Guiando o Predador

Capítulo 3

Janete tremia.

Não era um tremor de medo, mas sim de uma fúria antiga e sufocante. Cada insulto proferido pelo dono da lanchonete atravessava seu orgulho como uma lâmina em carne viva, mas ela suportava tudo, dia após dia, por um único motivo: proteger a filha. Forçando o ar a entrar em seus pulmões, ela engoliu o próprio sangue, abaixou a cabeça diante do homem gordo e fingiu submissão.

— Senhor... peço perdão pela impertinência da minha filha — Janete disse, a voz controlada a duras penas. — Eu mesma a punirei por esse atrevimento.

Enquanto falava, ela deu um passo à frente, tentando usar o próprio corpo como escudo. Aria, no entanto, permanecia imóvel. Seus punhos estavam tão cerrados que as juntas dos dedos estavam brancas. O sorriso de escárnio no rosto do velho fazia seu sangue ferver.

— O que é isso, mãe? Esse velho nojento não pode falar assim com você...

Antes que a filha terminasse a frase, Janete cravou os dedos no braço de Aria com uma força surpreendente.

— Fique quieta, Aria! — ordenou, os olhos faiscando em um aviso silencioso e desesperado.

Sem dar tempo para reações, Janete praticamente a arrastou para longe dali. Elas não saíram pela porta da frente. Atravessaram os fundos da lanchonete, cruzando um corredor úmido, de paredes frias e mofadas, que terminava direto na mata fechada, aos pés das colinas canadenses.

Assim que as árvores as cobriram e ela teve certeza de que estavam sozinhas, Janete soltou o braço de Aria abruptamente e se virou.

— O que você pensa que estava fazendo?!—Tem ideia do que pode acontecer por desrespeitar aquele homem?Ele podia me fazer perder o emprego... ou coisa muito pior!

A bronca, no entanto, morreu congelada em sua garganta.

Um aroma cortou o vento frio da noite. Um cheiro diferente, denso e terrivelmente familiar atingiu o olfato de Janete. Dentro de seu peito, sua loba interior — adormecida à força por dezoito anos — despertou em um solavanco, arranhando sua mente em puro pânico.

Perigo.

Janete deu um passo para trás, avaliando Aria pela primeira vez desde que ela entrara na lanchonete. Só então os detalhes saltaram aos seus olhos. O vestido branco. O batom. Os cabelos loiro-perolados cuidadosamente arrumados, brilhando sob o luar. 

— Que roupa é essa, minha filha? — a voz de Janete saiu em um sopro, quase um sussurro de morte.

— Mãe... eu... eu fui até o centro. Até a praça... — As palavras de Aria morreram quando ela viu o rosto de Janete perder completamente a cor.

Janete não precisava ouvir o resto. O olfato apurado de sua raça não mentia. Impregnado no tecido daquele vestido branco, misturado ao suor de pânico, estava o aroma opressor de pinho queimado e terra molhada.

Kaelen Sterling. O Alfa de Squamish. Ele as havia encontrado.

— Não... — Janete cambaleou, as pernas vacilando como se o chão tivesse sumido. — Você não fez isso...

Aria franziu a testa, o peito apertado ao ver o terror absoluto nos olhos da mãe.

— Mãe, por que você nunca me contou a verdade? Como aquele monstro pôde dizer que meu pai... que eu pertenço a ele?

Janete olhou freneticamente para os lados, perscrutando as sombras da floresta. O tempo havia acabado.

— Venha — ela segurou o braço da filha de novo, mas dessa vez com um aperto trêmulo. — Precisamos sair daqui agora. Você não está mais segura neste território.

— Mãe, espera! Aonde estamos indo?

— Ele virá buscar você, Aria! — Janete aumentou o passo, praticamente correndo entre as raízes e pedras.

— Calma! Eu consegui fugir dele! — Aria tentou argumentar, puxando o braço de volta. — Ele nem é tudo isso, eu consegui despistá-lo nos corredores!

Janete parou abruptamente. Quando se virou, seus olhos não eram mais humanos; uma linha amarelada e selvagem brilhava em suas pupilas, tomadas pelo pavor.

— Não diga uma estupidez dessas! — A voz dela quebrou, embargada. — Eu sabia que isso aconteceria... A culpa é minha. Eu deveria ter contado tudo antes... ou ter mantido você ainda mais escondida.

Aria abaixou a cabeça, o peso da culpa caindo sobre seus ombros.

— Me desculpa... — murmurou, mas logo ergueu os olhos azuis. — Mas se a senhora tivesse confiado em mim, nada disso teria acontecido! Além disso, ele está na praça comemorando com a alcateia. Estamos longe.

As palmas geladas da mãe seguraram o rosto da filha.

— Escute bem, Aria. Você realmente acredita que um Alfa predador permitiria que sua presa fugisse... se ele não quisesse? Você nunca esteve fugindo, Filha...

Janete fechou os olhos por um segundo.

— Você estava conduzindo o predador até a toca.

O mundo de Aria girou. A náusea a atingiu com força total. Ela não havia fugido. Ela havia sido o cão de caça de Kaelen. Ela havia conduzido o monstro direto até a sua mãe.

A mulher a puxou com violência, quebrando o transe.

— Precisamos atravessar esta floresta. No alto das colinas existe uma ponte que cruza o Grande Abismo de Squamish. Se conseguirmos cruzar aquela linha, estaremos no território da alcateia Sombras de Ônix, em Vancouver. Um Alfa jamais invade o território de outro sem declarar uma guerra de sangue. Kaelen não ousará cruzar.

Um uivo cortou a escuridão da floresta canadense.

Longo. Profundo. Predatório. O som fez a terra vibrar sob seus pés.

— Ele chegou... — Janete sussurrou.

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