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Capítulo 5 — Eu Nunca Aprendi a Escutá-la

Uma hora depois, Noemi finalmente conseguiu convencer Beatrice a entrar. Ou, pelo menos, foi isso que Carlo pensou ao ouvir os passos se aproximando da porta principal. 

Ele estava na sala de estar, revisando documentos que não conseguia ler de verdade, as palavras dançavam diante de seus olhos enquanto sua mente continuava presa no jardim, naquele sorriso minúsculo, na frase da governanta.

Quando as duas atravessaram o hall de entrada, Carlo levantou os olhos e sentiu algo entre a exasperação e o assombro. Noemi carregava a coroa torta sobre os cachos revoltos, que agora estavam salpicados de pequenas folhas verdes. Beatrice não estava muito melhor, tinha lama nos sapatos, uma mancha de terra na barra do vestido azul e uma pena de algum pássaro desconhecido presa nos fios escuros de cabelo.

Carlo fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Quando os abriu novamente, sua voz saiu controlada, mas com um tom que beirava o cansaço.

— Senhorita Noemi...

Ela sorriu, e havia um brilho travesso em seus olhos escuros.

— Bom dia, chefe. Dormiu bem? Eu dormi otimamente, obrigada por perguntar. O colchão do quarto de hóspedes é divino.

— Por que minha filha está coberta de terra?

Noemi olhou para Beatrice com uma expressão de falsa indignação, como se a resposta fosse óbvia demais para precisar ser enunciada. Depois voltou os olhos para Carlo, dando de ombros.

— Porque dragões gostam de lama. Todos sabem disso. Está nos livros.

— Dragões não existem.

Ela apoiou a espada de espuma no ombro, inclinando a cabeça com uma expressão de quem estava prestes a dar uma notícia terrível.

— O senhor acabou de destruir uma excelente investigação científica. A revista Natureza Selvagem vai rejeitar nosso artigo por sua culpa.

Beatrice, que estava ao lado de Noemi, desviou rapidamente os olhos para o pai. Foi um olhar breve, quase furtivo, como se ela estivesse testando sua reação. Depois voltou a olhar para Noemi. E os cantinhos de sua boca tremeram outra vez, aquele mesmo movimento quase imperceptível que Carlo havia testemunhado no jardim.

Seus olhos capturaram o movimento, ela estava tentando esconder outro sorriso. Carlo percebeu. E pela primeira vez em muito tempo, ele não se importou com a sujeira no piso de mármore. 

Não se importou com as folhas caindo dos cabelos. Não se importou com a mancha de grama que Beatrice estava deixando no tapete persa.

Ela quase sorriu.

Para ele. Na presença dele.

Era mais do que ele havia conseguido em quatro anos.

***

Mais tarde, depois do almoço, Noemi levou Beatrice ao quarto para tomar banho e trocar de roupa. A menina estava exausta, os olhos azuis ligeiramente pesados depois de uma manhã inteira de aventuras. 

Enquanto Noemi a ajudava a vestir uma camiseta limpa, percebeu algo: Beatrice puxava repetidamente a gola do tecido. Uma vez. Duas. Três. Seus dedos voltavam ao mesmo ponto, cutucando a costura interna como se aquilo a estivesse incomodando profundamente.

Noemi se ajoelhou diante dela, aproximando-se com cuidado.

— Essa etiqueta está incomodando você, não está, princesa?

Beatrice não respondeu, mas seus dedos voltaram a puxar o tecido com uma insistência que dispensava palavras. Seus olhos estavam fixos em algum ponto distante, a mandíbula levemente tensa.

Noemi se levantou e chamou uma das funcionárias que passava pelo corredor.

— Tem outra camiseta igual a essa? Do mesmo tecido, mas sem etiqueta.

A moça assentiu prontamente.

— Temos, sim, senhorita. A senhora Bianca mandou fazer algumas peças adaptadas antes de... — Ela se interrompeu, os olhos se enchendo de uma tristeza antiga.

Noemi apenas acenou com a cabeça, compreendendo.

Minutos depois, a camiseta foi trocada. O novo modelo era idêntico em cor e tecido, mas a costura interna era selada, sem etiquetas ou relevos que pudessem irritar a pele sensível. Instantaneamente, Beatrice relaxou os ombros. A tensão em sua mandíbula desapareceu, e seus dedos pararam de cutucar o tecido. 

Ela soltou um pequeno suspiro — quase inaudível — e voltou a brincar com Roberto, o dinossauro de pelúcia.

Carlo observava tudo da porta, os braços cruzados sobre o peito. Ele havia chegado silenciosamente, atraído pelo som da conversa. Seu olhar ia da filha para Noemi, de Noemi para a filha, tentando entender o que havia acontecido.

Esperou a funcionária sair do quarto antes de falar.

— Como você percebeu?

Sua voz estava mais baixa do que o normal, carregada de algo que não era exatamente curiosidade. Era quase vulnerabilidade, um tom que Carlo Dalmonte provavelmente nunca havia usado antes.

Noemi fechou a gaveta do armário e alisou a barra da blusa. Quando se virou, seus olhos escuros encontraram os dele sem hesitação.

— Ela estava me contando.

Ele franziu a testa, as sobrancelhas marcadas se juntando em uma linha de confusão.

— Ela não disse uma palavra.

Noemi sorriu de lado, aquele mesmo sorriso torto que parecia carregar uma sabedoria que ia além de sua idade. Seus lábios carnudos se curvaram com uma suavidade que contrastava com o peso de suas palavras.

— Nem tudo é falado, Carlo. Às vezes, a gente só precisa prestar atenção.

Ela passou por ele e saiu do quarto.

Carlo permaneceu parado no vão da porta, imóvel como uma estátua de mármore. Seus olhos claros encontraram a pequena figura de Beatrice, sentada no tapete felpudo do quarto. Ela fazia Roberto pular sobre algo imaginário, movendo os lábios em uma história silenciosa que ninguém mais podia ouvir. 

A luz da tarde entrava pela janela e iluminava seus cabelos escuros, as bochechas rosadas, as mãos minúsculas que seguravam o brinquedo com tanto cuidado.

Pela primeira vez em quatro anos, Carlo Dalmonte percebeu algo que partiu seu coração em pedaços silenciosos.

Talvez ela tivesse tentado falar com ele inúmeras vezes.

Com o choro. Com o silêncio. Com as mãos sobre os ouvidos. Com as costas viradas. Com aqueles olhos azuis que tanto lembravam os seus, mas que ele nunca havia realmente olhado.

Ela vinha tentando. E ele simplesmente nunca aprendera a escutar. Naquele momento, Carlo Dalmonte desejou desesperadamente poder voltar no tempo.

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