CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 4 — CELESTE

Eu deveria estar dormindo.

Mas, como quase tudo na minha vida ultimamente, isso também não acontece como deveria.

Estou deitada na cama, olhando para o teto, com uma das mãos apoiada na barriga, sentindo o movimento leve e constante que nunca me deixa realmente sozinha. O quarto está em silêncio, exceto pelo som distante do mar e o barulho ocasional de algum carro passando na rua à tarde. Ou cedo demais eu já nem sei mais.

O que eu sei é que minha cabeça não para. e, dessa vez… não é só por causa do bebê.

Fecho os olhos, tentando forçar o descanso, mas a imagem vem sem pedir permissão.

Os olhos verdes dele o jeito como ele me olhou não como homem.

Não como estranho. Mas como alguém que estava… prestando atenção.

De verdade. Eu solto o ar devagar, abrindo os olhos de novo.

— Não — murmuro para mim mesma, quase como um aviso. — Nem começa.

Mas já começou. E é exatamente isso que me assusta.

Porque eu sei onde isso leva eu já estive lá antes. E eu nunca mais quero voltar.

Viro o corpo de lado com cuidado, ajustando o travesseiro enquanto sinto um leve desconforto nas costas, tentando encontrar uma posição que funcione. Minha mão desliza automaticamente pela barriga, como sempre faz quando eu preciso me ancorar em alguma coisa real. Isso aqui é real o aqui importa.Todo o resto… não.

Mas a memória não obedece. Ela nunca obedece.

E, antes que eu consiga impedir, eu estou lá de novo.

Eu tinha vinte e dois anos idiota o suficiente para acreditar em tudo.

Inocente o suficiente para não perceber os sinais.

E apaixonada o suficiente para ignorar qualquer coisa que não combinasse com a versão que eu tinha criado na minha cabeça.

O nome dele era Daniel. E, por um tempo… ele foi tudo.

Eu lembro do jeito que ele sorria, como se o mundo inteiro fosse leve demais para ele levar a sério. Lembro da facilidade com que ele entrava na minha vida, como se sempre tivesse pertencido ali. Lembro da forma como ele me fazia sentir vista, importante… diferente.

Especial.

É engraçado como essa palavra perde o significado depois de um tempo.

Porque, no começo, ele realmente parecia diferente.

Atencioso presente carinhoso. Ele me ouvia ou pelo menos eu achava que ouvia.

As coisas mudaram devagar.

Tão devagar que eu nem percebi quando começou.

Primeiro foram pequenas ausências mensagens demoradas.

Desculpas fáceis depois vieram os cancelamentos.

As promessas que não eram cumpridas mas sempre tinha uma explicação.

Sempre tinha um motivo e eu… eu sempre aceitava.

Porque era mais fácil acreditar nele do que encarar a possibilidade de que eu estava errada.

Que eu tinha escolhido errado que eu não era tão importante quanto pensava.

Quando eu descobri que estava grávida, eu achei que tudo ia mudar.

Que aquilo ia trazer ele de volta.

Que, de alguma forma, aquilo ia fazer com que ele enxergasse o que a gente tinha.

O que eu senti naquele dia… eu nunca vou esquecer. Medo.

Sim.

Mas também… esperança uma esperança absurda, talvez. Mas ainda assim real.

Eu contei para ele no mesmo dia. E nunca vou esquecer a expressão no rosto dele.

Não foi alegria não foi surpresa boa foi… incômodo.

Como se eu tivesse acabado de complicar alguma coisa que estava funcionando perfeitamente bem para ele.

— Você tem certeza? Essa foi a primeira coisa que ele disse.

Não “como você está”. Não “a gente vai dar um jeito”.

Nada disso só aquilo eu deveria ter entendido ali.

Deveria ter visto mas eu não vi.

Ou não quis ver. Os dias seguintes foram um borrão. Conversas que não levavam a lugar nenhum.

Silêncios desconfortáveis à distância. Até que, um dia… ele simplesmente foi embora.

Sem briga, sem explicação. Sem nada. Só… desapareceu.

Como se nunca tivesse existido.

Eu liguei, mandei mensagem, procurei nada e foi aí que caiu tudo.

De uma vez só. Eu não era especial ,não era prioridade. Eu era… conveniente.

Até deixar de ser.

E, de repente, eu estava sozinha.

Grávida.

Com medo.

E sem ninguém para dividir aquilo.

Eu lembro de sentar no chão do meu apartamento naquele dia, encostada na parede, com o telefone na mão e o silêncio sendo alto demais.

Eu lembro de chorar.

Muito.

Mas não só por ele chorei por mim pela pessoa que eu tinha sido.

Pela forma como eu tinha acreditado.

Pela forma como eu tinha me entregado sem nem perceber o risco.

E foi ali que eu fiz uma escolha.

Uma escolha que, na época, pareceu a única possível.

Eu não ia sentir aquilo de novo.

Nunca mais.

Abro os olhos de novo, sentindo o peso da memória ainda presente, como se tivesse acabado de acontecer.

Mas não acabou.

Já faz meses. E, mesmo assim… ainda está aqui.

Ainda marca. Passo a mão pelo rosto, respirando fundo, tentando voltar para o presente.

Para agora para o que realmente importa.

Meu olhar desce para a barriga, e, como se respondesse ao meu pensamento, o bebê se mexe. Forte presente real.

Um pequeno sorriso surge, quase automático.

— Você ficou, né? — murmuro.

E isso… isso muda tudo.

Porque, apesar de tudo, eu não estou sozinha. Não de verdade.

E isso é o suficiente tem que ser.

Mas então… ele aparece na minha cabeça de novo.

Ben. O jeito como ele falou como ele olhou. Como ele… ficou.

E isso é diferente perigoso de um jeito diferente.

Porque ele não parece alguém que vai simplesmente desaparecer.

E talvez seja exatamente isso que me assusta mais.

Eu me viro de lado novamente, puxando o lençol, tentando afastar o pensamento.

Tentando voltar para o controle.

— Não — digo, mais firme dessa vez. — Você não precisa disso.

E não preciso eu sei disso minha vida já está cheia.

Já está complicada o suficiente eu tenho um filho a caminho.

Um trabalho responsabilidades eu não tenho espaço para sentimentos.

Muito menos para alguém que pode bagunçar tudo de novo.

Fecho os olhos, dessa vez com mais força.

Forçando o sono o silêncio a distância  mas, lá no fundo eu sei.

Sei que alguma coisa já começou e que, por mais que eu tente evitar não vai ser tão simples parar.

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