Mundo de ficçãoIniciar sessãoAleksander
Eu não conseguia me concentrar.
Os relatórios espalhados sobre minha mesa pareciam se misturar diante dos meus olhos — cadeias de suprimentos, disputas de fronteira, um pedido das alcateias do oeste para negociações comerciais. Tudo aquilo deveria exigir toda a minha atenção. Em vez disso, minha mente continuava voltando para um par de olhos desafiadores em um rosto manchado de sujeira.
Ninguém.
Foi assim que ela se chamou.
Passei a mão pelos cabelos, frustrado comigo mesmo. Em trinta e um anos, nunca havia ficado tão distraído por causa de uma mulher. Principalmente por causa de uma mendiga com quem eu havia falado por apenas cinco minutos.
E, ainda assim, ali estava eu, revivendo cada segundo daquele encontro como um completo idiota apaixonado.
O lampejo de inteligência naqueles olhos incomuns, afiados demais para alguém que dizia não ser ninguém.
Maldição... e aquele cheiro sob a sujeira e os trapos, algo que fazia meu lobo andar inquieto sob minha pele.
Companheira.
Droga.
De todas as mulheres?
Bati a palma da mão sobre a mesa, fazendo os papéis se espalharem.
Não.
Absolutamente não.
Meu lobo rosnou em protesto. Desde a ponte ele estava agitado, resmungando e insistindo, desesperado para voltar e encontrá-la.
Para reivindicar o que era nosso.
Mas eu não era um filhote guiado por instintos primitivos.
Eu era o Rei Lykan de Dreadmoor.
Conquistei este trono com sangue e brutalidade.
Eu não tinha o luxo de acreditar em contos de fadas como companheiros predestinados.
Além disso, pelo que pude perceber, ela era uma ômega.
Não era?
Uma batida na porta do meu escritório interrompeu o turbilhão dos meus pensamentos.
— Entre.
Viktor entrou, mantendo a expressão cuidadosamente neutra.
Meu Beta me conhecia bem demais. Bastava um olhar para meu rosto e ele perceberia que havia algo errado.
— Os preparativos para sua celebração estão adiantados — informou ele. — As cozinhas confirmaram o cardápio, os protocolos de segurança já estão em vigor e a lista de convidados foi finalizada.
— Ótimo.
Mal ouvi minha própria resposta.
Uma das sobrancelhas de Viktor se ergueu discretamente.
— Há algo incomodando o senhor, meu rei?
Sim.
Tudo.
Nada.
Apenas uma garota em quem eu não conseguia parar de pensar.
— A garota da ponte — falei antes que pudesse me impedir. — Encontre-a.
O silêncio se estendeu entre nós.
Viktor fez uma expressão engraçada, arqueando as sobrancelhas.
— Erm... meu senhor...
— Eu lhe dei uma ordem.
O comando Alfa vazou para minha voz, e a cabeça de Viktor imediatamente se abaixou em submissão.
— Claro. Vou enviar homens imediatamente.
Ele hesitou junto à porta.
— Posso perguntar... por quê?
Boa pergunta.
Por que eu estava fazendo isso?
Que motivo eu poderia ter para sair à procura de uma garota qualquer?
Minha mente ficou completamente vazia.
Revirei os olhos, recostei-me na cadeira e desviei o olhar.
Nem eu mesmo sabia responder.
— Ela parecia estar com fome — respondi.
Viktor me observou pelo canto dos olhos.
Percebi a expressão em seu rosto, mas preferi ignorá-la.
Ele estava prestes a rir.
— Certifique-se de que ela receba comida e abrigo. Considere isso um gesto de caridade antes do meu aniversário.
Viktor claramente não pareceu convencido, mas assentiu e saiu.
Voltei para minha mesa, determinado a finalmente fazer algum trabalho.
Mas as palavras dos relatórios pareciam escritas em um idioma estrangeiro.
Meu lobo simplesmente não se acalmava, andando de um lado para o outro.
