Mundo de ficçãoIniciar sessão# Capítulo 7: Uma Faísca de Intuição
**Ponto de Vista: Neil Bodvan**
A Sra. Davenport está sentada à minha frente, na mesma cadeira de couro desconfortável que todos os meus associados de negócios ocupam. Sua postura é impecável, seu tablet posicionado em um ângulo preciso sobre a mesa de mogno polido que nos separa. Ela é a personificação da discrição e da eficiência, exatamente por isso que a contratei. Ela filtra o mundo para mim, apresentando-o em resumos e listas de prós e contras.
Hoje, ela está me apresentando as finalistas para a posição de governanta. Há três delas. Três currículos impecáveis, três rostos profissionais sorrindo em fotos de perfil cuidadosamente selecionadas. A primeira é uma governanta suíça com vinte anos de experiência em famílias da realeza europeia. A segunda é uma inglesa formada em pedagogia infantil por Oxford. A terceira... a terceira é apenas uma babá do Queens.
"A senhorita Coone é, admito, uma candidata atípica", diz a Sra. Davenport, antecipando minha pergunta. Seu tom é neutro, mas eu a conheço há tempo suficiente para detectar uma nuance. Uma leve inflexão que sugere que ela mesma está intrigada.
"Atípica é um eufemismo", respondo, folheando o currículo de Alice Coone. É um currículo modesto. Experiência em várias famílias, referências que, embora positivas, são de pessoas comuns, não de barões da indústria ou diplomatas. Não há nada nele que justifique sua presença nesta lista seleta.
"Ela não deveria ter passado do primeiro filtro", continuo, minha voz mais dura do que o pretendido. A irritação que sinto é comigo mesmo. Por que estou sequer considerando isso?
"Normalmente, não teria", concorda a Sra. Davenport. "No entanto, algo na entrevista dela me chamou a atenção. Ela foi... ousada."
Eu levanto uma sobrancelha. "Ousada?"
"Ela tem uma irmã mais nova, da qual é a guardiã legal. Eu deixei claro que a posição era para uma única funcionária. Em vez de recuar, ela defendeu a inclusão de sua irmã. Argumentou que sua lealdade e capacidade de cuidar da irmã eram a prova de sua dedicação. Ela transformou sua maior desvantagem em seu principal argumento de venda."
A Sra. Davenport faz uma pausa, e pela primeira vez, sua expressão profissional vacila, revelando um vislumbre de admiração. "Ela disse, e eu cito: 'acredito que minha dedicação em protegê-la é a maior prova da minha lealdade e capacidade de cuidar dos outros. É a minha maior referência'."
As palavras pairam no ar entre nós. Proteção. Lealdade. Cuidado. São palavras que ressoam no silêncio deste escritório, no silêncio desta casa. São tudo o que eu falhei em dar a Loren.
"E ela mencionou a necessidade de 'calor' da criança", acrescenta a Sra. Davenport, observando minha reação. "Ela se ofereceu para fornecer isso com uma sinceridade que as outras candidatas, com toda a sua formação, não conseguiram transmitir."
Eu me recosto na cadeira, o couro rangendo em protesto. Minha mente lógica, a mente que construiu um império, me diz para descartá-la imediatamente. Ela é um risco. Uma complicação. Uma bagagem emocional que não preciso ou quero em minha casa. A governanta suíça é a escolha segura. A inglesa é a escolha inteligente. Elas são profissionais. Elas não trarão seus problemas familiares para a minha porta.
Mas algo... uma intuição, uma faísca de sentimento há muito adormecida, me faz hesitar. Lembro-me de Loren, seu corpo pequeno tremendo na cama, seu chamado por uma mãe que não viria. Lembro-me do seu gesto de se inclinar para o meu toque, uma busca desesperada por conexão.
As outras candidatas cuidariam de Loren. Elas garantiriam que ele estivesse alimentado, vestido e seguro. Elas seguiriam um cronograma. Elas seriam perfeitas. Mas elas o fariam sorrir? Elas entenderiam o medo em seus olhos quando ele acordasse de um pesadelo? Elas teriam a coragem de defender o bem-estar dele contra mim, se necessário?
Alice Coone, a babá do Queens, defendeu sua irmã contra todas as probabilidades. Ela demonstrou uma ferocidade silenciosa que o dinheiro não pode comprar e que as melhores escolas não podem ensinar. Ela não está apenas procurando um emprego. Ela está lutando por uma vida. Por sua família.
"Ela quer trazer a irmã para morar aqui?", pergunto, a decisão se formando contra meu melhor julgamento.
"Essa é a condição dela", confirma a Sra. Davenport.
Um absurdo. Uma intrusão sem precedentes. Minha casa, meu santuário de isolamento, invadido não por uma, mas por duas estranhas. É uma ideia terrível.
E, no entanto, as palavras saem da minha boca antes que eu possa detê-las.
"Ofereça a ela a posição."
A Sra. Davenport me olha, surpresa. É uma rara quebra em sua compostura. "Senhor? Tem certeza? A senhorita Schmidt, da Suíça..."
"Tenho certeza", eu a interrompo, a voz firme. "Prepare o contrato. Inclua uma cláusula para a irmã. Um quarto separado, aulas na melhor escola particular da cidade, tudo o que for necessário. Mas deixe claro que a discrição continua sendo inegociável. Qualquer violação, e o contrato é rescindido imediatamente. Para ambas."
Ela assente, já digitando em seu tablet, a profissional eficiente assumindo o controle novamente. "Como desejar, senhor Bodvan."
Depois que ela sai, fico sozinho no silêncio do meu escritório. O que eu acabei de fazer? Contratei uma completa desconhecida, com base em uma intuição, em uma única história de desafio. Eu quebrei minhas próprias regras. Eu abri uma porta que mantive trancada por anos.
Um sentimento que não consigo identificar me percorre. Não é medo. Não é excitação. É algo mais parecido com... curiosidade. Pela primeira vez em muito tempo, não sei o que vai acontecer amanhã. E essa incerteza, embora aterrorizante, é a primeira coisa que sinto que se assemelha, remotamente, a estar vivo.







