Jordan

Jordan Narrando

Meu nome é Jordan Moretti, tenho trinta e oito anos e, durante toda a minha vida, aprendi que sentimentos são um luxo que homens como eu não podem se permitir.

Nasci na Itália, no berço da família Moretti, um sobrenome que desperta respeito em alguns e verdadeiro terror em muitos outros. Cresci cercado por homens armados, reuniões silenciosas e decisões que mudavam destinos inteiros. Enquanto outras crianças aprendiam a brincar, eu aprendia a observar. Meu avô dizia que um líder nunca fala mais do que o necessário e jamais demonstra suas fraquezas. Carrego esse ensinamento até hoje.

Sou alto, tenho um metro e noventa e dois de altura, porte físico forte, resultado de anos de disciplina. Minha pele é levemente bronzeada, meus cabelos são pretos, sempre impecavelmente alinhados, e meus olhos cinzentos costumam intimidar quem cruza meu caminho. Já ouvi inúmeras vezes que meu olhar é frio. Talvez seja verdade. A vida fez questão de apagar qualquer inocência que um dia existiu dentro de mim.

Meu pai comandava parte dos negócios da família quando eu ainda era muito jovem. Foi com ele que aprendi tudo sobre estratégia, negociação, poder e liderança. Mas também aprendi que, no nosso mundo, confiar na pessoa errada pode custar muito mais do que dinheiro. Pode custar a vida.

Nunca tive uma adolescência comum.

Enquanto jovens da minha idade frequentavam festas e universidades, eu estudava economia, administração, política internacional, idiomas e tudo o que pudesse fortalecer o império da família. Também fui treinado para atirar, lutar e sobreviver em qualquer situação.

Nada era opcional.

Tudo fazia parte do meu destino.

Quando completei vinte e quatro anos, já comandava operações importantes da organização. Aos vinte e oito, meu nome passou a ser conhecido muito além da Itália. Hoje lidero grande parte dos negócios da família Moretti espalhados pelo mundo.

Muita gente acredita que construímos fortuna apenas através da violência.

Estão enganados. Nosso verdadeiro império está nas empresas, hotéis, Construtoras.

Transportadoras.

Companhias de logística, Fundos de investimento. Tecnologia.

Mercado financeiro.

A violência é apenas uma ferramenta para proteger aquilo que construímos.

Meu patrimônio ultrapassa cifras que a maioria das pessoas sequer consegue imaginar. Dinheiro nunca foi um objetivo para mim. Poder sempre foi muito mais importante.

Atualmente moro entre a Itália e o Brasil. Tenho uma cobertura em Milão, uma cobertura presidencial permanente em um dos hotéis mais luxuosos do país quando estou em território brasileiro. Fico na minha mansão à beira do lago Paranoá na capital Brasileira. Meus compromissos me obrigam a viajar constantemente.

Poucos conseguem acompanhar minha rotina, acordo antes do nascer do sol. Treino todos os dias.

Leio relatórios enquanto tomo café, participo de reuniões durante horas.

Assino contratos bilionários.

Resolvo conflitos antes mesmo que eles se tornem públicos, Cada minuto da minha agenda possui um propósito.

Nunca fui casado.

Também nunca encontrei uma mulher capaz de despertar em mim o desejo de dividir a vida.

Tive relacionamentos, alguns duraram semanas, Outros poucos meses. Mas nenhum foi suficiente para mudar minhas prioridades.

O trabalho sempre veio primeiro.

A família também, os Moretti seguem um código.

Protegemos os nossos.

Nunca abandonamos um membro da família, Jamais perdoamos uma traição.

Essa última regra é absoluta.

Minha irmã foi a única pessoa da família que ousou desafiar as tradições dos Moretti.

Nosso pai já havia escolhido o homem com quem ela deveria se casar, um casamento que fortaleceria ainda mais a nossa posição dentro da máfia. Era o dever dela honrar o nome que carregava.

