Mundo de ficçãoIniciar sessãoBiancaAo sair da faculdade, vejo um homem de pele morena, bem-vestido, caminhar em minha direção, com os olhos fixos em mim. Chego a olhar para trás, apenas para ter certeza de que sou mesmo o alvo de seu olhar.
Observo-o com atenção: ele é bonito — muito bonito —, apesar da expressão dura que, curiosamente, não me intimida.
— Buon giorno — diz.
Sua voz grave me assusta, mesmo eu já tendo certeza de que se dirigia a mim. Não tenho tempo de responder, pois uma garota se aproxima e fala algumas palavras com ele. Melhor assim — ao menos é alguém conhecido. Será que estuda aqui? Estranho… um homem como ele não passaria despercebido. Pelo menos não por mim, que estou sempre alerta desde aquele dia fatídico.
Às vezes, sinto como se quem ordenou a morte da minha família ainda estivesse à minha procura, apenas aguardando o momento certo para concluir o que começou. Meu pai insiste que minha vida era indiferente para aqueles homens, que eles sequer sabem da minha existência. Ainda assim, esse sentimento é inevitável.
— Como você está, Pietro? — pergunta a garota.
— Bem — ele responde, de forma breve.
Ela sorri e, em seguida, se vira para mim:
— Garota, você é sortuda por conseguir conversar com ele. Estudei três anos com esse monumento e quase não ouvi sua voz. Mas, sinceramente, só olhar para ele já era suficiente.
Sorrio sem graça diante do seu descaramento — e também por saber que ouvi apenas duas palavras do belo rapaz. Ela se despede e vai embora.
— Não precisa ter medo de mim, Bianca — ele diz, surpreendendo-me. Como sabe meu nome? — Como pode ver, falo pouco… mas não mordo. Quer dizer… isso depende muito.
Meu rosto queima com suas palavras de duplo sentido. Devo estar vermelha como um tomate.
— Às oito, passo na sua casa. Vamos sair para jantar.
Fico pasma com sua ousadia — e, ao mesmo tempo, gosto disso.
— Como assim? Nem te conheço, não sei seu nome… Você nem sabe onde moro.
— O jantar é exatamente para nos conhecermos. Meu nome é Pietro Mancinni. Já estive em sua casa algumas vezes.
Olho-o com curiosidade, e ele percebe.
— Tenho negócios com o governador.
Agora faz sentido. Ele disse que já esteve na minha casa… como nunca o vi? Só se foi em horários em que eu não estava.
Pietro caminha em direção ao que imagino ser seu carro, e eu fico ali, feito uma boba, apenas observando.
— Às oito, Bianca — repete, antes de entrar no carro.
Ele dá a partida e vai embora.
O que foi isso?
Dentro de mim, há uma mistura de sentimentos. Por um instante, esqueço quem sou e me deixo levar pela ideia de um encontro com um belo desconhecido. Sinto-me ansiosa para estar com ele e, ao mesmo tempo, tomada pelo medo: não sei quem ele é, o que faz, como me conhece… nem por que se interessa por mim.
São perguntas demais — e talvez algumas encontrem resposta com meu padrinho, o único que pode me dizer quem é Pietro Mancinni.
Meu carro de aplicativo chega e, em poucos minutos, estou em casa. Minha madrinha me recebe com um belo sorriso e pergunta se estou com fome, mas respondo com outra pergunta:
— Onde está meu padrinho?
Sem entender minha pressa, ela diz que ele está no escritório. Tenta acrescentar algo, mas não deixo; meus passos são rápidos, quase uma corrida.
A menos de um metro da porta, uma voz me paralisa: Pietro está aqui, na minha casa.
O que isso significa?
Meu coração dispara. Paro diante da porta entreaberta e, em seguida, ouço meu padrinho e meu pai se despedindo dele. O que está acontecendo? Com medo de dar de cara com Pietro diante dos dois homens que mais amo, corro para o quarto, fecho a porta e me jogo na cama.
Kira me chama do lado de fora. Peço que entre. Ela se senta na cama, e eu deito a cabeça em seu colo. Com sua habitual gentileza, pergunta o que está acontecendo, por que estou tão aflita.
— Um rapaz foi à faculdade falar comigo. Nem sei se estuda lá ou se foi apenas ao meu encontro. A única certeza é que nunca o tinha visto antes.
— Ele foi desrespeitoso? Fez algo contra você?
— Não, longe disso. Ele me convidou para jantar.
— Que bom! Já está mais do que na hora de você conhecer rapazes, namorar. Sei que é romântica e sonhadora como eu. Quem sabe esse rapaz não é o cavalheiro dos seus sonhos?
— Não é isso…
— Ainda não entendi o que te aflige. Seja clara, Bianca.
Conto como foi a abordagem dele e que, quando fui falar com Nicolo, Pietro estava com ele e com meu pai no escritório.
Kira franze levemente a testa antes de responder:
— Eu sabia da visita. Até tentei te avisar, mas você não me deixou falar… Só não sabia quem era. Qual é o nome dele?
— Pietro Mancinni.
Ela me olha por um instante, como se as peças finalmente se encaixassem.
— Agora tudo faz sentido — responde.







