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Eu não posso morrer!
Deitada no chão frio da cela, ofegante, cravei as unhas nas palmas das mãos numa tentativa inútil de me manter consciente. Meu corpo, pesado como chumbo, me prendia ao chão.
Mais de cem quilos de fraqueza e doença. Mas a minha mente… finalmente começava a emergir da névoa de dois anos em coma. Era a única coisa que me restava. E eu precisava usá-la.
Fui incriminada pelo meu próprio marido, Azael. Ele entrou na minha vida como um salvador. Casamos por uma promessa, uma dívida que eu acreditei que nunca poderia pagar.
E tentei. Dei a ele tudo. Empregos. Contatos. O acesso à minha empresa, a Tafyllo Capital.
Até que, pouco a pouco, ele tomou tudo de mim. E eu deixei, enquanto misteriosamente ficava doente. Porque confiava nele. Porque achava que devia minha vida a ele. Um erro estúpido.
Agora, estou aqui. Acusada de desviar um bilhão. Condenada pela mídia. Pelos sócios. Por todos. Meu rosto — ou o que restou dele depois do coma, estampado como o da maior golpista da década.
A morte que ele preparou para mim não veio com sentença oficial. Veio pior. Lenta, solitária, doente. Dentro de uma cela, sem conseguir ao menos ficar em pé com esse excesso de peso quase me esmagando.
Mas eu não queria morrer, e se meu plano dê certo, posso ter uma chance de sobreviver.
— Maelyn Tafyllo, tem visita.
A voz do guarda cortou o silêncio. Soltei o ar, trêmula. Um alívio tão intenso que doeu.
Ele veio. O meu plano funcionou.
Um sorriso fraco surgiu nos meus lábios, e morreu no instante em que olhei para a grade.
Não era ele, eu estava esperando o senhor Jones aparecer, mas quem era esse homem? O meu tutor tem pelo menos mais de sessenta anos, e esse homem… ele poderia ter até menos de trinta, será que ele enviou alguns de seus contatos? Já faz tantos anos que não nos vimos, mas sei que ele não me abandonaria, ele me ensinou tudo que sei e me tratou como se eu fosse sua filha.
Do outro lado, um homem permanecia imóvel. Intocável. Como se a sujeira, o cheiro e a miséria não pudessem alcançá-lo.
Terno escuro impecável, postura rígida, um chapéu ocultando os olhos. Os lábios, finos, não demonstravam nada. Só… análise.
E, obviamente, posso imaginar que está sentindo até mesmo nojo. Atrás dele, dois seguranças. E um homem com uma pasta. O carcereiro abriu a cela com mãos trêmulas, como se estivesse diante de um rei.
Meu corpo entrou em alerta.
Quem é ele? Onde está meu tutor?
Ele não entrou. Permaneceu a uma distância segura, como se eu fosse algo contaminado. E talvez fosse.
Meu cabelo grudava no rosto. Minha roupa estava imunda. Meu corpo… irreconhecível. Eu tentei me levantar antes. Não consegui, os braços estavam fracos, minhas pernas pareciam de chumbo.
E ele assistia tudo. Naquele momento, até eu me sentia desprezível por ter chegado a esse ponto.
Vi nos lábios dele o julgamento silêncios, isso é o que sobrou? Um frio percorreu minha espinha.
— Maelyn Tafyllo. — A voz dele era baixa, mas dominou a cela inteira.
Engoli seco.
— Quem… quem é você?O assistente bufou.
— Quem não conhece o presidente das empresas Brackthone?Brackthone? O nome ecoou na minha mente. Era familiar. Um império. Mas o presidente… não fazia parte do meu plano. Algo estava errado. Será que Azael fez algo que fez um homem como ele vir atrás de mim? O que ele queria? Terminar o que Azael começou?
Ele fez um gesto discreto. O homem da pasta se aproximou, colocou um documento no banco e recuou.
— Pode ler — disse ele. — Se conseguir.
A provocação queimou. Mas ignorei. Apoiei o cotovelo no chão e forcei meu corpo a subir. Cada movimento doía, mas eu consegui sentar. Ofegante. Suada. Humilhada. Mas sentada. Peguei o documento. Minhas mãos tremiam, mas meus olhos correram pelas linhas. Contrato. Cláusulas. Condições. Correntes. Meu coração falhou por um segundo quando li o nome no final: Magnus Blackthone.
Levantei os olhos.
— Isso é sério? — minha voz saiu baixa, mas firme. — Quer me jogar em outro inferno?Ele não hesitou.
— Promessas não podem ser quebradas e você deve cumprir a sua agora, mesmo sendo um pedaço de trapo.Franzi o cenho.
— Eu nunca nem vi você.— Vai ter tempo para lembrar. Assine.
Não fazia sentido. Até que vi. No rodapé. Uma cláusula alterada. O nomeda testemulha… Alistair Blackthone. O mundo parou. Alistair. Meu tutor se chamava Alistair mas sobrenome Jones. Não podia ser coincidência. Ou podia? Levantei os olhos lentamente.
— Alguém te mandou?
— Eu não preciso de ordens, eu apenas vir, você esta em todos os jornais. — respondeu ele. — Preciso de você viva.
Soltei uma risada seca.
— Olhe pra mim. Eu estou morrendo.Silêncio. Pesado. Voltei ao contrato. Alistair não veio. Mas o nome dele estava ali. Como testemunha. Isso mudava tudo.
— E se eu recusar?
— Você morre. — Simples assim. — Hoje. Amanhã… não importa. Seu marido garantiu isso. Seu coração não aguenta mais, eu sei que ele não quer que você passe de hoje e se depender das pessoas aqui, você não passa.
O ódio ferveu. Mas a lógica falou mais alto, eu estava no pico, eu ia morrer. Eu não tinha escolha. Olhei para o contrato uma última vez.
— O que você quer de mim?
— você vai saber logo, já que agora você me pertence. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Mas primeiro, quero que viva.
Viver. A palavra acendeu algo dentro de mim.
Assinei. O meu nome saiu torto. Manchado por uma lágrima que nem senti cair. A caneta escorregou dos meus dedos. Então veio a dor. Brutal. Apertando o meu peito até o ar desaparecer. O mundo girou. A minha visão escureceu.
A última coisa que vi foi ele. Imóvel. Observando.
— Pode deixar eles entrarem agora. — ordenou. — Ela não pode morrer, não agora que tem o meu sobrenome.
— O quê? — Ela perguntou antes de ela ficou preto, mas não conseguiu ouvir a frase do homem.
— Disse, você não pode morrer, minha esposa.







