Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio estendeu-se por um segundo agonizante após o uivo, e então a voz do Alfa tornou-se mortalmente sombria na mente de Janete.
“— Chega de correr, lobinha. Você sabe que essa fuga é inútil. Venha até mim."
Sem perder mais um único segundo, a mulher se afastou três passos. Aria assistiu, paralisada pelo choque, quando o corpo de sua mãe começou a se contorcer de forma violenta. Os ossos de Janete estalaram alto, rompendo-se e se reconstruindo em ângulos impossíveis. Pelos cinzentos e espessos irromperam de sua pele à medida que sua silhueta crescia e se deformava.
Em menos de cinco segundos, uma enorme loba ocupava o lugar de sua mãe. Era um animal imponente e elegante, embora magro demais pelos anos de subnutrição e trabalho escravo.
Aria perdeu a voz. Durante toda a sua vida, ela acreditara que sua mãe era como ela: uma renegada sem loba. Lágrimas de puro choque encheram seus olhos.
— Mãe...
“Perdoe-me, minha filha”, a voz de Janete ecoou, límpida e dolorosamente clara, direto dentro da mente de Aria.
Antes que a jovem pudesse processar, a loba se abaixou, impulsionou o corpo e ergueu Aria cuidadosamente sobre o lombo. Então, ela disparou floresta adentro.
O cenário transformou-se em um borrão de árvores e galhos que explodiam sob as patas pesadas da loba. O vento gélido cortava o rosto de Aria como navalhas, forçando-a a afundar na pelagem espessa da mãe. Naquele instante, a verdade desabou sobre ela.
Janete havia escondido sua própria natureza durante dezoito anos. Ela abandonara sua loba, sua liberdade, sua própria identidade sobrenatural, aceitando ser humilhada por humanos e lobos menores... tudo para passar despercebida e manter Aria viva.
— Me desculpa, mãe... me desculpa — Aria soluçou contra os pelos dela.
“Não se culpe, minha filha”, a resposta mental veio imediata, impregnada de um amor materno tão puro que aqueceu o peito congelado de Aria. “Você apenas foi curiosa. Eu faria tudo de novo. Você é tudo o que eu tenho neste mundo... Eu daria a minha vida para mantê-la segura.”
Aria apertou os braços ao redor do pescoço da loba, o coração espremido pela culpa.
“Só me prometa uma coisa, Aria.”
— O quê?
“Atravesse a ponte. Custe o que custar. Não olhe para trás.”
Aria engoliu o choro seco, sentindo o peso daquela promessa.
— Eu prometo... — Ela piscou, limpando as lágrimas, quando uma dúvida repentina a atingiu. — Mãe... por que eu consigo ouvir você? Eu... eu não tenho uma loba. Eu sou humana.
Janete demorou alguns segundos para responder, o som de suas patas batendo contra a terra úmida ecoando ritmicamente.
“Tem, sim”, a resposta fez Aria prender a respiração. “A nossa conexão mental apenas confirma o que eu sempre suspeitei. Sua loba existe, Aria. Ela está aí dentro.”
Outro uivo rasgou o ar. Dessa vez, assustadoramente próximo. O som de galhos sendo estraçalhados atrás delas indicava que os perseguidores estavam colados em seus calcanhares.
“Ela apenas não despertou no tempo comum. Mas ela está ai. E quando chegar a hora... será ela quem salvará a sua vida.”
A loba saltou sobre um tronco caído e rompeu a clareira, alcançando o topo das colinas que davam acesso ao abismo. Mas, ao olharem para a frente, o desespero total tomou conta de Aria.
Lobos imensos, de pelagens acinzentadas e olhos amarelados, bloqueavam todas as entradas que levavam à ponte. Eles já haviam cercado o perímetro.
Janete não diminuiu o passo. Em uma manobra desesperada, mudou de direção, correndo em direção ao topo de uma formação rochosa escarpada, tentando encontrar qualquer fresta ou descida que contornasse o bloqueio.
Foi então que uma voz violenta invadiu a mente de Aria. Era grave, autoritária e inconfundível.
“Aria...”
A jovem estremeceu sobre o lombo da mãe, sentindo uma náusea instantânea.
“Minha pequena renegada. Não torne esta caçada mais desagradável do que precisa ser. Renda-se. Prometo ser misericordioso na punição de vocês duas.”
O tom de Kaelen carregava uma diversão sádica. Aria cerrou os dentes, o ódio superando o medo por um segundo. Ela concentrou toda a sua mente e disparou o pensamento de volta, com o máximo de repulsa que conseguiu reunir:
“Nunca. Você nunca vai me ter, seu maldito!”
No mesmo instante, um uivo furioso e ensurdecedor rasgou o céu da floresta. Kaelen a ouvira. E a tréplica dele veio não para Aria, mas na forma de um comando de Alfa direcionado à loba cinzenta. Uma onda de poder invisível e esmagador desabou sobre o topo da colina.
“Janete! Pare imediatamente! Esta é uma ordem do seu Alfa!”
A loba cambaleou. Aria sentiu o corpo da mãe enrijecer por completo; a dor da quebra de um comando de Alfa atravessava na mente de Janete como uma lança incandescente. Cada passo que ela dava contra aquela ordem parecia partir seus próprios ossos de dentro para fora. Ainda assim, cospindo sangue mentalmente, a loba continuou a correr, forçando suas patas contra o chão.
“Você deixou de ser meu Alfa no dia em que tentou destruir a minha filha!”, Janete rugiu de volta em pensamento, quebrando o elo de submissão com pura força de vontade de mãe.
Kaelen soltou um riso frio, cruel e desprovido de qualquer humanidade através do elo mental.
“Tolas... Esse caminho para onde você está correndo leva para o lado oposto da ponte. Vocês estão encurraladas.”
Atrás delas, a escuridão da mata se rompeu. Três lobos imensos saltaram sobre a crista rochosa. O maior deles avançou direto contra as patas traseiras da loba, jogando o peso do corpo para derrubá-la.
O impacto arremessou Aria para o lado. Ela rolou pelo chão de pedra, sentindo os cascalhos afiados rasgarem o tecido fino do vestido branco. A respiração sumiu de seu peito ao parar a poucos centímetros da beirada. Olhou para baixo. O Grande Abismo de Squamish se abria em um vão escuro, de onde subia o som violento de águas velozes colidindo contra as rochas.
À sua frente, o pesadelo ganhou forma.
A loba tentou se levantar, mas uma das patas dianteiras cedeu, trêmula pela dor do comando quebrado. Os três perseguidores avançaram de uma vez. O maior deles cravou os dentes nas costas da mãe de Aria, arrancando um tufo de pelos misturado a um jato escuro. Janete não chorou. Soltou um rosnado rouco, virando o pescoço para morder a orelha do agressor com a força que lhe restava.
— Mãe! — Aria tentou se levantar, mas um rosnado baixo à sua esquerda a fez congelar.
Kaelen surgiu das sombras da trilha. Ele não estava transformado. Caminhava com as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, os olhos cinzentos brilhando com o reflexo da lua.
— Eu avisei, renegada — disse ele, a voz calma demais para o caos ao redor. — O preço da insubmissão sempre é cobrado em sangue.







