CAP. 4- O DIABO VESTE TERNO SOB MEDIDA

POV: CLARA MENEZES

Meu coração batia tão forte contra as costelas que eu tinha certeza de que um dos botões daquela camisa ia finalmente ceder, voar pelo jardim e furar o olho de algum passante. Eu estava em um nível de tensão que fazia a viagem de três dias no ônibus feder a flores do campo. É agora ou a rua, Clara. Respira fundo, mas não muito, senão a costura explode.

Toquei o interfone com a ponta do dedo trêmula.

— Pois não? — Uma voz masculina e metálica respondeu, com a simpatia de um iceberg.

— Clara Menezes. Eu... a Dona Bete da faculdade me indicou... — gaguejei, tentando não parecer uma fugitiva do hospício — ...tenho uma reunião com a Adelaide para a vaga de babá.

O portão fez um estalo alto, como se estivesse destravando a entrada para Nárnia, e começou a abrir lentamente. O caminho de pedras brancas levava a uma mansão que não era apenas uma casa; era um monumento à ostentação, com vidros espelhados que refletiam o quanto eu parecia uma impostora.

Caminhei devagar, puxando a saia para baixo a cada dois passos, me sentindo a própria Lady Gaga da periferia tentando se infiltrar em um evento da realeza. A cada puxada, a saia subia de novo, teimosa.

A porta principal foi aberta por uma mulher que parecia ter sido esculpida em granito puro. Ela usava um uniforme preto sem um único amassado, o cabelo grisalho preso num coque tão apertado que eu desconfiava que era por isso que ela não piscava. Sua expressão dizia claramente que ela não sorria desde que o rádio foi inventado.

— Atrasada três minutos — ela disse, consultando o relógio de pulso como se estivesse cronometrando um lançamento de foguete. — Sou Adelaide, a governanta. Entre. E limpe bem os pés. Não quero o barro do mundo lá fora no meu mármore.

Engoli em seco e obedeci, tentando não fazer barulho. O hall de entrada era tão grande que eu acho que caberia o meu bairro inteiro ali dentro. O ar-condicionado estava no nível "Era do Gelo", e meus braços por baixo do blazer da Isa se arrepiaram na hora.

— A Sra. Bete recomendou você — Adelaide começou, me escanenado de cima a baixo com um olhar que parou por dez segundos na minha saia, que estava gritando por misericórdia nos meus quadris. — Disse que você precisa do emprego. Espero que precise mesmo, porque as últimas três babás não duraram uma semana. O Sr. Cavallieri não tolera incompetência, atrasos ou roupas que... bem, que pareçam pequenas demais. E as meninas? As meninas são um projeto de terrorismo infantil.

— Eu aprendo rápido, Dona Adelaide. Eu sou do Pará, lá a gente sobrevive a tudo. Eu preciso muito disso.

— Veremos. Me acompanhe e tente não esbarrar em nada. Essas estátuas valem mais que a sua vida. As crianças estão na ala leste.

Começamos a atravessar o saguão que parecia um museu. De repente, o som de passos pesados e rápidos ecoou no andar de cima, descendo a escadaria de mármore como se o próprio trovão estivesse vindo ao nosso encontro. Adelaide parou bruscamente e baixou a cabeça em um respeito quase religioso.

— Silêncio. É o Sr. Cavallieri.

Olhei para a escada e senti o ar fugir dos meus pulmões. O oxigênio simplesmente se recusou a entrar. Descendo os degraus, ajustando as abotoaduras de um terno preto sob medida que exalava cheiro de conta bancária com muitos zeros, estava ele.

A Isadora tinha me avisado. Ela disse que ele era o diabo. Mas o que ela esqueceu de mencionar é que o diabo era o homem mais bonito, imponente e assustador que eu já tinha visto na vida.

