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Perfume impregnado no ar

CAPÍTULO TRÊS — PERFUME IMPREGNADO NO AR

STELLA CALISTO

Tudo aquilo parecia uma piada de péssimo gosto, considerando o dia absurdo que eu estava vivendo.

Há pouco, eu flagrara Vincent com Liana, deixara o Contrato de Noivado picado sobre a mesa de trabalho do meu ex-noivo e ativara Jules para revirar as cláusulas do Pacto — tudo para conseguir uma saída estratégica antes que a situação se voltasse contra mim.

Fechei o cardápio e acenei para o garçom, sem responder imediatamente a Nathan.

— Um cappuccino grande com caramelo e torradas com ovos. E uma água sem gás, por favor.

— Apenas um café puro — pediu Nathan.

Seus olhos estavam fixos em mim, mas não reuni coragem suficiente para encarar aquele olhar de volta. Que tipo de coincidência era aquela? Que razões o Chefe da Família Morgan teria para não querer meu casamento com seu próprio sobrinho — ainda mais sabendo do peso do acordo entre nossas famílias?

— Por que está dizendo isso? — perguntei, finalmente erguendo o queixo e forçando uma postura ereta.

Embora estivesse na casa dos trinta anos, Nathan tinha uma aparência arrebatadora: traços marcantes, feições elegantes que beiravam a delicadeza e uma postura intimidadora. Ele parecia ter saído da capa de uma revista, mas sua aura era sufocante e perigosa, típica dos grandes homens de negócios.

Ele retirou o celular do bolso interno do paletó, destravou a tela com um toque e deslizou o aparelho pelo tampo da mesa na minha direção. Observei o vídeo em silêncio: no visor, as figuras de Liana, Vincent e meu próprio pai travavam uma conversa abominável sobre me usar como peão e, em seguida, me descartar. Estavam na sala da minha casa, arquitetando um plano que, em suas mentes mesquinhas, parecia infalível.

Saber do envolvimento do meu pai não era exatamente uma surpresa, mas ver sua disposição fria para arruinar minha vida foi um golpe devastador. Aquela traição doía mais do que a de Vincent e Liana juntas. O homem que me vira nascer, que acompanhara cada fase do meu crescimento, não me enxergava como ser humano — e muito menos como filha.

— Como conseguiu essa gravação?

Nathan apenas deu de ombros, sem qualquer intenção de admitir a invasão à minha residência para a instalação de câmeras ocultas. Ele esperou em silêncio enquanto o garçom servia nossos pedidos. Ao morder o primeiro pedaço de torrada, meu estômago protestou pela falta de alimento. O doce do cappuccino agradou meu paladar e ajudou a acalmar, ainda que por um instante, o turbilhão de pensamentos em minha cabeça.

— Estou lhe mostrando isso não apenas em respeito ao Julian e à memória da sua mãe — disse Nathan, bebericando o café sem pressa. — Mas também porque conheço sua capacidade e seu temperamento. Seria um arrependimento que eu levaria para o túmulo se você se casasse com o inútil do meu sobrinho.

Nathan era dez anos mais velho que eu. Guardava memórias nebulosas da minha infância, quando ele andava pelos laboratórios com um bloco de notas na mão, seguindo os passos da minha mãe. Clarisse Calisto fora uma mulher brilhante, uma referência na ciência e no mundo corporativo. Talvez por sua amizade com Julian ou pelos acordos vigentes entre as famílias, Nathan se tornara um aprendiz dedicado de mamãe quando ainda era adolescente.

Por anos, ele me tratara com o carinho reservado a uma irmã caçula. Contudo, após a morte da minha mãe e sua ida para o exterior, quando eu tinha quinze anos, o contato se desfez naturalmente. Eu jamais imaginaria que ele ainda se importava ao ponto de me revelar algo que desmascarava a própria família. Obviamente, eu nada sabia sobre a real dinâmica entre ele e seus parentes.

— Eu não pretendo me casar com o Vincent — suspirei, girando a colher na xícara. Não ousei erguer os olhos enquanto calculava o quanto podia revelar. — Ele está dormindo com a minha irmã e, pessoalmente, odeio homens infiéis. Um par de chifres definitivamente não combina com meus cachos loiros.