As horas passaram lentamente, até que a noite chegou.
Desisti da papelada e me vi parado diante da janela, olhando para o distrito inferior, onde a ponte ligava meu mundo ao dela.
Onde ela estaria agora?
Será que tinha encontrado um lugar para dormir?
Estava com frio?
Com fome?
Por que você se importa?
Essa era a pergunta, não era?
Passei por incontáveis mendigos durante minha vida sem lhes dar um segundo de atenção.
As ruas de Dreadmoor estavam cheias de pessoas desesperadas e miseráveis.
Eu não podia salvar todos.
Nem queria salvar todos.
Então por que ela?
A porta foi aberta de repente e Viktor entrou apressado, respirando com dificuldade.
— Nós a encontramos. Mas, meu senhor, há um problema.
Eu já estava me movendo antes mesmo que ele terminasse de falar.
Meu lobo avançou com um rosnado possessivo.
— Onde?
— No distrito inferior, perto das docas. Ela está sendo importunada pelos homens de Gregor.
Gregor.
Ora, claro.
Um dos líderes de gangue locais que acreditava controlar as ruas apenas porque eu permitia.
Uma ferramenta útil para manter o distrito inferior sob controle, mas, claramente, ele havia esquecido seu lugar.
— Prepare a carruagem — ordenei, passando por Viktor sem parar. — Agora.
— Meu senhor, talvez fosse mais prudente enviar...
— Agora, Viktor.
Ele sabia que não devia discutir quando eu usava aquele tom.
A viagem de carruagem até o distrito inferior pareceu durar anos em vez de minutos.
Meu lobo estava selvagem, exigindo sangue.
Exigindo proteger o que era nosso.
Forcei-me a respirar.
A manter algum resquício de controle.
Aquilo era uma loucura.
Eu era o Rei Lykan.
Estava atravessando as ruas como um cavaleiro de histórias infantis para salvar uma garota que eu nem conhecia.
Mas a alternativa...
Deixá-la ser machucada.
Permitir que aqueles bastardos colocassem suas mãos imundas sobre ela.
Só de imaginar isso, minha visão ficou vermelha.
A carruagem parou bruscamente.
Então ouvi um grito.
Seu cheiro invadiu o ar.
E algumas vozes chegaram até mim.
— Eu disse não. Não quero problemas.
— Ah, qual é, bonitinha. Estamos só sendo amigáveis.
Eu já havia saltado da carruagem antes que Viktor conseguisse abrir completamente a porta.
A cena diante de mim fez meu lobo urrar de fúria.
Três homens — capangas de Gregor, reconhecíveis pelas tatuagens em seus pescoços — a haviam encurralado contra a parede de um armazém.
Ela segurava um pedaço de madeira quebrado como se fosse uma arma, mantendo uma postura defensiva.
Mesmo assustada e em desvantagem numérica, ela não se encolhia.
Pequena corajosa.
Um deles estendeu a mão para tocá-la.
Meu controle acabou.
— Toque nela e perderá essa mão.
Os quatro viraram a cabeça ao mesmo tempo.
Os homens empalideceram quando perceberam quem eu era.
A garota me encarava com os olhos arregalados.
Choque.
Incredulidade.
Tudo ao mesmo tempo.
— Meu senhor... — gaguejou o maior deles, afastando-se dela imediatamente. — Nós não sabíamos... estávamos apenas...
— Apenas o quê? Aterrorizando uma garota indefesa?
Avancei em direção a eles e os três se espalharam como ratos.
— Digam a Gregor que, se eu encontrar qualquer um de seus homens assediando mulheres no meu território outra vez, entregarei as bolas dele dentro de uma caixa. Fui claro?
Eles assentiram tão rápido quanto puderam antes de fugirem rua afora.
Voltei-me para ela.
Ela havia abaixado a arma improvisada, mas suas mãos tremiam.
De perto, consegui ver um hematoma surgindo em sua maçã do rosto.
Recente.
Maldição.
