Mundo de ficçãoIniciar sessãoJordan Narrando
Acabei de chegar de uma viagem. Foram dias exaustivos, atravessando países, fechando contratos, resolvendo conflitos e colocando ordem em assuntos que só chegam até mim quando ninguém mais consegue resolver. Meu corpo pedia descanso, e minha cabeça também. Antes de ir para o hotel, passei na sede. É um hábito. Gosto de verificar pessoalmente se tudo está funcionando como deveria. Cumprimentei alguns dos meus homens e caminhei até a sala de reuniões. — Alguma novidade? Um dos soldados respondeu imediatamente. — Tudo sob controle, Senhor. Assenti com a cabeça. — Mantenham a segurança reforçada durante a madrugada. Quero todos atentos. — Sim, chefe. Depois de conferir os últimos relatórios, deixei novas instruções e fui embora. Meu único objetivo era chegar à cobertura do hotel, tomar um banho e dormir algumas horas. O motorista conduzia o carro em velocidade moderada, enquanto dois veículos de apoio seguiam logo atrás. A avenida estava relativamente vazia. Foi então que aconteceu. Do nada, uma mulher surgiu no meio da pista. — Freia! Meu motorista pisou no freio com toda a força. Os pneus cantaram no asfalto. Mesmo assim, o carro acabou atingindo a mulher de raspão. O impacto foi suficiente para derrubá-la. Fechei os olhos por um segundo. Era exatamente o tipo de problema que eu não precisava. Abri a porta e desci imediatamente. Os homens da segurança fizeram o mesmo. Um deles se aproximou rapidamente. — Senhor, vou chamar uma ambulância. Olhei para a mulher caída no chão. Ela respirava. Não havia sinais de um ferimento grave. — Não precisa. Me aproximei e me ajoelhei ao lado dela. Os arranhões eram superficiais. Ela estava desacordada. Quando me inclinei um pouco mais, senti o forte cheiro de álcool. Suspirei. — Ótimo... uma bêbada. Observei melhor suas roupas. Apesar do estado em que se encontrava, era evidente que havia saído de algum evento importante. Vestia um elegante vestido de gala, joias delicadas e um salto que provavelmente custava uma fortuna. Quem diabos sai sozinha nesse estado? Sem perder mais tempo, passei um braço sob suas costas e outro por baixo de suas pernas. Levantei-a com facilidade. Era incrivelmente leve. Enquanto caminhava até o carro. Ela vomitou. Fechei os olhos por um instante. O conteúdo atingiu diretamente a manga do meu paletó. Olhei para o tecido completamente sujo. Respirei fundo. — Fantástico... Balancei a cabeça em sinal de incredulidade. Um dos homens tentou conter o riso, mas desistiu quando encontrou meu olhar. Coloquei a mulher cuidadosamente no banco traseiro. Cruzei os braços por alguns segundos. — Eu devia deixar essa maluca no meio da rua. Ninguém respondeu. Todos sabiam que eu jamais faria isso. Entrei no carro novamente. Durante o trajeto até o hotel, ela permaneceu desacordada. Nem sequer se mexeu. Fiquei observando seu rosto por alguns instantes. Apesar da maquiagem borrada o cheiro de álcool, é uma mulher bonita. Parecia mais exausta do que inconsciente. Poucos minutos depois chegamos ao hotel. Entrei pela garagem privativa. Não queria chamar atenção. Peguei a mulher novamente no colo e caminhei diretamente para o elevador exclusivo que levava à minha cobertura. Os funcionários apenas abaixaram a cabeça em sinal de respeito. Ninguém fez perguntas. Nunca fizeram. Assim que entrei no apartamento, deitei-a cuidadosamente sobre minha cama. Peguei o telefone e liguei para a recepção. — Preciso que envie imediatamente uma funcionária até minha cobertura. — Sim, senhor Moretti. Não demorou mais do que alguns minutos. A campainha tocou. Abri a porta. Era uma das recepcionistas. Ela parecia um pouco nervosa. — Boa noite, senhor. Fomos até o meu quarto, apontei para a mulher desacordada. — Troque a roupa dela. Vista-a com uma das minhas camisas. Depois pode ir embora. — Sim, senhor. Enquanto ela fazia o que eu havia ordenado, peguei o celular e fiz outra ligação. — Anthony. Do outro lado da linha, meu médico de confiança atendeu quase imediatamente. — Jordan? — Preciso que venha até minha cobertura. — Estou indo. Pouco tempo depois, a funcionária terminou o serviço, informou que havia colocado uma camisa limpa na mulher e deixou o apartamento. Anthony chegou em seguida trazendo sua maleta, se aproximou da cama e iniciou o exame com calma. Verificou os sinais vitais. Apalpou cuidadosamente os braços e as pernas. Observou os pequenos arranhões provocados pela queda. Depois de alguns minutos, retirou as luvas. — Fique tranquilo. Não há fraturas. Apenas algumas escoriações e um grande susto. Ele limpou cada ferimento, aplicou uma pomada cicatrizante e fez um curativo discreto onde era necessário. Antes de guardar os materiais, olhou para mim. — Quando acordar, vai sentir dores pelo corpo, e uma bela ressaca. Assenti. — Obrigado por vir tão rápido. — Você sabe que pode contar comigo. Acompanhei Anthony até a porta. Assim que ele foi embora, voltei ao quarto, a desconhecida dormia profundamente. Cobri-a com o edredom. Apaguei a luz, deixando apenas o abajur do corredor aceso. Antes de fechar a porta, lancei um último olhar para aquela completa estranha. Balancei a cabeça, soltando um suspiro curto. — Amanhã eu vou descobrir quem é você, sua maluca. E espero sinceramente que tenha uma boa explicação para ter atravessado a frente do meu carro. Por esta noite já me deu trabalho demais. Fui para um dos quartos de hóspedes. Não fazia sentido dividir o mesmo ambiente com uma completa desconhecida, ainda que ela estivesse desacordada. Tomei um banho demorado para aliviar o cansaço da viagem, mas, por mais que a água quente relaxasse meus músculos, minha mente continuava inquieta. Aquela mulher simplesmente apareceu na frente do meu carro. Agora está dormindo na minha cama. Balancei a cabeça enquanto vestia uma roupa confortável. — Isso só acontece comigo. Apaguei as luzes do quarto e me deitei. Fechei os olhos. Virei para um lado.Depois para o outro. Nada. O sono simplesmente não vinha. A presença de uma estranha dentro da minha casa me deixava em estado de alerta. Eu sempre soube exatamente quem entrava e quem saía dos meus domínios. É uma regra que nunca abri exceções. Até essa noite. Em algum momento da madrugada acabei cochilando. Quando os primeiros raios de sol atravessaram a janela, despertei imediatamente. Me levantei, tomei um café rápido e vesti um roupão escuro. Precisava saber se aquela mulher já havia acordado. Caminhei em silêncio pelo corredor até o quarto principal. Girei a maçaneta devagar e entrei. Ela ainda estava deitada. Por alguns segundos permaneci parado, apenas observando. Então ela começou a se mexer. Franzi levemente a testa. Seu rosto demonstrava incômodo. Devagar, abriu os olhos. Parecia completamente desorientada. Olhou primeiro para o teto. Depois para o quarto. Em seguida, seu olhar encontrou o meu. Fiquei imóvel. Ela arregalou os olhos imediatamente e levou as mãos ao rosto, cobrindo-o num gesto instintivo de vergonha e surpresa. Permaneci parado, sem dizer uma única palavra. Essa, sem dúvida, é a maneira mais incomum de começar o meu dia.






