Mundo de ficçãoIniciar sessãoElara Narrando
Sorri discretamente enquanto caminhava pelo corredor reservado da área administrativa do salão. Imaginei que Roger estivesse resolvendo algum problema relacionado ao evento. Talvez um investidor tivesse chegado de última hora, talvez algum detalhe do discurso precisasse ser alterado. Nós sempre resolvíamos essas situações juntos. Por isso continuei andando. Quanto mais me aproximava das salas de reunião, mais silencioso o ambiente ficava. O som da música da festa ia desaparecendo aos poucos, substituído pelo silêncio dos corredores luxuosos. Foi então que ouvi vozes. Parei imediatamente. Eram sussurros. Instintivamente, dei mais um passo, até reconhecer uma das vozes. Era Liara. Meu coração acelerou sem motivo aparente. — Precisamos repetir a noite de ontem muitas e muitas vezes. Meu corpo inteiro congelou. Não. Eu devia ter entendido errado. Então ouvi Roger. A voz dele. A mesma voz que tantas vezes disse que me amava. — Você é uma delícia, mas a Elara não pode descobrir. Senti minhas pernas perderem a força. Minha respiração falhou. Fiquei completamente imóvel diante da porta fechada. Liara soltou uma risada baixa. — Relaxa, ela é a mente brilhante, você é o corpo gostoso. Os dois riram. Naquele instante, alguma coisa dentro de mim simplesmente se partiu. Meus olhos começaram a arder. Uma dor violenta atravessou meu peito, como se alguém tivesse arrancado meu coração sem nenhuma piedade. Não... Aquilo não podia estar acontecendo. O homem com quem eu sonhava construir uma família. O homem que havia me pedido em casamento. Estava me traindo. Com a própria secretária. As lembranças dos últimos dias passaram diante dos meus olhos. As reuniões intermináveis. As noites em que ele dizia estar cansado, as ligações rápidas. A distância que eu tentei justificar por causa do trabalho. Tudo começou a fazer sentido. Enquanto eu planejava nosso casamento, ele passava as noites com outra mulher. Levei a mão até a boca para conter o choro. Queria abrir aquela porta. Queria olhar nos olhos dos dois. Queria perguntar por quê. Queria saber em que momento deixei de ser suficiente. Por um segundo, imaginei entrar naquela sala e arrastar Roger até o salão principal. Queria contar para todos os convidados, para os acionistas. Para os funcionários, para os pais dele. Queria acabar com aquela festa da mesma forma que eles acabaram com a minha felicidade. Mas eu não consegui. Meu corpo simplesmente não obedecia, Continuei parada. Sem forças, Sem voz. Sem conseguir acreditar no que estava ouvindo. Do outro lado da porta, os sussurros deram lugar ao som inconfundível de um beijo. Fechei os olhos. Cada segundo parecia uma eternidade, Cada ruído atravessava meu peito como uma lâmina. As lágrimas finalmente escorreram pelo meu rosto. Silenciosas. Dolorosas. Eu nunca havia sentido uma humilhação tão grande. Nunca imaginei que o homem em quem depositei toda a minha confiança fosse capaz de me destruir daquela forma. Respirei com dificuldade. Limpei o rosto rapidamente com as costas da mão, sem fazer qualquer barulho, dei um passo para trás. Depois outro. E mais um. Virei as costas para aquela porta. Cada passo pelo corredor parecia carregar um peso insuportável. Eu já não sentia o vestido elegante, nem as joias. Nem o salto que havia escolhido com tanto cuidado. Sentia apenas a dor. Uma dor sufocante, pesada, que me acompanhava como uma sentença de morte. Eu não sabia como consegui sair daquele corredor. Só lembro das minhas pernas se movendo sozinhas, como se meu corpo tivesse decidido fugir antes que minha mente compreendesse o que estava acontecendo. As lágrimas escorriam sem que eu conseguisse controlá-las. Passei novamente pelas portas que davam acesso ao salão principal. Assim que apareci, ouvi uma voz familiar. — Elara! Era o Senhor Ashford. Ele me chamou outra vez, preocupado. — Elara, espere! Eu não consegui olhar para trás. Continuei andando. Os fotógrafos, que minutos antes registravam a festa, se aproximaram rapidamente. Os flashes explodiam diante dos meus olhos. — Senhorita Elara! — Olhe para cá! — Uma foto, por favor! As luzes brancas me cegavam por alguns segundos, mas eu simplesmente continuei caminhando. Atravessei o saguão do salão, como se nada ao meu redor existisse. As pessoas me olhavam sem entender o motivo das lágrimas. Talvez imaginassem que fosse emoção, talvez pensassem que eu tivesse recebido alguma notícia importante. Ninguém fazia ideia de que, poucos minutos antes, o homem que eu amava havia destruído todos os sonhos que construí durante seis anos. Assim que deixei o salão para trás, o ar da noite atingiu meu rosto. Respirei fundo. Mas não adiantou. Cada passo parecia mais pesado que o anterior, caminhei sem destino, sem pensar. Sem saber para onde estava indo. As lágrimas quentes desciam continuamente pelo meu rosto, molhando minha maquiagem cuidadosamente feita horas antes. Lembrei do pedido de casamento, dos planos para nossa casa. Dos filhos que imaginávamos ter. Tudo desapareceu diante de uma única conversa atrás de uma porta fechada. Meu peito doía tanto que parecia impossível continuar respirando. Depois de alguns minutos caminhando sem rumo, avistei um bar sofisticado ainda aberto. Não pensei duas vezes. Entrei. O ambiente estava relativamente tranquilo. Algumas pessoas conversavam baixo enquanto uma música suave tocava ao fundo. Escolhi um banco no balcão. O barman se aproximou. — O que vai beber? Olhei para ele por alguns segundos. — A bebida mais forte que você tiver. Ele não fez perguntas. Pouco depois colocou um copo diante de mim. Virei a primeira dose de uma vez. O líquido queimou minha garganta. Mas não queimava mais do que meu coração. Empurrei o copo de volta. — Outra. A segunda veio logo em seguida. Depois a terceira, a quarta. Em algum momento, perdi completamente a noção de quantas doses havia tomado. As vozes ao meu redor começaram a se misturar. As luzes ficaram borradas. Meu pensamento já não era claro. Eu só queria esquecer. Esquecer Roger, esquecer Liara. Esquecer esse maldito noivado. Nem sei dizer se paguei a conta. Apenas me lembro de levantar do banco com dificuldade e sair cambaleando para a rua. A cidade parecia girar ao meu redor. As luzes dos prédios se misturavam umas às outras. Meu equilíbrio desaparecia a cada passo, Continuei andando. Sem direção. Sem destino. Sem me importar com mais nada. Foi então que tudo aconteceu em questão de segundos. Um clarão intenso surgiu à minha frente. Faróis. Muito próximos. Ouvi o som estridente de pneus tentando frear. Alguém gritou. Meu corpo travou. O impacto veio logo em seguida. Fui arremessada para o asfalto. Os sons desapareceram. A última coisa que vi foi uma silhueta correndo desesperadamente em minha direção. Depois... Não vi mais nada. A escuridão tomou conta de mim, e eu perdi completamente a consciência.






