O Fim de Tudo

Capítulo 5

No centro daquelas rochas, Aria via a mãe lutando pela vida. O som de carne rasgada e ossos batendo contra o chão ecoava pela clareira enquanto os lobos atacavam sem parar.

Ela gritava, desesperada, implorando para que parassem. Mas o lobo à sua frente a mantinha presa, esmagando seu corpo contra o chão com a pata pesada.

Kaelen deu um passo na direção dela.

— Acabe com isso — ordenou, sem desviar os olhos da jovem. — Deixe apenas a garota.

O lobo que a segurava se afastou. No mesmo instante, os olhos de Aria buscaram os de Janete.

A loba acinzentada reuniu a última faísca de vida em seus músculos. Com um movimento explosivo, ela se desvencilhou dos agressores e avançou não contra Kaelen, mas contra a própria filha. Aria não teve tempo de reagir. O focinho pesado e ensanguentado da mãe bateu contra o seu peito, empurrando-a com força total para trás.

O chão sumiu.

O vento cortou seus ouvidos enquanto o corpo caía no vazio do abismo. A última imagem que teve do topo da colina foi a silhueta de Kaelen correndo até a borda, os olhos arregalados de fúria.

Então, a água congelante a engoliu.

O impacto contra o rio foi como bater em um muro de concreto. O frio extremo perfurou a pele de Aria, travando seus pulmões instantaneamente. O turbilhão escuro a arrastou para o fundo, girando seu corpo como uma folha seca. Ela bateu o ombro contra uma rocha submersa, a dor disparando pelo braço, mas o instinto falou mais alto.

Atravesse a ponte. Custe o que custar.

Aria forçou as pernas a chutarem a correnteza, lutando para manter a cabeça acima da superfície. O rio a arremessava de um lado para o outro, rasgando o vestido branco, até que a força da água a jogou contra uma margem de cascalho e lama do outro lado.

Ela tossiu violentamente, cospindo a água de Squamish enquanto se arrastava para fora da correnteza. Seus dedos se cravaram na lama escura. Seus joelhos estavam ralados, os braços sangravam e o corpo inteiro tremia.

Seus olhos percorreram a margem à sua volta, procurando qualquer sinal. Mais à frente seu corpo foi lançado contra o chão de pedra e rolou alguns metros antes de parar completamente imóvel. Nua, coberta de sangue e marcada por cortes profundos, ela respirava com dificuldade, como se cada inspiração fosse uma batalha perdida.

— Mãe...

A voz morreu em sua garganta.

No instante seguinte, ela disparou colina abaixo, tropeçando nas pedras, ignorando os galhos que arranhavam sua pele. Caiu de joelhos ao lado de Janete e a tomou nos braços, apertando-a contra o peito como se pudesse impedir que a vida escapasse de seu corpo.

Os olhos de Janete se abriram lentamente. Ainda havia amor neles, mas a vida esvaía-se rápido.

— Minha... filha... — A voz saiu em um fio, entrecortada por uma tosse que tingiu seus lábios de vermelho.

— Não fala... por favor... eu vou tirar você daqui.

A mãe sorriu. Um sorriso pequeno e triste de quem já conhecia o fim.

— Me escuta...

Aria balançava a cabeça, recusando-se a aceitar.

— Não... não... por favor...

— Atravesse... a ponte — outra tosse estremeceu o corpo debilitado. — Promete...

As lágrimas escorriam sem controle.

— Eu prometo... mas a senhora vem comigo. Nós vamos conseguir...

Janete ergueu a mão com dificuldade. Os dedos frios tocaram a bochecha da filha pela última vez.

— Você... sempre... foi... o meu maior orgulho.

— Não... mãe... a culpa foi minha... — Aria desabou sobre ela.

A mulher reuniu a última faísca de força nos músculos.

— Nunca... diga isso... — Respirou fundo, arrastando o ar com um esforço sobre-humano. — Eu escolheria... você... outra vez. Mesmo sabendo... como terminaria.

Um brilho sereno cruzou suas pupilas.

— Eu te amo...

A mão escorregou pelo rosto de Aria e caiu pesadamente sobre as pedras. O silêncio tomou conta da margem do rio.

— Mãe...? — Nenhuma resposta. — Mãe...

Aria segurou o corpo inerte, sacudindo-o pelos ombros.

— Mãe!

O grito rasgou a noite, ecoando pelas montanhas. Ela pressionou a testa contra a de Janete, mas o calor da pele já desaparecia. A mãe havia partido. O mundo de Aria ruiu ali mesmo, no chão lamacento.

O estalo de um galho do outro lado do rio quebrou o luto.

Aria ergueu o rosto devagar. Na margem oposta, Kaelen observava tudo. Imóvel, como se apreciasse um espetáculo desenhado para ele. Atrás do Alfa, dezenas de lobos aguardavam em um silêncio cúmplice.

A voz dele atravessou a escuridão.

— Acabou, Aria.

Ela apertou os dentes até sentir o gosto ferroso do próprio sangue.

— Venha — Kaelen estendeu a mão. — Não há mais ninguém para protegê-la.

Aria olhou para a estrutura de madeira logo acima, depois para o corpo inerte no chão. Por fim, fixou os olhos no Alfa. O peito queimava com um ódio que ela nunca soube que existia.

Com as pernas vacilantes, ela se levantou. Cada passo em direção à colina parecia uma traição, mas era a última vontade da mãe. Quando alcançou a primeira tábua de madeira da ponte, a voz de Kaelen chicoteou suas costas.

— Se atravessar essa ponte... — Ele sorriu, as feições tomadas por uma diversão predatória. — Eu destruirei esta alcateia. Homens, mulheres, crianças... todos morrerão. E o sangue deles estará em suas mãos.

Aria fechou os olhos por um segundo. Quando tornou a abri-los, a garota assustada da lanchonete havia desaparecido. As lágrimas ainda limpavam a sujeira de seu rosto, mas a voz saiu firme, baixa e letal.

— Então faça isso.

Kaelen arqueou uma sobrancelha, o sorriso sumindo de seus lábios.

— Porque eu também fiz uma promessa — ela o encarou diretamente, sustentando o olhar do monstro. — Um dia... eu volto.

Deu mais um passo sobre as tábuas da ponte.

— E quando esse dia chegar... — Aria sorriu pela primeira vez. Não era um sorriso de Alegria, mas o de alguém que havia perdido tudo. — Eu mesma vou arrancar a sua cabeça.

E, pela primeira vez, os olhos de Kaelen deixaram de enxergar uma menina indefesa. O brilho que encontrou no olhar de Aria não era medo... era vingança.

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