Um deles havia batido nela.
Meu lobo uivou, sedento pelo sangue deles.
— Você está ferida? — perguntei.
Eu estava furioso.
Ela piscou algumas vezes, parecendo recuperar a compostura.
— Estou bem. Eu conseguiria lidar com eles.
Teimosa.
Orgulhosa.
Mesmo quando deveria estar me agradecendo por tê-la salvado.
Gostei disso.
— Tenho certeza de que conseguiria — respondi secamente. — Com esse seu pedaço de madeira mortal.
Ela ergueu o queixo.
— Teria funcionado.
— Contra três homens adultos? Você teria sorte se conseguisse derrubar um antes que os outros...
Interrompi a frase.
Não queria terminá-la.
Não queria imaginar o que eles teriam feito com ela.
Minhas mãos se fecharam em punhos.
Eu deveria tê-los matado.
Deveria ter arrancado suas gargantas por ousarem sequer olhar para ela.
— Venha — disse, apontando para a carruagem.
Ela me encarou como se eu tivesse criado uma segunda cabeça.
— O quê?
— A carruagem. Entre.
— Por que eu faria isso?
— Porque a alternativa é continuar neste beco, onde mais homens de Gregor podem voltar. Ou coisa pior.
Sustentei seu olhar, querendo que ela entendesse.
— Estou lhe oferecendo segurança.
— Não preciso da sua caridade.
Mas ouvi a mentira em sua voz.
Ela estava exausta.
E assustada.
Embora jamais admitisse isso.
— Não é caridade. Considere uma compensação. Você foi atacada dentro do meu território. Isso reflete mal sobre mim.
Era a desculpa mais fraca do mundo.
E nós dois sabíamos disso.
Ela me observou por um longo momento.
Aqueles olhos inteligentes examinavam meu rosto.
Procurando o quê?
Minhas intenções?
Se podia confiar em mim?
Ela não podia.
Nem deveria.
Eu era perigoso.
Especialmente para alguém como ela.
Mas meu lobo não se importava.
Ele apenas queria que ela estivesse segura.
E perto.
— Para onde está me levando? — perguntou por fim.
— Para um lugar onde você possa comer uma refeição de verdade e dormir em uma cama sem se preocupar em ser atacada.
Estendi minha mão.
— Você tem minha palavra.
A palavra de um monstro.
Sem valor algum.
Mas, enfim.
Depois de mais um instante de hesitação, ela colocou sua pequena mão na minha.
O contato enviou uma descarga elétrica por todo o meu braço.
Meu lobo ronronou satisfeito.
Ela também sentiu.
Vi suas pupilas se dilatarem e ouvi sua respiração prender.
Companheira, sussurrou meu lobo outra vez, convencido e presunçoso.
Ajudei-a a subir na carruagem e entrei logo atrás.
Viktor fechou a porta, deixando-nos sozinhos naquele espaço apertado.
Ela se encolheu no canto mais distante possível, mantendo a maior distância que conseguia.
Garota inteligente.
— Qual é o seu nome? — perguntei quando a carruagem começou a andar. — Seu nome verdadeiro, não aquela resposta evasiva que me deu na ponte.
Ela mordeu o lábio, claramente debatendo se deveria mentir outra vez.
Por fim respondeu:
— Raya.
Raya.
Combinava com ela.
Suave, mas forte.
Como o primeiro raio de sol rompendo a escuridão.
— Bem, Raya, agora você está segura. Ninguém vai machucá-la.
Ela me olhou com aqueles olhos sábios demais para sua idade, e eu me perguntei o que ela enxergava.
O rei?
O monstro?
Ou algo completamente diferente?
— Por que está fazendo isso? — perguntou baixinho.
Porque não consigo parar de pensar em você.
Porque meu lobo insiste que você é minha.
Porque a ideia de ver você ferida me faz querer reduzir esta alcateia inteira a cinzas.
— Porque eu posso — respondi, em vez disso.







