Mundo ficciónIniciar sesiónSamanta
A luz do sol filtrava-se pelas cortinas de linho pesado, desenhando linhas douradas sobre o lençol de fios egípcios. Eu pisquei os olhos devagar, sentindo o peso do sono se dissipar. Por um segundo, meu cérebro tentou me convencer de que tudo não passava de uma fantasia arquitetada pela minha mente exausta, mas o leve latejar nas minhas coxas e a sensação de plenitude no meu corpo me diziam o contrário. Não foi um sonho. Eu me espreguicei, sentindo-me viva de uma forma que o telemarketing e os arquivos da repartição pública nunca permitiriam. Eu estava dolorida, mas era uma dor deliciosa, um lembrete físico de cada toque, cada beijo e cada entrega da noite anterior. O cheiro de Lorenzo ainda estava impregnado na minha pele — aquele aroma de sândalo e poder que agora parecia ser o meu oxigênio. O som de água caindo veio do banheiro anexo. Levantei-me, deixando o lençol escorregar, e caminhei descalça seguindo o barulho. A porta estava entreaberta. O vapor do chuveiro criava uma névoa densa, nublando o ambiente e, consequentemente, meus pensamentos. Através do vidro fosco do box, eu conseguia ver a silhueta dele. Lorenzo parecia uma divindade sob a água. Quando abri a porta do box, a fumaça me envolveu. Ele se virou lentamente, a água escorrendo pelos seus músculos definidos e pelo rosto de traços duros que, naquele momento, suavizou-se em um olhar carregado de um desejo renovado. Não houve palavras. Eu apenas entrei, permitindo que a água quente batesse nas minhas costas enquanto eu enlaçava seu pescoço. O beijo foi urgente, movido por uma química que parecia desafiar as leis da física. Ali, entre o vapor e o som da água, transamos novamente como se estivéssemos tentando nos afogar um no outro antes que o mundo voltasse a existir, como se quiséssemos selar o que aconteceu na cama. Naquele momento, eu me senti invencível. Senti que, talvez, a vida estivesse finalmente me dando um descanso da luta diária. A queda livre começou dez minutos depois. Saímos do banheiro e comecei a me vestir. Eu tentava prender o cabelo, sorrindo para o reflexo no espelho, esperando algum comentário carinhoso, um "bom dia" ou até um plano para o café. Mas o silêncio no quarto tornou-se pesado. Quando olhei para Lorenzo, ele estava parado perto da janela, vestindo a calça do terno. Sua expressão não era mais a do homem que me apertava contra o box. Era o "Iceberg". Ele se aproximou com uma frieza que me fez dar um passo atrás. Seus olhos castanhos, antes quentes, agora eram dois pedaços de vidro escuro. — Quanto custou, Samanta? — A pergunta saiu de sua boca de forma casual, como se estivesse perguntando as horas. O mundo parou. Eu senti o sangue fugir do meu rosto. E o silencio que seguiu foi ensurdecedor. — O quê? — Minha voz mal passava de um sussurro. — A sua noite. O seu tempo. Qual o seu preço? — Ele estendeu a mão para a carteira sobre a cômoda, tirando um maço de notas e um cartão. — Prefiro deixar tudo resolvido antes que alguém crie expectativas. Você é boa, Samanta. Muito boa. Quase me convenceu de que havia algo mais por trás desses seus olhos de âmbar além de uma estratégia de venda. A humilhação foi um soco no estômago. A dor física da noite anterior foi substituída por uma laceração na alma. Ele não me via como a estudante que discutia tecnologia; ele me via como uma meretriz. Como alguém que estava ali por um depósito bancário. Minha mão agiu antes que eu pudesse processar. O estalo do tapa que dei em seu rosto ecoou pelo quarto silencioso. Meus dedos formigaram. Vi o choque atravessar o rosto dele por um segundo. Mas desapareceu rápido demais. A dor subiu pelo meu braço em ondas, mas não chegava perto do que queimava dentro do meu peito. — Eu não estou à venda — sibiliei, as lágrimas lutando para escapar, mas eu me recusei a deixá-las cair na frente dele. — Você é um monstro, Lorenzo. Peguei meus saltos agulha no chão, sem me