Mundo de ficçãoIniciar sessãoA voz grave fez o quarto inteiro silenciar.
As duas funcionárias abaixaram a cabeça imediatamente. Os ombros se curvaram, os olhos se fixaram no chão, a postura de quem conhecia bem as consequências de estar no lugar errado, na hora errada.
Eu, não.
Respirei fundo antes de me levantar, sentindo o tapete afundar sob meus joelhos. O tecido da minha saia lápis havia amassado, mas aquilo era a menor das minhas preocupações. Virei-me lentamente, e meus olhos encontraram o homem que ocupava toda a moldura da porta.
Alto. Terno escuro impecável, cortado sob medida para ombros largos demais. Maxilar tão definido que parecia ter sido esculpido por alguém com muito tempo livre e nenhuma piedade. Os olhos, azuis acinzentados, me atravessavam como se eu fosse um problema a ser resolvido. Sua barba curta e bem aparada acompanhava a linha da mandíbula, e no pescoço, tatuagens escuras subiam até quase tocar o colarinho da camisa preta.
Então esse era Carlo Dalmonte.
Bonito.
Infelizmente.
— Eu fiz uma pergunta.
Sua voz desceu mais um tom, gelada o suficiente para congelar o sangue de qualquer pessoa com um mínimo de instinto de sobrevivência. A mão esquerda — tatuada nos nós dos dedos e com o que parecia ser uma rosa-dos-ventos gravada no dorso — descansava ao lado do corpo, mas os músculos do antebraço estavam tensos sob o tecido do blazer.
Engoli em seco, mas mantive a coluna reta.
— E eu ouvi.
Um dos seguranças, postado estrategicamente no corredor, soltou uma tossida discreta. Provavelmente porque ninguém — ninguém mesmo — respondia daquele jeito ao chefe. Pelo menos não quem pretendia continuar respirando.
Carlo inclinou a cabeça ligeiramente, como se estivesse avaliando uma criatura exótica que nunca tinha encontrado antes. Suas sobrancelhas marcadas se contraíram.
— A senhorita entrou no quarto da minha filha sem permissão.
Cruzei os braços sobre o peito, um escudo improvisado contra a intensidade daquele homem.
— Ouvi uma criança chorando.
— Isso não responde à minha pergunta.
— Responde, sim. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava, o que me deu coragem para continuar. — O senhor fez uma pergunta sobre autorização. Eu respondi com a razão pela qual entrei. Está tudo conectado.
Os olhos claros se estreitaram perigosamente. O maxilar dele se contraiu, o músculo saltando sob a barba bem cuidada.
— Eu não pedi que a senhorita interferisse.
— Também não vi ninguém conseguindo ajudá-la.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
As funcionárias pareciam estátuas de sal, incapazes até de respirar. O segurança no corredor havia virado o rosto, mas seus ombros tremiam quase imperceptivelmente. Eu provavelmente já estava demitida de um emprego para o qual nem tinha sido contratada ainda. Um recorde pessoal.
Carlo deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós. O aroma de seu perfume — amadeirado, com notas de couro e algo escuro que não soube nomear — preencheu o ar ao meu redor. Ele era alto o suficiente para que eu precisasse erguer o queixo para continuar encarando-o.
— Nesta casa, quem dá as ordens sou eu.
O canto da minha boca se ergueu antes que o medo pudesse detê-lo.
— Que coincidência...
A sobrancelha arqueada subiu mais um milímetro.
— Na minha cabeça também.
Foi a vez de o segurança fungar de forma suspeita. Agora eu tinha certeza absoluta de que ele estava escondendo uma risada. O olhar de Carlo, porém, não se desviou de mim. Continha algo que eu não conseguia decifrar, não era exatamente raiva, mas estava longe de ser aprovação.
— A senhorita é sempre assim?
— Depende.
— Do quê?
— Da quantidade de gente mandando em mim.
Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo sob o terno escuro. Os lábios carnudos se pressionaram em uma linha fina enquanto ele claramente reunia o que restava de sua paciência.
— A entrevista acabou.
As palavras caíram como uma sentença. Simples. Definitivas. Sem espaço para recurso.
Meu coração deu uma pontada — quatro dias para o vencimento do aluguel, a conta bancária no vermelho, as contas se acumulando na mesa da cozinha do meu apartamento minúsculo — mas meus olhos se voltaram para Beatrice antes que eu pudesse lamentar minha língua afiada.
A menina continuava sentada no chão, no mesmo lugar onde a encontrei. Mas não chorava mais. Seus olhos grandes, de um azul tão vibrante que mais pareciam duas contas de vidro iluminadas por dentro, estavam fixos em mim. As bochechas rosadas ainda brilhavam com as lágrimas recentes, mas suas mãos haviam descido dos ouvidos. Descansavam agora no colo, pequenas e imóveis.
Ela não olhava para o pai.
Olhava para mim.
Aquilo apertou meu peito de um jeito que doeu fisicamente. Algo naquele olhar infantil carregava um peso que nenhuma criança de quatro anos deveria conhecer.
Peguei minha bolsa do chão, meus dedos encontrando a alça de couro sintético com a familiaridade de quem não tinha nada além disso para se agarrar.
— Tudo bem.
Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria, mas mantive o queixo erguido enquanto passava por Carlo. Seu corpo ocupava quase todo o vão da porta, e precisei me espremer para não roçar nele. Senti o calor que emanava de sua pele — ou talvez fosse apenas a vergonha queimando a minha.
Parei no corredor, virando o rosto apenas o suficiente para que ele pudesse ouvir.
— Boa sorte.
Carlo franziu a testa, as linhas de expressão se aprofundando entre as sobrancelhas.
— Boa sorte?
Meu olhar deslizou mais uma vez para a menina no tapete. Aqueles olhos azuis ainda me acompanhavam. Imploravam silenciosamente por algo que talvez nem ela soubesse nomear.
— O senhor vai precisar.
Comecei a caminhar pelo corredor de mármore, meus saltos ecoando no silêncio. Cada passo me afastava da pequena Beatrice, do olhar confuso de Carlo, do cheiro de dinheiro e perigo que impregnava cada centímetro daquela mansão. Tudo bem. Eu encontraria outra coisa. Venderia miojo gourmet de verdade, se fosse preciso. Já tinha sobrevivido a coisas piores.
Foi então que senti.
Um leve puxão na barra do meu casaco, tão sutil que quase pensei ter imaginado. Olhei para baixo.
Beatrice.
A menina havia se levantado sem fazer um único som e me alcançado no corredor. Sua mãozinha minúscula estava enrolada no tecido do meu casaco, os dedos pequenos apertando com uma força desproporcional ao seu tamanho. Ela não dizia nada — não emitia um único som —, mas aqueles olhos azuis gritavam mais do que qualquer palavra poderia expressar.
"Não vai."
Meu coração pareceu inflar e se despedaçar ao mesmo tempo. Senti um nó se formar na garganta, meus olhos arderem com a ameaça de lágrimas que eu não podia deixar cair.
Levantei o olhar.
Carlo estava parado na porta do quarto, imóvel como uma estátua. Seu rosto, antes duro e impassível, agora carregava algo que eu não esperava encontrar ali. Choque. Confusão. E, no fundo daqueles olhos claros, um vislumbre de algo que parecia perigosamente com esperança — ou medo. Talvez os dois.
A menina continuava agarrada a mim como se eu fosse o único ponto de equilíbrio em seu pequeno mundo tempestuoso. E pela expressão no rosto do mafioso mais temido da Itália...
Isso nunca tinha acontecido antes.