Ele era alto. Ridiculamente alto. O tecido caro do terno abraçava os ombros largos com uma perfeição irritante. O cabelo escuro estava impecável, e a barba por fazer dava um ar de perigo que combinava perfeitamente com o maxilar quadrado. Ele estava no telefone e a voz dele... meu Deus. Era um barítono grave e rouco que parecia vibrar dentro do meu peito.

— Não me interessa a desculpa, Marco. Eu quero os números na minha mesa até o meio-dia ou você está fora da empresa e da cidade — ele sentenciou, com uma frieza que faria o ar-condicionado parecer uma lareira.

Ele chegou ao térreo e passou por nós como se fôssemos poeira cósmica. Ele nem virou o pescoço. Seus olhos eram de um azul tão profundo e gélido que eu senti um calafrio na espinha. Era um olhar de predador, de quem esmaga oponentes antes do café da manhã.

O Diabo está na minha frente, pensei, enquanto o rastro do perfume dele me atingia: sândalo, uísque caro, tabaco e puro poder. Meu coração não apenas falhou uma batida, ele entrou em colapso.

— Sr. Cavallieri — Adelaide murmurou, com uma submissão que eu nunca achei que aquela mulher de pedra teria.

Ele não respondeu. Apenas continuou sua marcha imperial em direção à porta, exalando uma fúria contida que parecia eletrificar o corredor. Ele saiu batendo a madeira pesada da porta principal e o som ecoou como um tiro.

Soltei a respiração, sentindo minhas pernas mais moles que gelatina.

— Ele... ele nem notou que a gente existe.

— O Sr. Cavallieri é um homem que decide o destino de milhares de pessoas — Adelaide disse, voltando a caminhar como se um furacão não tivesse acabado de passar. — Ele paga para que eu resolva detalhes domésticos. E isso inclui você. Sua função é manter as crianças vivas, alimentadas e, principalmente, em silêncio e longe do escritório dele. Se ele tiver que notar a sua presença para reclamar de algo, significa que você falhou miseravelmente. Entendido?

— Entendido — respondi, tentando alinhar o meu blazer que estava torto de tanto eu tremer. — Onde estão as pequenas feras?

Adelaide apontou para um corredor que parecia o caminho para o cadafalso.

— Na sala de brinquedos. Boa sorte, Srta. Menezes. Você vai precisar de toda a sorte do mundo e de um milagre.

O corredor era interminável. Meus saltos emprestados da Isa eram um número menor do que os meus pés, e cada passo no piso de madeira soava como uma contagem regressiva para eu cair de cara no chão. O sapato apertava, a saia subia, a blusa sufocava. Eu era um desastre pronto para acontecer.

Adelaide parou diante de uma porta dupla branca, decorada com adesivos de borboletas que pareciam estar ali apenas para enganar o inimigo.

— Escute bem — ela disse, com a mão firme na maçaneta. — A última babá saiu daqui chorando e precisou de terapia porque a Ângela cortou o cabelo dela enquanto ela tirava um cochilo de cinco minutos. A penúltima foi demitida porque a Geovana a convenceu de que o médico tinha receitado uma dieta estrita de sorvete de chocolate por três dias. Obviamente, as duas passaram mal e o Sr. Cavallieri quase demitiu a mim também.

Engoli em seco, puxando a barra da saia para baixo pela milésima vez.

— Elas... elas são bem criativas, não é? — tentei sorrir. Adelaide não sorriu de volta.

— Elas são carentes, altamente inteligentes e têm o temperamento do pai. Uma combinação explosiva. — Adelaide abriu a porta. — Você tem até as dezessete horas. Se a casa ainda estiver de pé, as meninas não estiverem carecas e ninguém estiver sangrando quando eu voltar, conversamos sobre o contrato. Caso contrário, a rodoviária é logo ali.

Sem esperar minha resposta, ela me deu um leve empurrão para dentro e fechou a porta. O clique da fechadura soou como o fechamento de uma cela de segurança máxima.

Ótimo. Eu, uma saia a vácuo e duas mini-versões do Diabo. O que poderia dar errado?

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