2 — A Última Humilhação

Capítulo 2 — A Última Humilhação

 Alice Carson

Apertei o volante do meu carro com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. O trânsito de Boston parecia zombar da minha pressa, transformando o trajeto até a sede da Carson Enterprises em uma tortura lenta. Meu coração martelava contra as costelas, impulsionado por uma mistura corrosiva de raiva e desespero.

​Estacionei o carro de qualquer jeito no pátio da empresa e ignorei o cumprimento do recepcionista na entrada. Peguei o elevador privativo e fui direto para o andar da diretoria financeira, onde Ethan trabalhava. Ele era a minha âncora. O homem que segurava minha mão há dois anos e prometia que construiríamos um futuro juntos. Eu só queria que ele me abraçasse, que dissesse que encontraríamos uma saída juntos, que fugiríamos se fosse necessário. Qualquer coisa que me fizesse esquecer o peso daquele contrato e a humilhação de ter sido vendida.

​Quando as portas do elevador se abriram, o corredor estava estranhamente silencioso. A maioria dos funcionários já tinha saído pelo horário avançado, restando apenas a luz suave das luminárias de teto. Caminhei em direção à sala dele, meus saltos estalando contra o piso de granito.

​A porta de vidro fosco da sala de Ethan estava entreaberta, deixando escapar uma fresta de luz amarelada. Eu já ia empurrá-la com tudo quando um som vindo lá de dentro me fez travar no lugar. Um gemido agudo. Feminino.

​O ar sumiu dos meus pulmões instantaneamente. O mundo ao meu redor pareceu perder o som, restando apenas o ruído abafado de respirações arfantes. Dei um passo à frente, devagar, como se estivesse pisando em vidro quebrado, e espiei pela fresta. Minha bolsa escorregou pelo meu braço e caiu no chão com um baque surdo, mas nenhum dos dois ouviu.

​Ethan estava de costas para a porta, com as calças arriadas até os joelhos, os quadris se movendo com urgência contra a mesa de mogno. E sentada na mesa, com as pernas jogadas ao redor da cintura dele e a blusa de seda completamente aberta, estava Camila. Aquela cena se fixou na minha mente como uma queimadura na pele. O homem que fingia respeitar meu tempo e minhas escolhas estava enterrado entre as pernas da minha própria prima.

​— Ethan... mais rápido... — Camila sibilou, jogando a cabeça para trás. Os olhos dela se abriram por um segundo e encontraram os meus através do vidro. Ela não parou. Um sorriso lento e cruel surgiu nos lábios dela enquanto me encarava, puxando Ethan para mais perto.

​A raiva que substituiu o meu choque foi tão violenta que empurrei a porta de vidro com as duas mãos. Ela bateu contra a parede com um estrondo que ecoou por todo o andar. Ethan deu um pulo para trás, tropeçando nas próprias calças e quase caindo no chão. Camila soltou um grito falso de surpresa, cobrindo os seios com as mãos, embora não parecesse nem um pouco envergonhada.

​— Alice! — Ethan exclamou, a voz trêmula e o rosto pálido perdendo toda a cor enquanto tentava puxar o zíper da calça. — Não é o que você está pensando, eu posso explicar...

​— Pode? — Minha voz saiu num tom perigosamente calmo, desprovido de qualquer emoção. Eu me recusei a gritar. Me recusei a dar a eles o espetáculo que queriam. — Vai me explicar que o seu pau escorregou e caiu dentro da minha prima?

​— Olha o vocabulário, Alice. — Camila desdenhou, descendo da mesa sem pressa e ajeitando a saia justa. — Não precisa fazer esse drama todo. Você ia descobrir mais cedo ou mais tarde.

​Ignorei a existência dela, mantendo meus olhos cravados em Ethan, o homem que eu achava que conhecia.

​— Por que, Ethan? — Perguntei, sentindo aquela ser a única rachadura na minha armadura de gelo enquanto ele limpava o suor da testa. A expressão de pânico no rosto dele começou a se transformar em algo diferente. A culpa deu lugar a uma frieza corporativa que me deu náuseas.

​— Por quê? Você quer mesmo saber o porquê, Alice? — Ele soltou uma risada ríspida, cruzando os braços. — Porque eu cansei de esperar por uma herdeira puritana que não me dá nada além de alguns amassos. Cansei de brincar de romance adolescente.

​— Eu confiava em você. — Dei um passo à frente, os punhos cerrados.

​— E a sua confiança não paga as minhas contas. — Ele rebateu, dando de ombros com um cinismo que me deu vontade de esmurrá-lo. — Eu fiquei do seu lado porque a Carson Enterprises era uma mina de ouro e você era o bilhete premiado. Mas eu trabalho na controladoria, Alice. Eu vi os números. Sei que o império do seu pai está quebrado. Você não passa de um problema prestes a afundar junto com eles.

​— Você é um lixo — falei, os dentes trincados.

​— Posso ser. Mas tenho faro para os negócios. — Ele rebateu, aproximando-se da minha prima e segurando-a pela cintura, como se quisesse esfregar a traição na minha cara. — A família da Camila ainda tem investimentos sólidos. Já você... não tem mais nada. Está falida, Alice. Quem vai querer você agora?

​Minhas unhas cravaram na palma das minhas mãos com tanta força que senti que ia sangrar. Lágrimas de humilhação e revolta queimaram atrás dos meus olhos, mas forcei cada uma delas a voltar para o lugar de onde vieram. Eu não choraria. Não na frente daquele canalha. Não na frente da cobra da minha prima.

​— Você está certo. — Ergui o queixo, sustentando o olhar dele com toda a frieza que consegui reunir. — Posso até não ter mais nada, mas ainda sou muito melhor do que vocês. E espero que o seu próximo chefe goste de funcionários que abandonam o barco na primeira oportunidade.

​— Não se preocupe com o meu futuro profissional. — Ethan rebateu com um sorriso arrogante que fez meu estômago revirar. — Eu já garanti uma posição muito melhor e mais lucrativa bem longe daqui. Eu não sou idiota de afundar com os Carson.

​— Ótimo, já vai tarde. — Voltei meu olhar para Camila, medindo-a de cima a baixo com o mais puro desprezo. — Você realmente acha que ganhou um grande prêmio, não é mesmo? Fique à vontade com os meus restos. Vocês dois se merecem.

​Virei as costas antes que eles pudessem responder. Peguei minha bolsa no chão e caminhei pelo corredor com a coluna perfeitamente ereta. Cada passo que eu dava parecia exigir uma tonelada de força, mas não vacilei.

​Entrei no elevador e apertei o botão do térreo. Só quando as portas de metal se fecharam e fiquei completamente sozinha é que desabei contra a parede espelhada, puxando o ar com dificuldade. Minha vida inteira tinha sido destruída em menos de duas horas. Vendida pelo pai, traída pelo namorado. Eu estava no chão, despedaçada.

​Foi quando o celular vibrou na bolsa de forma insistente, quebrando o silêncio do meu colapso interno. Respirei fundo, limpando uma única lágrima teimosa que ameaçava escapar. Peguei o aparelho com os dedos trêmulos e olhei para a tela iluminada — um número que eu conhecia bem — e hesitei por um segundo antes de atender.

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