Mundo de ficçãoIniciar sessãoBianca
Tomo banho e me arrumo sem exageros. Há meninas no campus que parecem estar indo para uma festa, com maquiagem pesada logo pela manhã.
Na sala de jantar, encontro meus padrinhos. Não me canso de admirar a beleza e a delicadeza de Kira. Minha madrinha é inglesa; seus traços são finos, e sua educação e leveza são encantadoras. Nicolo costuma dizer que não entende como uma mulher de fala mansa foi se apaixonar por um italiano encrenqueiro e barulhento. Ela sempre ri quando ele diz isso.
Dizem que Kira e eu parecemos mãe e filha — não só fisicamente, já que ambas somos ruivas, mas também pelo jeito. A convivência me tornou parecida com ela, e eu amo isso.
Como apenas uma maçã e me retiro. Ouço meu padrinho reclamar, mas não tenho tempo para isso. Caminho até o jardim, despeço-me do papà e tiro uma selfie — meu hábito matinal. A cada dia escolho um canto diferente; quando vou ao campo de flores da minha madrinha, faço várias fotos.
— Você está linda hoje — diz o brasileiro galanteador, Rodrigo. Mesmo sabendo que não faço seu tipo e que ele fala isso para todas, fico vermelha.
Ele apoia o braço em meu ombro e caminha comigo até a aula. Rodrigo mora em nosso país há três anos, e o conheço desde então. Aos poucos, fui me acostumando ao seu jeito. Ele diz coisas que ainda me deixam constrangida, mas já consigo levar com leveza.
No intervalo, Anna e Donatella se juntam a nós. Rodrigo não perde a oportunidade de jogar seu charme sobre Anna, que está há apenas um semestre conosco.
— Não dê confiança, Anna. Rodrigo é um grande galanteador — diz Donatella.
— Que isso, está com ciúmes? — ele provoca, beijando a mão direita dela, que revira os olhos.
— Posso te fazer uma pergunta? — Anna se dirige a mim.
— Fique à vontade, Anna — respondo.
— Por que você gosta tanto de flores?
— Convivo com elas desde que me entendo por gente. Meu pai é jardineiro, então acabo passando ainda mais tempo com elas e aprendendo a conhecê-las.
— Bianca — Anna chama minha atenção, olhando discretamente de um lado para o outro. — As pessoas não precisam saber que seu pai é jardineiro.
— Por que não? — Rodrigo pergunta, antes que eu consiga responder.
— É mais interessante dizer que você é afilhada do governador do que filha de um jardineiro.
— Amo meu padrinho, mas não tenho vergonha nenhuma do meu pai. A profissão dele é tão digna quanto qualquer outra. Eu teria vergonha se ele me maltratasse ou fosse um homem de caráter duvidoso.
Rodrigo se endireita ao meu lado, e seu tom muda completamente:
— Meu pai é motorista, sabia? Estudo nesta faculdade de gente rica porque ganhei uma bolsa dos patrões dele. E essa bolsa não serviria de nada sem o investimento que meu pai fez na minha educação antes de nos mudarmos para Roma — e, claro, sem o meu esforço.
Ele faz uma breve pausa, encarando Anna com firmeza.
— Não consigo entender quem tem vergonha dos próprios pais. Acha mesmo que ninguém percebe? Você não é filha de motorista nenhum… é filha da cozinheira, e nem pai você tem por perto. Foi a sua patroa quem te deu essa bolsa — e você quase a perdeu por causa das notas no início do semestre.
O silêncio se instala, pesado.
— Valorize sua mãe, Anna. As horas que ela passa em pé, trabalhando, são para te dar essa oportunidade. E agradeça a Deus para que ela esteja ao seu lado até você terminar os estudos… porque você acha mesmo que os patrões dela vão te sustentar para sempre?
Donatella e eu, que conhecemos Anna há mais tempo, ficamos de boca aberta. Agora tudo faz sentido: as vezes em que ela não podia fazer os trabalhos conosco, o motivo de nunca ter nos convidado para ir à sua casa. Mesmo sendo filha do jardineiro, eu sempre tive liberdade para receber visitas — já fizemos vários trabalhos lá em casa, ainda na época do ensino médio.
Anna sai em disparada, sem olhar para trás.
Donatella se vira para Rodrigo, ainda incrédula:
— Como você sabe de tudo isso?
— Fui com meu pai à casa onde ela mora — responde ele, com naturalidade. — Vi a Anna na cozinha, com roupas simples e um avental, descascando batatas. Fiz algumas perguntas aqui e ali… e acabei descobrindo tudo.
Ele dá de ombros antes de continuar:
— Quando o motorista da família está livre, ou passa pelas redondezas da faculdade, ele vem buscá-la. A pedido dela.
Fico em silêncio, assimilando tudo.
Essa… eu realmente não esperava.







