O Gosto do Perigo

Capítulo 2

O ar desapareceu dos pulmões de Aria antes mesmo que o Alfa Kaelen desse o primeiro passo em sua direção. A pressão que emanava dele era física, uma força invisível que esmagava os ombros de Aria e fazia seus joelhos tremerem. Ao redor, os guerreiros da alcateia, homens que instantes atrás pareciam gigantes indomáveis, curvaram as cabeças em um silêncio reverente e apavorado.

Kaelen era a lei ali. E, naquele momento, seus olhos cinzentos e sombrios estavam cravados nela.

— Olhe para você... — a voz de Kaelen ecoou, grave, arrastada e impregnada de um divertimento cruel que fez os pelos do corpo de Aria se arrepiarem.

Ele parou a menos de um passo de distância. O cheiro dele — uma mistura sufocante de pinho queimado e terra molhada — invadiu as narinas de Aria, roubando-lhe o oxigênio. Sem qualquer aviso, ele estendeu a mão calejada e segurou-a pelo queixo com uma força brutal, forçando seu rosto para cima.

Aria tentou recuar, mas os dedos dele se cravaram em sua pele como garras de ferro.

— Escondida entre o lixo e os renegados por todos esses anos... — Kaelen sibilou, os olhos cinzentos varrendo o rosto dela, detendo-se nos cabelos loiro-perolados e descendo pelas vestes brancas e remendadas. Um sorriso cínico e asqueroso distorceu seus lábios. — Sua mãe realmente achou que poderia me enganar, vestindo de trapos um bebê que me pertence por direito de contrato?

Aria sentiu o estômago revirar de nojo. O toque dele parecia queimar sua pele, deixando um rastro invisível de sujeira. Mesmo apavorada, o orgulho e o desespero falaram mais alto. Ela trincou os dentes, sustentando o olhar dele.

— Eu não pertenço a ninguém. Muito menos a você — ela cuspiu as palavras, a voz trêmula, mas carregada de desafio.

O Alfa soltou uma gargalhada ruidosa, um som áspero que foi imediatamente acompanhado pelo riso debochado de seus homens ao redor. Ele apertou ainda mais o queixo dela, aproximando o rosto até que Aria pudesse ver cada linha de expressão de seus anos de malícia predatória que brilhava em suas pupilas.

Seu pai pagou com a vida por aquela traição — Kaelen sibilou perto de seu ouvido, o hálito quente fazendo a espinha de Aria congelar. Os dedos dele deslizaram pelo pescoço dela, de forma possessiva e lenta. — Ele me prometeu uma filha que seria uma Luna digna, portadora de uma loba que traria inveja para todos os outros Alfas. E olha para você... Você é magra, fraca. Nem mesmo uma loba você tem para herdar o título de Luna. Jamais seria digna de governar ao meu lado. Porém... não posso negar que se tornou muito bonita, mesmo atrás dessas vestes ridículas de mendiga.

O Alfa inclinou o corpo, pressionando-a sutilmente. A humilhação pública alimentava o ego do monstro.

— O seu castigo por ter sido escondida de mim será me servir. Você viverá na minha casa, será minha escrava pessoal, e servirá apenas para me satisfazer na minha cama quando eu bem entender. Eu vou adorar devorar você, garota. E a única coisa que você vai sentir... é dor, quando eu estiver entrando em você.

As palavras dele caíram como ácido na mente de Aria. A imagem daquele homem a tocando, usando-a como um objeto descartável, despertou algo violento em seu peito. Uma descarga de adrenalina pura correu por suas veias.

Antes que Kaelen pudesse prever qualquer reação de uma garota que considerava indefesa e sem loba, Aria agiu.

Usando todo o peso do seu corpo, ela desceu o calcanhar com força total sobre o pé do Alfa. Ao mesmo tempo, liberando toda a sua fúria, ela ergueu a mão livre e desferiu uma unhada violenta no rosto dele. Suas unhas rasgaram a bochecha de Kaelen.

O Alfa soltou um rugido de surpresa, afrouxando o aperto por uma fração de segundo. Foi o suficiente. Aria se abaixou, esquivou-se por baixo do braço dele e disparou a correr, sumindo como um raio pelo corredor escuro e estreito que se abria logo atrás da praça.

Kaelen cambaleou para trás, levando a mão ao rosto. Ao afastar os dedos, viu o sangue vermelho-vivo manchando sua pele. Os guardas ao redor rosnaram, prontos para avançar como feras, mas o Alfa ergueu a mão, detendo-os.

Em vez de fúria cega, um sorriso sombrio, quase excitado, desenhou-se em seus lábios cortados. Ninguém em Squamish ousava tocá-lo, muito menos machucá-lo. Aquela garota de trapos tinha dentes.

— Sigam-na — ordenou Kaelen, a voz fria e calculista, enquanto limpava o sangue com as costas da mão. — Mas não a peguem ainda. Deixem que ela corra. Descubram em qual buraco ela e a traidora da mãe dela se escondem. Quero as duas juntas.

Enquanto isso, o mundo de Aria havia se resumido ao som de sua própria respiração descompassada e ao impacto de seus pés contra o asfalto. Ela corria pelas ruelas escuras e úmidas do bairro dos renegados, as pernas queimando, o peito subindo e descendo em busca de ar. A cada esquina, ela olhava para trás, esperando ver as silhuetas imensas dos lobos de Kaelen saltando das sombras para estraçalhá-la.

Mas a rua estava deserta. O silêncio da noite era quase sepulcral. Ela mal conseguia acreditar que de fato tinha conseguido escapar daquele monstro.

Guiada pelo puro instinto de sobrevivência e pela necessidade urgente de proteção, Aria correu direto para o único porto seguro que conhecia: a pequena lanchonete de beira de estrada onde sua mãe trabalhava.

Ela empurrou as portas de vidro rangentes com tanta força que o sino de metal acima da entrada badalou violentamente. O cheiro de fritura e café velho invadiu seus sentidos, mas a cena que encontrou dentro do estabelecimento fez o resto de seu sangue congelar, transformando seu medo em pura fúria.

Sua mãe, Janete, estava encolhida perto do balcão. Suas mãos trêmulas seguravam um pano de prato úmido enquanto ela olhava para o chão, onde os cacos de um prato de cerâmica estavam espalhados. Diante dela, a poucos centímetros de seu rosto, o velho dono da lanchonete, um homem gordo de dentes amarelados, gesticulava de forma agressiva, gritando insultos que ecoavam pelas paredes vazias do local.

— ...sua imprestável! Não serve nem para limpar um chão direito! Se quebrar mais alguma coisa, coloco você e aquela sua bastarda para fora a pontapés!

— Saia de perto dela agora mesmo, seu velho nojento! — o grito de Aria rasgou o ar da lanchonete.

Ela cruzou o espaço como um furacão, postando-se firmemente entre o homem e sua mãe. Os olhos azul de Aria faiscavam com uma intensidade quase sobrenatural sob as luzes florescentes do teto.

— Exijo que tenha respeito com ela! Ela se mata trabalhando dia e noite nesta porcaria de lugar para você tratá-la como lixo! Tire suas mãos e seus gritos de perto da minha mãe!

O velho deu um passo para trás, pego de surpresa pela fúria da garota, enquanto Janete arregalava os olhos, o rosto pálido de pavor ao perceber o estado da filha: o vestido de festa rasgado, o peito arfante e o desespero mascarado de raiva.

O confronto havia começado, mas Aria sabia que o verdadeiro perigo ainda estava caçando seus rastros na escuridão lá fora.

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