Nas Sombras De Um Alfa
Nas Sombras De Um Alfa
Por: Bianca da Silva
O Primeiro Erro

Capítulo 1

Aria encarou o próprio reflexo no espelho rachado, cuja fenda atravessava o vidro de ponta a ponta, dividindo seu rosto exatamente ao meio. Com movimentos calmos, ela passou a escova pelos longos cabelos loiro-perolados, tão claros que lembravam a neve recém-caída das montanhas canadenses. O contraste dos fios fazia sua pele parecer ainda mais delicada, quase translúcida, enquanto seus olhos azul-turquesa brilhavam como duas pedras preciosas sob a luz fraca e oscilante do quarto.

Ela olhou para as próprias mãos e sorriu de canto, um misto de melancolia e orgulho no peito.

— Dezoito anos...

Afastou-se do espelho e caminhou até o velho guarda-roupa de madeira gasta. Assim que puxou uma das portas, o móvel rangeu alto em protesto, revelando a escassez da sua realidade. Não havia muito o que escolher ali dentro: vestidos gastos, calças remendadas e blusas desbotadas pelo tempo.

No entanto, escondido no fundo, apenas um vestido branco parecia digno daquela noite. A dona do bar onde ela trabalhava o havia jogado no lixo por causa de um pequeno rasgo no ombro, mas, para Aria, aquilo era um tesouro. Com algumas linhas de costura, paciência e mãos habilidosas, ela havia recuperado a peça.

Agora, o vestido caía perfeitamente sobre seu corpo. Aria não tinha curvas exuberantes; com apenas um metro e sessenta de altura e a silhueta magra moldada por anos de extrema pobreza e dificuldades na periferia, ela acreditava sinceramente que jamais chamaria a atenção de ninguém.

Respirou fundo, sentindo um peso incômodo no estômago. Naquela noite ela completava dezoito anos. A idade sagrada de todos os lobos. Muitas despertavam sua loba interior e sentiam a conexão com o mundo sobrenatural.

Mas ela... nunca ouvira uma única palavra da sua loba. Jamais sentira sua presença ou o calor do instinto animal. Desde pequena, aprendera a esconder essa vergonha profunda do restante do mundo. Apenas Janete, sua mãe, conhecia aquele segredo angustiante. E Aria sabia que era justamente por isso que a mãe sempre insistia, com os olhos cheios de pavor, para que ela jamais se aproximasse da cidade. Jamais olhe para uma alcateia, Aria. Jamais permita que sintam seu cheiro, ela repetia como um mantra.

Mas, naquela noite, a curiosidade acumulada por muitos anos venceu o medo.

Sua mãe passaria o turno inteiro trabalhando na pequena lanchonete do bairro e só voltaria de madrugada. Era a oportunidade perfeita.

— Não vai acontecer nada... — murmurou para as paredes vazias.

Queria provar para si mesma que Janete exagerava. Sonhava em conseguir um emprego melhor no centro de Squamish, encontrar pessoas dispostas a ajudá-la e juntar dinheiro suficiente para que as duas deixassem aquela casa caindo aos pedaços. Aria fechou os olhos por um segundo, sorrindo ao imaginar a mãe descansando, livre dos gritos e dos insultos diários do velho dono da lanchonete.

Tomada por uma coragem repentina, ela saiu. A velha porta de madeira apenas encostou, incapaz de ser trancada de verdade havia anos. O vento frio do fim do verão canadense atravessou o tecido fino do vestido branco, fazendo-a abraçar o próprio corpo enquanto caminhava pelas ruas escuras e estreitas do bairro dos renegados.

Quanto mais se aproximava do centro da cidade, mais o cenário mudava. Havia luzes brilhantes, música pulsante e o som de risos ecoando pelos estabelecimentos. Quando finalmente alcançou a praça principal, Aria misturou-se à multidão, maravilhada e assustada ao mesmo tempo.

Quase imediatamente, ela percebeu os olhares. Alguns eram curiosos, mas a grande maioria era carregada de puro desprezo e arrogância. Ela tentou ignorar, erguendo o queixo.

Foi então que os viu. Um grupo de homens dominava o centro da praça. Eram altos, robustos e imponentes. Alguns exibiam tatuagens complexas, enquanto outros carregavam cicatrizes profundas pelo peito e pelos braços. Nenhum deles parecia se importar com o frio cortante da noite. Riam alto enquanto bebiam, comemorando alguma coisa importante. Aria parou, o coração acelerando fortemente no peito. Ela nunca tinha visto os lobos de uma alcateia tão de perto.

