Mundo de ficçãoIniciar sessão# Capítulo 8: O Contrato
**Ponto de Vista: Alice Coone**
Dois dias. Quarenta e oito horas de um silêncio torturante. Eu repassei a entrevista em minha mente um milhão de vezes, cada palavra, cada pausa. A conclusão era sempre a mesma: eu tinha sido muito ousada, muito exigente. Tinha apostado tudo e perdido. A realidade fria da minha situação começou a se instalar novamente, mais pesada do que antes, porque agora ela estava tingida com o fantasma de uma esperança perdida.
Eu estava no meu quarto, dobrando uma pilha de roupas lavadas – as roupas baratas e gastas que compunham meu guarda-roupa – quando meu celular vibrou na cômoda. Era um número bloqueado. Meu coração parou. Geralmente, números bloqueados eram agências de cobrança. Hesitante, atendi, preparando-me para mais uma conversa desagradável.
"Senhorita Coone?"
A voz era inconfundível. Nítida, fria, profissional. Sra. Davenport.
"Sim", consegui dizer, minha garganta subitamente seca.
"Estou ligando para informar que o cliente decidiu lhe oferecer a posição de governanta."
As palavras pareceram não fazer sentido. Elas flutuaram no ar, desconectadas da realidade. Eu devo ter ficado em silêncio por muito tempo, porque ela continuou, com um toque de impaciência.
"Senhorita Coone? Você está aí?"
"Sim... sim, estou", gaguejei, sentando-me na beirada da cama. "Eu... eu não sei o que dizer."
"'Eu aceito' seria uma resposta apropriada, se for o caso", disse ela. "O contrato será enviado para o seu e-mail em instantes. Ele detalha o salário, os benefícios e as condições, incluindo as provisões para sua irmã, conforme sua solicitação."
Minha irmã. Elas tinham concordado. Uma onda de alívio e alegria tão intensa me atingiu que meus olhos se encheram de lágrimas. "Sim", eu disse, a voz embargada. "Sim, eu aceito. Claro que aceito."
"Excelente. O contrato estipula que você deve começar em três dias. Um carro irá buscá-la em seu endereço às nove da manhã. Esteja pronta. E, senhorita Coone...", ela fez uma pausa. "Parabéns. E bem-vinda."
Antes que eu pudesse responder, ela desligou. Fiquei olhando para o celular, para a tela preta, tentando processar o que acabara de acontecer. A alegria era tão avassaladora que era quase dolorosa. Eu consegui. Eu realmente consegui. Nós estávamos salvas. Lily estava salva.
Corri para o laptop, as mãos tremendo tanto que mal conseguia digitar a senha. Lá estava. O e-mail com o anexo: "Contrato de Trabalho Confidencial". Abri o documento e meus olhos foram direto para o valor do salário. A cifra era tão absurdamente alta que tive que ler três vezes. Era mais do que eu ganhava em um ano. Em um único mês. Com aquele dinheiro, eu poderia pagar a hipoteca em menos de seis meses. Poderia dar a Lily tudo o que ela sempre mereceu.
Lendo mais adiante, encontrei a seção sobre as "provisões para dependentes". O contrato não apenas permitia que Lily morasse comigo, mas também cobria todas as despesas de sua matrícula na "Escola Preparatória Nightingale-Bamford", uma das escolas particulares mais prestigiadas e caras de Nova York. Eles não estavam apenas me acomodando; estavam acolhendo minha irmã de uma forma que eu nunca poderia ter sonhado.
As lágrimas que eu estava segurando finalmente vieram, um dilúvio de alívio, gratidão e pura incredulidade. Eu chorei pelo meu pai, desejando que ele estivesse aqui para ver isso. Chorei pela minha liberdade, pela de Lily. Chorei porque, pela primeira vez em anos, o futuro não parecia um abismo escuro, mas um horizonte aberto.
Foi nesse estado de euforia chorosa que minha mãe me encontrou.
"O que é todo esse drama?", perguntou Verônica, entrando no meu quarto sem bater, como sempre. Seus olhos imediatamente se fixaram na tela do laptop. "O que é isso?"
"Eu consegui um emprego, mãe", eu disse, tentando controlar minha voz. "Um emprego novo. Aquele para o qual me candidatei."
Ela se aproximou, os olhos semicerrados lendo por cima do meu ombro. Vi o momento exato em que ela viu o salário. Sua mandíbula caiu. "Alice...", ela sussurrou, a ganância brilhando em seus olhos. "Isso... isso vai resolver tudo! Nós estamos ricas!"
"*Eu* consegui um emprego", corrigi-a suavemente. "E sim, vai resolver o problema da casa. Eu vou assumir a hipoteca."
"Nós vamos poder reformar a cozinha! E eu preciso de roupas novas...", ela começou a divagar, já gastando o dinheiro em sua mente.
"Mãe", eu a interrompi, e a alegria em meu peito deu lugar a uma resolução fria. "O emprego exige que eu more lá. E eu vou levar a Lily comigo."
O rosto de Verônica passou da ganância para a incredulidade e, em seguida, para a fúria, em questão de segundos. "O quê? Você não pode fazer isso! Me deixar aqui sozinha? E levar a menina?"
"É a condição do emprego", eu disse, o que era uma meia-verdade. "E é o melhor para a Lily. Ela vai estudar em uma escola incrível, vai ter um futuro..."
"E eu?", ela gritou, o rosto se contorcendo em uma máscara de vitimização. "Depois de tudo que eu sacrifiquei por vocês! Você vai simplesmente me abandonar?"
"Eu não estou te abandonando", eu disse, minha voz firme. "Eu vou pagar as contas desta casa. Você terá um teto sobre sua cabeça, sem se preocupar com o banco. Mas Lily e eu estamos de partida. É a minha decisão final."
"Você é uma ingrata!", ela cuspiu, o veneno em sua voz era palpável. "Uma egoísta! Está me trocando por um bando de estranhos ricos!"
Eu não respondi. Apenas a encarei, e pela primeira vez, sua raiva não me atingiu. Suas palavras não me feriram. Era como se o contrato, a promessa daquela nova vida, tivesse me dado uma armadura. Eu não era mais a menina assustada que ela podia manipular. Eu era a guardiã da minha irmã, a arquiteta do nosso futuro.
Ela continuou a gritar, a me insultar, mas eu já não estava mais ouvindo. Levantei-me, fechei o laptop e comecei a pegar uma mala vazia de cima do guarda-roupa. Eu tinha três dias para me preparar para o resto da minha vida. E eu não ia perder um segundo a mais ouvindo a voz de um passado que eu estava, finalmente, deixando para trás.







