energia.

Luca soltou minha mão e correu até ela, subindo na cadeira e abraçando-a por trás. Emma deu um salto, limpando o rosto rapidamente, tentando recuperar uma máscara de força que já estava em pedaços.

— Obrigada — ela disse, a voz rouca, sem me olhar nos olhos. — Eu vou pagar cada centavo, eu juro. Só preciso de um tempo para me organizar.

Aproximei-me da beira da cama. Olhei para a menina e depois para Emma. Havia algo errado naquela conta. A matemática da vida dela não fechava.

— Quantos anos você tem, senhorita Anderson? — perguntei, minha voz soando menos agressiva, mas ainda carregada de uma curiosidade inquisidora. — E por que está cuidando de sua irmã sozinha dessa forma? Onde estão seus pais?

Ela travou. A mão dela, que acariciava o cabelo de Luca, parou por um segundo. O silêncio que se seguiu no quarto era pesado, carregado de fantasmas que eu ainda não conhecia, mas que podia sentir cheirando a cinzas.

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