5: O Cerco se Fecha

Capítulo 5: O Cerco se Fecha

POV: Luna Carvalho

​O celular quase escorregou dos meus dedos. Olhei fixamente para a tela, o coração martelando contra as minhas costelas com tanta força que o som parecia ecoar no apartamento vazio. A foto na mensagem era nítida demais. Eu aparecia saindo do Edifício Montenegro, com a expressão transtornada, os cabelos longos desalinhados pelo vento da avenida. Alguém estava me seguindo. Alguém já sabia de tudo.

​Olhei para a porta trancada, sentindo uma onda repentina de paranoia. A sensação de ter minha privacidade arrancada de mim era sufocante. Sem pensar duas vezes, disquei o único número que poderia fazer algo a respeito, engolindo meu orgulho com um gosto amargo na boca.

​Ele atendeu no primeiro toque.

​— Espero que tenha mudado de ideia sobre o acordo, Senhorita Luna — a voz grave e pausada de Gabriel ecoou, impregnada daquela arrogância natural que me dava nos nervos.

​— Eles sabem, Gabriel — disparei, sem espaço para as provocações habituais. Minha voz saiu trêmula, e eu odiei isso. — Alguém me fotografou saindo do seu prédio. Acabei de receber uma mensagem de um número privado. Eles vão publicar amanhã.

​Houve um segundo completo de silêncio do outro lado da linha. Pude ouvir o som do maxilar dele travando, a respiração se tornando mais pesada. Quando ele voltou a falar, o tom de voz tinha mudado completamente; era o CEO implacável assumindo o controle da crise.

​— Não saia do apartamento. Não abra a porta para ninguém — ele ordenou, a autoridade cortante não dando margem para discussões. — Meus homens de segurança já estão a caminho da sua rua. Vou abafar isso com os editores dos principais jornais antes que vire fofoca de internet.

​— Você não está entendendo! — passei a mão pelos olhos, sentindo as lágrimas de frustração ameaçarem cair. — Minha vida vai virar um inferno. O Rafael já me deixou por causa disso, e se a minha família ler algo em algum site...

​— Eu vou resolver, Luna. Confie em mim — ele interrompeu, e por um breve instante, a frieza dele vacilou, dando lugar a uma urgência genuína. — Estou a caminho.

​Ele desligou. Larguei o aparelho no sofá e comecei a andar de um lado para o outro. Confiar nele? O homem era um controlador que me via como uma equação a ser resolvida, mas, naquele momento, ele era a única barreira entre mim e a destruição pública da minha reputação.

​Não demorou vinte minutos para que o som de passos pesados ecoasse no corredor do meu andar. Espreitei pelo olho mágico e vi dois homens corpulentos de terno escuro postados do lado de fora da minha porta, como duas estátuas de ébano. Logo atrás deles, o elevador se abriu e Gabriel surgiu.

​Ele entrou no meu apartamento sem pedir licença assim que destranquei a porta. Tirou o paletó cinza, jogando-o no encosto da minha poltrona barata, e desabotoou os dois primeiros botões da camisa escura. Seus cabelos e levemente ondulados estavam desalinhados, e os olhos pareciam duas lâminas sob a luz fraca da minha sala. Ele varreu o ambiente pequeno com um olhar rápido e parou em mim.

​— Onde está o seu namorado? — Gabriel perguntou, aproximando-se. A presença dele era magnética, preenchendo o espaço limitado do meu cubículo.

​— Foi embora — respondi com a voz seca, cruzando os braços para manter a postura atrevida de sempre, embora estivesse desabando por dentro. — Achou que eu estava aplicando o golpe da barriga em um bilionário. Aparentemente, sua noiva não é a única que pensa assim.

​Gabriel soltou uma risada curta e sem humor, ele parou a poucos centímetros de mim, a diferença de altura nos obrigando a sustentar um olhar tenso e carregado de eletricidade.

​— Esse seu namorado  é um idiota se não consegue enxergar a verdade nos seus olhos, — ele disse, a voz baixando para um tom perigosamente suave que fez meu estômago dar voltas. — Consegui rastrear o número da mensagem. O vazamento não veio da clínica. Veio de dentro da minha própria empresa. Alguém teve acesso aos relatórios confidenciais que chegaram à minha mesa e vendeu para um portal de fofocas de grande alcance.

​— Você já sabe quem é? — perguntei

​— Não sei ainda. Mas quem quer que seja, o estrago já começou. Consegui segurar a publicação nas mídias tradicionais, mas os blogs menores já estão replicando a história sem citar nomes ainda, apenas as iniciais. É questão de horas até associarem seu rosto à Montenegro Holdings.

​Senti meus joelhos fraquejarem. Dei um passo para trás, mas Gabriel foi mais rápido. Sua mão grande e firme segurou meu braço, sustentando meu peso com uma facilidade impressionante. O calor do toque dele disparou um arrepio pela minha espinha, que insistia em surgir nos piores momentos.

​— Você não vai desmoronar agora, senhorita Carvalho — ele murmurou, mantendo os olhos fixos nos meus, a proximidade fazendo meu coração disparar. — Minha equipe jurídica já montou uma estratégia para conter esse escândalo e proteger as ações da empresa e a sua integridade, só existe uma saída viável que a imprensa vai aceitar sem nos destruir.

​— Qual? — perguntei, engolindo em seco, sem conseguir desviar o olhar do dele.

​Gabriel soltou meu braço devagar, mas não se afastou. O rosto dele voltou a ser uma máscara de pura determinação executiva.

​— Nós vamos assumir que temos um relacionamento estável. Você vai se mudar para a minha casa amanhã de manhã, e nós vamos anunciar que esse bebê foi planejado.

 

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