Mundo de ficçãoIniciar sessãoBeatrice continuava segurando a barra do meu casaco.
Apenas segurava, como se aquele pedaço de tecido barato fosse a única coisa estável em seu pequeno universo. Seus dedos minúsculos estavam enrolados na costura, e seus olhos azuis — tão vibrantes que doíam — não se desviavam do meu rosto.
Olhei para Carlo.
Depois para a menina.
Depois de volta para Carlo.
— Acho que sua filha sequestrou minha roupa.
Ele não respondeu. A expressão em seu rosto continuava sendo algo entre o choque e a completa incapacidade de processar o que estava acontecendo. As tatuagens escuras em seu pescoço se moviam levemente a cada respiração contida.
Tentei dar um pequeno passo para trás, apenas para testar os limites daquela interação. Beatrice não soltou. Muito pelo contrário, seus dedinhos apertaram ainda mais o tecido, e uma pequena ruga de determinação se formou entre suas sobrancelhas claras.
Meu coração, que já estava em frangalhos, simplesmente amoleceu de vez.
Ajoelhei novamente, desta vez mais perto, mas ainda mantendo uma distância respeitosa. Não queria assustá-la. Não queria invadir o espaço que ela tão cuidadosamente protegia.
— Oi, princesa...
Minha voz saiu como um sussurro.
— Você quer que eu fique?
Nenhuma resposta verbal. Nenhum aceno de cabeça. Mas seus dedos continuaram firmes no meu casaco, e seu corpo, antes encolhido e tenso, agora parecia ligeiramente mais relaxado. Seus ombros minúsculos haviam descido alguns centímetros.
Sorri de leve, sentindo um carinho imenso brotar em algum lugar profundo do meu peito.
— Vou considerar isso um "sim".
Levantei os olhos para Carlo. Ele ainda estava parado na moldura da porta, os braços caídos ao lado do corpo, o maxilar contraído. Não era a postura de um homem irritado. Era a postura de alguém completamente perdido, um pai assistindo a uma cena impossível.
A governanta, uma senhora de cabelos curtos e prateados que eu ainda não havia notado, limpou discretamente o canto dos olhos com a ponta dos dedos. Suas feições suaves carregavam as marcas de quem já havia visto muitas coisas naquela casa, mas aquilo, aparentemente, era novo até para ela.
— Senhor... — Sua voz saiu embargada, quase um sopro.
Carlo nem se virou para olhá-la. Seus olhos continuavam fixos na pequena mão que segurava meu casaco.
— O quê?
A governanta pigarreou, recompondo-se antes de continuar.
— Faz... muito tempo que a senhorita Beatrice não procura ninguém.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer palavra. Carlo permaneceu imóvel, mas algo em seus olhos claros se alterou quase imperceptivelmente, um brilho que durou uma fração de segundo antes de ser engolido pela máscara de controle que ele usava tão bem.
Desviei meu olhar para Beatrice. Ela havia começado a brincar distraidamente com o tecido do meu casaco, esfregando a ponta entre o polegar e o indicador como se estivesse testando a textura. Não chorava mais. Não tampava os ouvidos. Seus olhos, antes apertados de angústia, estavam relaxados. Seu peito subia e descia em um ritmo calmo, como ondas mansas batendo na praia.
Carlo passou a mão pelo rosto, os dedos pressionando brevemente as pálpebras antes de deslizar pela barba curta. Parecia cansado, um cansaço que ia além do físico, enraizado em meses ou talvez anos de noites sem dormir.
— Há quanto tempo ela está assim? — A pergunta saiu mais baixa do que sua voz habitual, como se ele temesse a resposta.
Foi a governanta quem respondeu, sua voz carregada de uma tristeza antiga.
— Desde... desde que a senhora Bianca faleceu.
Meu sorriso desapareceu instantaneamente. Senti um aperto no peito, uma compreensão súbita que fez cada peça se encaixar no lugar. A ausência da mãe. O choro desesperado. O silêncio absoluto depois. Aquela menina de apenas quatro anos já carregava uma dor que muitas pessoas não carregariam em uma vida inteira.
Olhei novamente para Beatrice. Tão pequena. Tão frágil. E ainda assim, com uma força que eu mal conseguia compreender.
Carlo respirou fundo, o som preenchendo o corredor silencioso. Quando falou novamente, sua voz havia recuperado o tom pragmático, embora algo diferente — algo que eu não conseguia nomear — ainda pairasse no ar.
— Quanto pretende receber?
Pisquei, levando um segundo para processar a mudança brusca de assunto.
— Isso foi uma proposta de emprego?