Mas ela preferiu fugir, abandonou o próprio sangue. E se casou com Adam Ashford.

Foi a maior desonra que nossa família já enfrentou. Naquele mesmo dia, ela foi renegada.

Nosso pai a expulsou do clã.

Os Moretti apagaram seu nome da nossa história, e eu fiz o mesmo. Para mim, ela morreu no instante em que escolheu um estranho em vez da própria família.

Nunca procurei saber como ela vive. Nunca tive interesse em conhecer o marido.

Muito menos qualquer descendente que tenha vindo daquela união.

Nada que pertença aos Ashford me interessa. Para mim, laços de sangue só existem enquanto houver lealdade. E ela escolheu quebrar esse juramento.

Desde então, sigo minha vida como se fosse filho único. Embora tudo isso tenha acontecido, eu ainda fosse muito novo. Nunca mais pronunciei o nome da minha irmã.

Nunca perguntei por ela.

Nunca senti necessidade de saber se estava viva ou morta.

Para mim, quem abandona os Moretti deixa de existir.

Hoje sou o único herdeiro oficial de todo o império da nossa família.

Carrego um sobrenome que pesa toneladas sobre os ombros, mas jamais reclamei desse destino. Fui preparado para isso desde menino. Meu pai moldou meu caráter para assumir o comando, e eu jamais o decepcionei.

Os homens da organização me respeitam porque sabem que nunca tomo decisões impulsivas.

Sou paciente.

Analítico.

E quando preciso agir, faço isso sem hesitação. O império Moretti não foi construído sobre emoções. Foi construído sobre disciplina.

Minha rotina é quase sempre a mesma, negócios durante o dia.

Reuniões intermináveis.

Voos internacionais.

Jantares com investidores.

Assinaturas de contratos que movimentam bilhões.

À noite, quando o silêncio toma conta da cidade, às vezes permito que o corpo descanse da mesma forma que a mente nunca consegue.

Algumas mulheres passam pela minha cama, mas nenhuma permanece.

São encontros passageiros, discretos e sem qualquer envolvimento emocional. Quando a noite termina, cada um segue seu caminho como se nada tivesse acontecido.

Nunca misturei desejo com sentimento. Aprendi cedo que apego é uma vulnerabilidade.

E vulnerabilidades custam caro para homens como eu.

Por isso nunca me permiti amar.

Nunca procurei alguém para dividir minha vida.

Meu compromisso sempre foi com o império que um dia será completamente meu.

Existe, no entanto, uma única pessoa capaz de atravessar todas as barreiras que construí ao meu redor.

Minha mãe.

Ela é a rainha da família Moretti.

A única diante de quem abaixo a guarda. Tenho por ela um respeito absoluto.

Uma admiração que palavra alguma consegue descrever.

Tudo o que sou também carrega a marca da mulher que me criou.

Jamais levanto a voz para ela.

Jamais permito que alguém lhe falte com respeito. Enquanto eu respirar, ninguém ousará tocar um fio de cabelo da minha mãe.

Ainda hoje faço questão de tomar café com ela sempre que estou na Itália.

Conversamos sobre negócios, sobre a família, sobre o futuro da organização. Mas existe um assunto que nunca atravessa nossos lábios.

Minha irmã.

Minha mãe nunca voltou a mencioná-la. Ainda assim, conheço aquela mulher melhor do que qualquer pessoa.

Nos momentos em que ela acredita estar sozinha, existe um brilho melancólico em seus olhos. Uma tristeza silenciosa que ela tenta esconder.

Sei exatamente de onde ela vem.

É a dor de uma mãe. Mas também sei que ela jamais quebrará as tradições dos Moretti para admitir isso.

Nunca tocamos no assunto.

Porque, para nossa família, ela morreu no instante em que rompeu os laços com o próprio sangue.

E os mortos não voltam para casa.

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