Capítulo 03

Lucca Ricci

Estou sentado em uma almofada de ar, porque minha bunda doi sem parar, está roxo onde bateu. Eu tentava me concentrar nos trabalhos do dia, quando pela décima vez Luiggi me interrompeu.

— Lucca, a moça de ontem está lá embaixo e quer falar com você. — juntei minhas mãos na altura do queixo, com os cotovelos apoiados na mesa e o encarei, a informação “moça de ontem não fazia sentido para mim”. — A moça do acidente.

— Ah, sei, tanta moça no mundo, eu lá ia lembrar. — disse, lembrando do rosto bonito e assustado com os olhos vermelhos, mas mesmo assim linda. Uma moça linda de pele branca, olhos verdes e sobrancelhas bem amarelas, não vi os seus cabelos que estavam escondidos atrás da touca e jaqueta. 

— Chefe, o que eu faço?

— Mande-a entrar. — ele saiu da sala, demorou para voltar com a jovem que agora tem seus cabelos loiros soltos, o braço imobilizado e continua com cara de assustada. 

Fiz sinal para que ela sentasse e atendi o meu celular, era Leonardo novamente insistindo na tal noiva que estava me arrumando. Terminei a ligação sem dizer nada que deixasse alguém entender o conteúdo. Encarei Serena e nós dois olhamos para Luigi ao mesmo tempo, ele deixou a sala imediatamente. Não pude evitar um sorriso, ela o constrangeu sem dizer uma palavra. Já gostei dela.

— Então, Serena, o que a trouxe aqui? — ela não respondeu imediatamente, mas suspirou e suas mãos apertavam uma a outra.

— Senhor Lucca, eu vim te pedir para me deixar voltar ao trabalho, eu não posso perder este emprego, eu e minha família precisamos muito do meu salário. — ela disse, com os olhos cheios de lágrimas.

— Mas você não vai perder o emprego apenas por não ir alguns dias para recuperar-se de um acidente, ainda que não devesse estar na montanha. — eu disse e ela ficou em silêncio, cada vez mais nervosa, vi que poderia chorar a qualquer momento.

— Por favor, ou eu vou enlouquecer dentro daquele quarto o dia todo. — eu fiquei curioso para saber o que aconteceu com uma moça tão nova, mas que fica nervosa em ficar um dia ou dois sem trabalhar, ela poderia namorar, assistir série, dormir. Tanta coisa para se fazer.

— Já pensou em descansar? — disse mostrando que as folgas servem para isso.

— Eu não consigo, já não posso treinar. — confessou esfregando a mão boa na calça, em um movimento lento.

— Não tem como treinar sem um braço. — Luigi invade a sala com seus passos curtos, mas rápidos e me mostra uma foto em seu celular.

— Está vendo? É a filha do acionista. — Luigi disse indignado.

— Meu Deus, eu não sou exigente, mas aí já é sacanagem. — disse me esquecendo da moça.

— Leonardo disse que resolveram tudo e o jantar é hoje. — Luigi disse tão desesperado quanto eu. 

— Tudo isso agora? Faz quinze minutos que falei com ele. — eu disse, certo de que armavam algo contra mim, mas me ocorreu uma ideia ousada.

— Já sei, Serena será a minha acompanhante… ou noiva… namorada.

— Eu?

— Você não quer trabalhar, vai escolher emprego agora? Eu não posso deixar você trabalhar com o braço imobilizado, mas como acompanhante você pode trabalhar. — disse, tentando não transparecer o quanto os assunto é grave.

— Olha assim o senhor me ofende, eu não sou garota de programa, acompanhante ou seja lá o que for. — ela disse ofendida, mas sem alterar a voz.

— Dez mil euros e você só precisa fingir ser minha noiva. — disse, pegando um pedaço de fio dental em minha gaveta. — Serena não respondeu, não sei dizer se ela respirava, mas não fez objeção nenhuma quando Luigi mediu a largura de seu anelar com o fio dental.

— Eu não tenho nem roupa pra isso. — falou baixinho me dando esperanças de que vai aceitar.

— Não diga mais nada. — Luigi disse, deixando a sala. 

— Reserve a suíte ao lado da minha para ela. — eu disse alto.

— Deixa comigo, chefe.

— O senhor é louco.

— Repita comigo, você é louco. Minha noiva não deve ter tanta pompa para falar comigo. — ela me olhava como se eu fosse um alienígena.

— Eu só queria voltar ao trabalho, mas aceito sua proposta. Precisa me dizer por quanto tempo devo sustentar a farsa.

— Por quinze dias.

— É pouco. — Serena disse, firme.

— Diga seu preço, já que trabalho e abrigo  não contam pra você.

— Acesso a pista, sem restrições.

— Mas você é tão teimosa, não vê que está machucada?

— Depois que eu for liberada, oras. — disse, derramando sua irônia no meu colo. Fiz um sinal para que ela esperasse e liguei para a central de esqui, falei com o nosso supervisor.

— Pois não, Sr. Lucca.

— Quero que faça uma credencial para…

— Serena Bianchi, vinte anos. — ela disse e eu fui repetindo.

— Senhor, eu preciso de um número de telefone para ligar em caso de acidente.

— Pode colocar o meu celular. — Desligamos a chamada com a promessa da credencial na minha mesa o mais rápido possível,

— Satisfeita, algo mais?  — a provoquei.

— Precisamos criar algumas regras, ou não vamos manter a farsa.

— Você tem razão, precisamos combinar o que dizer sobre quanto tempo estamos juntos, como nos conhecemos.

— Não quero beijos. — ela disse incomodada e desconfortável, mas não pareceu que iria voltar atrás. 

— Já viu namoro sem beijo, Sereninha?

— Nem apelidos.

— Então não vai dar certo, precisamos fazer com que todos pensem que somos um casal.

— Tá, mas não exagere.

— Fique tranquila. —  disse com toda a minha paciência com essa menina que pensa ser irresistível.

Luigi invadiu a sala outra vez.

— Lucca, a joalheria vai entregar o anel, já liberei a suíte para ela e as roupas estão chegando. Serena, vamos, as meninas do salão estão te esperando.

— O que está errado com as minhas roupas?

— Nada, querida, mas você precisa parecer cuidada e amada pelo seu namorado bilionário. — Luigi disse como se fosse algo corriqueiro fingir um namoro.

— Eu vou poder continuar trabalhando? — e ela voltou com sua preocupação inicial.

— Sim, no mesmo horário que eu. Quando não atrapalhar a nossa farsa, digo, nosso namoro. — disse me levantando e os levando até a porta, Luigi cuidará de tornar Serena perfeita para o posto de minha namorada.

Um tempo depois, o meu advogado entrou em minha sala com um dossiê sobre a vida de Serena.

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