— E o que pretende fazer a respeito?

— Deixei essa missão com o Jules. Ele está revirando as cláusulas do acordo para garantir que eu saia dessa bagunça sem violar o Pacto. — Ergui os olhos, oferecendo um sorriso sarcástico. — A não ser que o senhor tenha outros membros da família Morgan disponíveis para matrimônio para me apresentar...

Nathan pousou a xícara na mesa e tirou os óculos de leitura, guardando-os no bolso interno do terno. Seus olhos escuros e afiados se estreitaram sobre mim, e um arrepio involuntário percorreu minha espinha. Era como se ele enxergasse através da minha maquiagem, das minhas roupas e de toda a armadura que construí para esconder minhas feridas. Não me lembrava de ele ter esse olhar no passado.

— Nenhum deles é páreo para você, Stella. — Ele se levantou com elegância e deixou algumas notas altas sobre a mesa, quantia muito superior ao valor da conta. — No entanto... talvez eu tenha uma saída.

— E qual seria? — Franzi a testa, intrigada.

— Conversaremos assim que Julian retornar ao país com as respostas que você precisa.

Sem dar margem para mais perguntas, Nathan afastou-se com passos firmes e calmos, deixando-me para trás tomada por dúvidas — e com o rastro do seu perfume amadeirado impregnado no ar. Que tipo de solução ele tinha em mente? Poderia eu confiar de fato na sua intenção de me ajudar?

Após terminar a refeição, peguei meu carro com o manobrista e voltei para a pista. Embora repudiasse a ideia de encarar meu pai ou Liana, precisava ir em casa para recolher algumas roupas e me refugiar no apartamento de Kira. Seria prudente, inclusive, inspecionar a casa em busca das câmeras escondidas que capturaram a reunião daquele trio desprezível.

Ao cruzar o pátio e subir a escadaria da mansão, percebi que os funcionários desviavam o olhar. Poucos ali me tratavam com o respeito devido à herdeira legítima dos Calisto; a maioria bajulava Harry Calisto, o homem que eu lamentavelmente chamava de pai e que ficara temporariamente encarregado de gerir boa parte dos bens deixados por minha mãe. Todos tinham debandado para o lado de quem julgavam deter o poder.

Não me importei com os murmúrios disfarçados nem com os sorrisos de escárnio. Em dois meses, o jogo mudaria drasticamente. Na família Calisto, o herdeiro assumia o controle absoluto dos ativos ao completar vinte e quatro anos. Até lá, a gestão permanecia sob o encargo do guardião legal. Eu só precisava resistir por mais algum tempo — e então, todos os que me deram as costas voltariam rastejando.

A mansão estava num silêncio sepulcral. Subi diretamente para o meu quarto. Liana provavelmente continuava na casa de Vincent, e meu pai devia estar no Clube Ludwig, onde costumava passar as tardes esbanjando dinheiro para não ter que trabalhar. Sentei-me na cama e enviei uma mensagem rápida para Kira, pedindo para passar a noite em seu apartamento. O desabafo completo sobre o pesadelo do meu dia ficaria para mais tarde, acompanhado de algumas garrafas de Soju.

Abri o closet, selecionei um pijama, dois vestidos elegantes, lingeries e saltos. Em seguida, fui até a estante de livros e destravei o cofre oculto, alcançando a pequena caixa que guardava as joias que pertenceram à minha mãe. Toquei o delicado colar de pingente de jade, lembrando de como ele se destacava em seu pescoço. A saudade me atingiu como uma lâmina fria no peito.

Guardei as joias na mala de mão e voltei a atenção ao interior do cofre. Meus dedos tocaram a superfície metálica e gelada do estojo no fundo. Ao erguer a tampa, vislumbrei o conjunto de adagas de arremesso perfeitamente alinhadas. Há muito tempo eu não precisava daquelas armas, mas era impossível prever como Vincent reagiria ao encontrar o recado que deixei em sua sala.

Se ele ousasse vir atrás de mim com seus homens, eu garantiria que ele sangrasse primeiro.

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