Pedro saiu levando Diego, decidido a dar uma lição em Lavínia.
No passado, Lavínia tinha medo de deixar pai e filho irritados; sempre que eles recorriam ao silêncio frio, ela entrava em pânico.
Mesmo humilhada e insistente, precisava se agarrar a eles e agradar os dois para, só então, conseguir respirar aliviada.
Mas, desta vez, ela não fez absolutamente nada.
Naqueles dias, limitou-se a arrumar suas coisas.
Os funcionários da ilha deserta precisavam dos documentos de Lavínia.
Ela escolheu um horário e foi entregar tudo pessoalmente.
Mal havia concluído os trâmites quando recebeu uma ligação da loja de vestidos de noiva.
— Senhora Lavínia, o vestido de noiva que a senhora encomendou já está pronto. Quando pode vir experimentar?
Só então Lavínia se lembrou de que Pedro pretendia fazer uma cerimônia de casamento para ela no aniversário do matrimônio.
Naquele ano em que se casaram, Pedro ainda estava em uma cadeira de rodas; não pôde tirar fotos de casamento com ela, apenas registraram a união.
Por isso, ele prometera que, no dia 26 de dezembro, faria uma cerimônia para compensar, e encomendara o vestido com seis meses de antecedência.
Mas agora...
— Eu não preciso mais. Pode cancelar.
A funcionária ficou surpresa.
— Mas o Sr. Pedro já está na loja.
Lavínia correu até a loja de vestidos; Pedro e Diego estavam na sala de descanso.
Ao ver Lavínia, Diego virou o rosto, desconfortável.
Durante três dias, Lavínia não ligou nem uma única vez.
Era a primeira vez que isso acontecia.
Diego estava um pouco bravo e também magoado.
Será que a mamãe realmente não o queria mais?
Depois que a loja ligou avisando, ele fez escândalo para ir.
Mas, ao ver Lavínia com o rosto frio, ficou ainda mais irritado.
A vovó estava certa: Lavínia era fria e cruel, não chegava nem perto da gentileza de Raíssa!
O semblante de Pedro também não estava bom.
Ainda assim, ele conteve a raiva.
— Já terminou o seu show? Aquilo foi culpa sua e, mesmo assim, você faz birra e nem quer provar o vestido.
Lavínia quase riu.
Claramente eram eles que brigavam com ela, que a submetiam ao silêncio e à frieza.
No fim, ainda diziam que era ela quem estava fazendo birra.
— Eu não estou fazendo birra. Realmente não há necessidade de provar o vestido.
O dia 26 era justamente o dia em que ela partiria.
Ela não compareceria ao próprio casamento.
O rosto de Pedro foi ficando cada vez mais fechado.
Diego bateu o pé, furioso:
— Mamãe má! Você não tem a menor generosidade, não tem direito nenhum de ser minha mãe!
Diego sempre foi mimado; ele a provocava de propósito. Todas as vezes que dizia isso, Lavínia ficava tão magoada que tinha vontade de chorar.
Mas, desta vez, Lavínia respondeu com indiferença:
— Se eu não tenho direito de ser sua mãe, deixe a Raíssa ser.
Diego ficou atônito.
Pedro fechou o rosto imediatamente.
— Já chega! Eu e a Raíssa somos totalmente inocentes, não é nada dessa sujeira que você imagina!
— Eu só tenho pena dela. Com pouco mais de vinte anos, já está com câncer e tem apenas dois meses de vida. Ela também é sua irmã! Por que você é tão cruel?
Lavínia deixou Pedro despejar suas acusações; seu coração já não doía mais.
Chegou até a imaginar que expressão Pedro faria se descobrisse que Raíssa não tinha câncer algum.
— Tem mais alguma coisa? Se não, eu vou embora.
Lavínia se virou para sair.
Pedro entrou em pânico.
— Lavínia!
— Mamãe!
De repente, o celular de Pedro tocou.
Depois de atender, sua voz ficou extremamente suave.
— Raíssa, não tenha medo! Eu vou agora mesmo!
Antes que Lavínia pudesse reagir, Pedro agarrou sua mão.
— Você também vai!
Lavínia foi arrastada para dentro do carro.
O veículo disparou em alta velocidade; era a primeira vez que ela via Pedro tão aflito.
Ao chegar ao destino e empurrar a porta do camarote, Raíssa se lançou chorando sobre eles.
— Pedro, me salva! Essas pessoas querem me obrigar a beber!
Pedro a puxou imediatamente para os braços; Diego também se colocou à frente dela.
— Não podem intimidar a Raíssa!
Dentro do camarote só havia homens; o contrato estava sobre a mesa, claramente se tratava de uma negociação.
Ao verem a atitude de Pedro e Diego, alguns chegaram a coçar as orelhas, com expressão de desdém.
— Srta. Raíssa, não é bem assim. Só precisamos que você beba esta taça e, então, assinamos o contrato.
O rosto de Pedro ficou sombrio.
— A Raíssa tem câncer gástrico, não pode beber. Eu bebo no lugar dela!
Um dos homens sorriu.
— Você é do Grupo Ribeiro? Você beber não adianta. Eu quero que alguém do Grupo Ribeiro beba!
No segundo seguinte, os olhares de Pedro e Diego recaíram sobre o rosto de Lavínia.
O rosto de Lavínia empalideceu; ela entendeu imediatamente por que Pedro a havia levado até ali.
No fim das contas, era para ela limpar a bagunça da Raíssa.
Lavínia cerrou os punhos.
— Não. Eu não posso beber.
Raíssa chorou, implorando desesperadamente:
— Eu te imploro, por favor! O Grupo Ribeiro é praticamente seu patrimônio! Você vai ficar olhando ele quebrar?
Pedro gritou severamente:
— Lavínia, você precisa ser tão insensível assim? Você sabe quantas noites a Raíssa passou em claro por esse projeto? É só uma taça de vinho!
Diego também berrou:
— Mamãe, anda logo e bebe! Depois disso, eu não vou mais te cobrar por você ter empurrado a Raíssa da escada!
Lavínia se apoiou na parede, sentindo o corpo inteiro gelar.
O que eles faziam não era outra coisa senão levar alguém à morte.
Câncer gástrico em estágio avançado simplesmente não permite o consumo de álcool; se ela bebesse aquela taça, ainda teria vida?
Além disso, que relação o Grupo Ribeiro tinha com ela?
Como filha mais velha da família Ribeiro, ela não possuía sequer um por cento das ações do Grupo Ribeiro!
Os olhos de Lavínia ficaram vermelhos.
— Eu não vou beber!
O rosto de Pedro se fechou por completo; em meio ao choro de Raíssa, ele tomou uma decisão, pegando a taça de vinho.
No instante seguinte, segurou com força o queixo de Lavínia.