— O que uma garota como você está olhando com tanta atenção? — uma voz feminina e afiada interrompeu seus pensamentos.

Aria virou-se abruptamente. Uma mulher de cabelos negros impecáveis e vestido elegante a observava de cima a baixo, com uma expressão de puro nojo.

— Eu... eu só estava olhando... — Aria gaguejou, sentindo-se subitamente minúscula. Ela apontou timidamente para o grupo. — Eles são da alcateia?

A mulher soltou uma gargalhada anasalada, atraindo a atenção de algumas pessoas ao redor.

— Você deveria ter vergonha de aparecer aqui vestida assim.

Antes que Aria pudesse esboçar qualquer reação, a desconhecida aproximou o rosto do dela com agressividade e inspirou profundamente, farejando o ar ao redor do pescoço de Aria. O sorriso zombeteiro da mulher desapareceu instantaneamente, dando lugar a uma expressão de choque e profundo desdém.

— Eu não sinto a sua loba — a mulher sibilou. Aria congelou, o sangue sumindo de seu rosto. — Você é humana? Uma renegada sem loba no nosso território?

— Não... eu...

— Que vergonha! — a mulher deu um passo para trás, elevando o tom de voz de propósito para que toda a praça ouvisse. — Olhem todos! Uma renegada! Tão fraca e defeituosa que nem conseguiu despertar a própria loba!

As risadas explodiram ao redor. As palavras atingiram o peito de Aria como facadas certeiras. Uma onda de humilhação e raiva injetou adrenalina em suas veias e, por um breve milésimo de segundo, as profundezas de seus olhos azul-turquesa brilharam com uma intensidade sobrenatural, oculta sob os cílios. Ela fechou os punhos com tanta força que as unhas cravaram na própria pele, arrancando uma pontada de dor física para não chorar ali mesmo. Agora ela entendia o desespero de sua mãe. Aquele mundo era cruel demais.

— Tome — a mulher arrancou um lenço branco e jogou sem menor cuidado sobre os ombros de Aria. — Cubra esse vestido ridículo de mendiga. Você está envergonhando a nossa cidade com essa miséria.

As gargalhadas aumentaram, ecoando como tortura. Aria deu um passo para trás, pronta para correr e nunca mais voltar, mas o ambiente ao seu redor simplesmente congelou.

Uma aura esmagadora, pesada e sufocante caiu sobre a praça como um manto de chumbo. O riso de todos morreu no mesmo instante. A pressão no ar era tão forte que Aria sentiu dificuldade para respirar.

Foi então que uma voz masculina, grave, arrastada e carregada de uma autoridade perigosa ecoou, fazendo cada pelo do corpo de Aria se arrepiar de puro terror.

— Que tumulto é esse... justamente durante a minha comemoração?

O silêncio que se seguiu foi absoluto. A multidão de lobos se abriu rapidamente, curvando as cabeças à medida que o homem avançava.

Ele era alto, de cabelos negros, e caminhava com a imponência de quem se considerava dono de tudo ao seu redor. Vestia roupas de extremo luxo, e aparentava estar na casa dos quarenta anos. Embora não fosse um homem feio, seus olhos cinzentos carregavam uma malícia predatória e um ar de superioridade que fizeram o estômago de Aria revirar instantaneamente.

Só podia ser o Alfa Kaelen, o líder de Squamish.

Aria tentou recuar para se esconder no meio do povo, mas os olhos afiados do Alfa varreram o local até travarem exatamente nela. No mesmo segundo, as pupilas de Kaelen se dilataram em choque. Ele parou, o cenho franzido, fixando o olhar diretamente naqueles olhos azul-turquesa tão únicos e inesquecíveis.

Um sorriso cínico e asqueroso começou a desenhar os lábios do Alfa quando ele reconheceu os traços do bebê que havia sido roubado de suas mãos anos atrás. Ele caminhou lentamente na direção dela, como um lobo encurralando uma presa indefesa que não tinha para onde fugir. Aria deu mais um passo para trás, o coração batendo violentamente na garganta, sentindo que tinha acabado de cair direto nas garras de um monstro.

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