Cap. 4

Cap. 4

O caminho de volta foi um cortejo fúnebre sem corpo.

Os cavalos avançavam em passo rítmico, mas pesado, como se carregassem o peso do que todos tinham testemunhado.

Nenhum murmúrio, nenhum olhar trocado. O silêncio era espesso, carregado de medo e incredulidade.

Na frente, o Alfa Kaelon cavalgava com a rigidez de uma estátua, seu olhar fixo à frente como se pudesse incinerar o horizonte.

Fael vinha atrás, sentindo o estômago embrulhado. Perguntas se chocavam dentro dele, cada uma mais urgente e perigosa que a outra.

Pouco antes do portão do palácio, Kaelon ergueu um punho fechado. A comitiva parou em uníssono.

Ele não se virou. Sua voz, baixa, mas cortante, carregou-se até o último homem.

— O que aconteceu hoje na floresta morre aqui. Não houve intrusão. Nenhuma flecha foi baixada. Nenhum nome foi dito. Esqueçam, esse acontecimento foi apenas uma afronta aos alfas.

Um dos capitães mais velhos, de coragem temperada em batalha, ousou questionar.

— Mas, Alfa, a violação da Floresta Real é um crime grave. O protocolo exige...

— O protocolo — a voz de Kaelon o interrompeu, gelada e final — é o que eu digo que é. Se um único rumor sobre isso chegar aos ouvidos da Luna, a destabilização será imediata. Vocês estão prontos para uma guerra de sucessão? Para ver a matilha se despedaçar enquanto meu filho ainda não está pronto para governar? A matilha leste precisa de estabilidade, e para isso, esse lado tem que estar estável.

Seu olhar varreu a comitiva, um de cada vez. Ninguém sustentou o seu olhar por mais de um segundo. Todos baixaram a cabeça em assentimento mudo. Fael sentiu a boca seca.

No palácio, Kaelon desmontou com um movimento fluido e impessoal.

Suas botas ecoaram nos corredores de pedra com uma cadência implacável. Ignorou todos os cumprimentos, passou pela Luna sem um aceno, e seguiu direto para seu escritório.

— Pai — Fael chamou, sua voz soando frágil no corredor amplo. — Preciso falar com o senhor.

Kaelon parou, mas não olhou para trás.

— Entre.

Fael seguiu-o, o coração batendo forte nas têmporas. A porta do escritório fechou-se atrás deles com um clique definitivo.

A sala era um reflexo do alfa, escura, funcional, cheia de armas e livros de estratégia. Kaelon foi direto à sua poltrona atrás da grande mesa de carvalho, sentando-se. Não ofereceu um assento a Fael.

— Fale.

Fael ficou em pé, sentindo-se exposto.

— O que aconteceu lá… com a Lirah. Foi real? É aquilo mesmo?

Kaelon não pestanejou.

— Foi.

A simplicidade da confirmação foi um golpe no plexo solar.

— Aquela ômega… a filha do Beta Aron? A Lirah? Como assim ela é filha do beta? É verdade tudo aquilo?

— Sim, a mesma que eu sugeri que se tornasse a sua luna, para manter o poder da hierarquia, mas você a rejeitou por dizer que nunca a amaria.

— Por que o senhor nunca me disse quem ela era? Eu a rejeitei… repetidamente, mas... Eu não sabia que ela era justamente a Lirah! Esta dizendo que... todas as vezes que você disse que minha companheira como Luna poderia ser a filha do beta... era ela?

— Disse certo, era. Mas você escolheu com o ego, não com a razão. Escolheu a filha de um advogado pensando em alianças superficiais, e ignorou a filha do seu próprio Beta, a loba que já estava entranhada na estrutura de poder desta matilha desde o nascimento. Foi uma decisão burra, Fael.

O nome dela queimava na mente de Fael. Lirah.

A garota de sorriso fácil que ele mantivera às escondidas, que ele amara de uma forma que agora parecia infantil. E que agora ela era o mate de seu pai.

— Isso é uma maldição, o que você vai fazer? — ele murmurou, mais para si mesmo.

— É uma inconveniência — Kaelon corrigiu, sua voz carregada de desdém. — Uma fraqueza biológica. Não acreditarei em laços que roubam minha vontade. Nunca a aceitarei.

— E a mãe? — Fael perguntou, ousando ir ao cerne. — O senhor vai contar à Luna que encontrou sua parceira verdadeira? Todos sabem que o vínculo de vocês é político.

Kaelon emitiu um som baixo, um misto de riso e desprezo.

— Minha vida pessoal não é o ponto. Eu sou o Alfa. Meu casamento é uma das colunas que sustenta este clã. Um laço recém-descoberto, e com uma ômega, não tem força contra anos de estabilidade.

— Mas rejeitar um mate… pode ter consequências. Para a senhor. Para a matilha em força... além disso... você sabe... se você rejeitar Lirah... ela terá os dias contados ela vai morrer... — os lábios dele tremeram como se temesse as próprias palavras.

— Consequências são para quem não sabe controlá-las. O vínculo é superficial. A loba dela sentiu, mas o meu lobo não respondeu. Não está consolidado. Isso significa que pode ser… desfeito, eu sou um sobrevivente.

Fael sentiu um frio percorrer sua espinha.

— Desfeito? O senhor não quer dizer…

— Exatamente.

— Matá-la? — a voz de Fael subiu de tom. — Se o senhor mata sua parceira, mesmo um laço fraco, pode desencadear a loucura! O senhor pode perder o controle, o trono, tudo! Além disso... você já matou uma parceira uma vez, o destino... te deu a chance de sobreviver, mesmo se tornando um monstro.

Kaelon levantou-se então, e sua altura pareceu preencher a sala. Seus olhos, da cor do âmbar escuro, não tinham dúvida, apenas uma certeza aterradora.

— Alfas fortes não enlouquecem. Nós comandamos. Nós cortamos o que é fraco para preservar o todo. A ordem desta matilha vale mais do que a vida de uma ômega.

— Ela é inocente nisso! — Fael argumentou, um último surto de defesa.

— Sua existência, a partir de agora, é uma ameaça.

Fael olhou para o homem que era seu pai, seu líder, e viu um estranho. Viu a frieza absoluta de um cálculo que colocava o poder acima da vida, acima do destino.

— O senhor é um monstro — a palavra saiu em um sussurro trêmulo.

Kaelon nem mesmo pareceu ofendido.

— Sou um rei. E reis fazem o que é necessário. Você não dirá uma palavra. Para ninguém. Isso é uma ordem.

Fael balançou a cabeça, não em negação, mas em desespero. Então, algo dentro dele se rompeu. Um fio de autoridade que ele não sabia ter ecoou em sua voz, ainda que fraca.

— Pai. — a palavra soou como um comando, surpreendendo a ambos. — Não machuque a Lirah, isso não é negociável.

Kaelon parou, seus olhos estreitando-se pela primeira vez com algo que não era raiva, mas genuína surpresa.

O filho, o príncipe que sempre obedecia, estava estabelecendo um limite.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que todos os outros daquela tarde. Nele, uma nova guerra silenciosa nascia.

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