— Não abuse da sorte, senhorita. — Sua mandíbula se contraiu novamente, mas havia algo no canto de seus lábios que parecia quase um esboço de expressão. Quase.
Sorri, incapaz de conter o alívio que se espalhava pelo meu corpo.
— Eu gostei mais dessa versão.
Ele ignorou completamente meu comentário, seus olhos azuis me avaliando com uma intensidade desconfortável.
— Aceita ou não?
Meu olhar desceu mais uma vez para Beatrice. Ela ainda segurava meu casaco, mas agora sua testa estava apoiada de leve no meu braço, como se estivesse testando até onde podia chegar. A confiança silenciosa de uma criança que não sabia pedir, mas sabia exatamente o que queria.
Respirei fundo, sentindo o peso da decisão se acomodar nos meus ombros.
— Aceito.
— Ótimo. — Ele virou as costas, o tecido do blazer preto se ajustando perfeitamente aos seus ombros largos enquanto ele começava a caminhar pelo corredor. — Começa hoje.
Arregalei os olhos, dando um passo involuntário para frente.
— Hoje?
Ele continuou andando, a sola de seus sapatos caros ecoando no mármore polido.
— Algum problema?
— Sim. — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Eu tenho roupas.
Silêncio. Ele não parou de andar.
— Escova de dentes.
Mais silêncio. Seus passos não diminuíram.
— Shampoo.
Desta vez, Carlo parou. Virou apenas o suficiente para me lançar um olhar por cima do ombro, o colar dourado brilhando contra o preto da camisa social.
— Compre outros.
Cruzei os braços sobre o peito, sentindo uma indignação que superava qualquer medo que eu pudesse ter daquele homem.
— O senhor resolve tudo com dinheiro?
— Quase tudo. — A resposta veio rápida, direta, sem hesitação.
— Então tá explicado por que ainda não conquistou sua filha.
O corredor inteiro congelou. O segurança que estava próximo prendeu a respiração. A governanta levou a mão ao peito. As outras duas funcionárias trocaram olhares de puro terror.
“Meu Deus. Eu falei. Eu realmente falei.”
Carlo virou lentamente, seus olhos claros encontraram os meus com uma intensidade que fez meu estômago se contrair. Por um longo e agonizante segundo, eu tive absoluta certeza de que aqueles seriam meus últimos momentos sobre a face da Terra.
Mas ele apenas inclinou a cabeça, a barba curta acompanhando o movimento do maxilar.
— A senhorita fala demais.
Meu sorriso retornou, trêmulo, mas genuíno.
— E o senhor escuta de menos.
Ele ficou me encarando por alguns segundos intermináveis. Algo passou por seus olhos, rápido demais para ser identificado, mas intenso o suficiente para me deixar inquieta. Depois, sem dizer mais nada, virou novamente e retomou seu caminho pelo corredor.
— Preparem um quarto para ela.
E desapareceu na esquina, engolido pelas sombras da mansão.
Assim que seus passos se perderam ao longe, uma das empregadas soltou uma respiração tão profunda que parecia estar segurando o ar desde o momento em que Carlo havia entrado no quarto. A mulher mais alta apoiou-se na parede, claramente aliviada por ainda estar viva.
A governanta aproximou-se de mim, seus olhos expressivos brilhando com algo que eu ainda não sabia nomear. As marcas de expressão ao redor de seus lábios se aprofundaram quando ela sorriu, um gesto cansado, porém acolhedor.
— Senhorita...
— Sim?
Ela pousou a mão enrugada no meu ombro, e seu toque era surpreendentemente quente.
— Bem-vinda à família Dalmonte.
Olhei para Beatrice. A menina finalmente havia soltado meu casaco, seus dedos se desenroscando lentamente do tecido como se tivessem cumprido sua missão. Mas, antes que eu pudesse formular qualquer resposta, antes que eu pudesse processar completamente o que havia acabado de acontecer...
Ela pegou minha mão.
Seus dedos pequenos e quentes deslizaram sobre minha palma com uma delicadeza que partiu meu coração em mil pedaços. Foi um toque hesitante, quase uma pergunta silenciosa. Como se ela estivesse perguntando, sem usar uma única palavra:
"Você fica?"
Fechei delicadamente os dedos ao redor da mãozinha dela, sentindo a textura macia de sua pele contra a minha. Meus olhos arderam, mas eu não deixaria as lágrimas caírem.
— Eu fico, princesa.
Minha voz saiu firme, uma promessa selada no silêncio do corredor.
“Enquanto ela precisar de mim… eu fico.”