importar em calçá-los. Saí do quarto o mais rápido que minhas pernas permitiram, fugindo daquele luxo que agora cheirava a lixo. Quando apareci na sala da cobertura, o contraste foi cruel. Anna estava sentada no sofá, rindo de algo que Matteo dizia. Eles pareciam estar em um comercial de felicidade. Mas, no momento em que Anna me viu — descalça, descabelada e com os olhos brilhando de ódio e dor — sua expressão mudou instantaneamente para o puro pânico. — Temos que ir. Agora — eu disse, minha voz saindo rouca. Anna não perguntou nada. Ela se levantou em um salto, despedindo-se de Matteo com uma rapidez impressionante, deixando seu telefone anotado em um guardanapo, e me seguiu para fora. Só paramos quando estávamos na calçada da avenida principal. O sol de domingo era forte, e o asfalto sob meus pés descalços queimava, mas eu não sentia nada. Anna fez sinal para um táxi e deu o endereço do meu apartamento. O trajeto foi um borrão de prédios cinzas e silêncio sufocante. Assim que entramos no meu apartamento, o mofo e a simplicidade do lugar pareceram me acolher, gritando que aqui era o meu lugar, não naquelas coberturas de cristal. Eu desabei no sofá velho e contei tudo. Cada palavra. Cada nota de dinheiro que ele tentou me dar. Anna ficou possessa. — Aquele filho da puta! — ela gritava, andando de um lado para o outro. — Como ele ousa? Ele é um rico babaca que acha que o mundo é um shopping center e as pessoas são produtos nas prateleiras! — Eu só quero esquecer, Anna — eu solucei, finalmente deixando as lágrimas caírem. — Eu me senti... eu me senti inteligente com ele. Achei que ele tinha visto. Mas ele só viu um corpo com preço de etiqueta. Anna se sentou ao meu lado e me puxou para um abraço apertado. — Vai ficar tudo bem. Ele não te merece. Ele é lixo vestido de grife. Amanhã é segunda-feira, vida nova. Esquece esse infeliz. Passei o domingo inteiro naquela penumbra, chorando até não ter mais forças. Eu me sentia suja, não pelo sexo, mas pela forma como fui descartada. Eu era Samanta, a filha que dava orgulho para Antônio e Fátima, e me permiti ser tratada como mercadoria. A segunda-feira chegou com a crueldade da rotina. Fui para o estágio pela manhã e para o telemarketing à tarde agindo como um robô. Eu falava com os clientes, anotava protocolos e organizava arquivos sem processar uma única informação. Minha mente era um loop eterno daquele tapa e da voz dele perguntando meu preço. À noite, na faculdade, encontrei Emma no pátio. Eu não precisei dizer muito; ela me conhecia o suficiente para saber que meu brilho tinha se apagado. Ela passou o intervalo inteiro me consolando, segurando minha mão enquanto eu tentava não ter um ataque de pânico no meio do campus. — Ele vai ter o dele, Sam — Emma prometeu, com aquele fogo característico dela. — O universo não deixa dívidas assim sem cobrança. Ao final da aula de Economia, o Professor Carvalho pediu que Emma e eu esperássemos. Ele era um homem sério, mas que sempre demonstrou respeito pelo meu empenho. — Meninas, recebi um comunicado hoje — ele disse, ajeitando os óculos. — Uma empresa de tecnologia super reconhecida, a maior do país, abriu algumas vagas de estágio avançado e trainee para a área comercial e administrativa. Eles pediram indicações dos melhores alunos. Ele nos entregou dois formulários com um logotipo elegante no topo. — Façam o teste. O processo seletivo é rigoroso, mas vocês têm o perfil. É uma oportunidade de ouro para mudar de patamar. Eu olhei para o papel. Era um sinal. Tinha que ser. Olhei para Emma, que sorria para mim com esperança. — Viu só? — ela sussurrou. — Nova fase. O lixo ficou no fim de semana, Samanta. O futuro começa agora. Eu respirei fundo, sentindo um pingo de força retornar ao meu peito. Eu ia conseguir aquele emprego. Eu ia mostrar para o mundo — e para mim mesma — que meu intelecto valia muito mais do que qualquer maço de notas na cabeceira de um bilionário.






