CAPÍTULO 7: A um passo dele

Assim que cheguei em casa naquele dia, peguei meu laptop e comecei a preparar meu currículo.

Precisei alterar meu nome nos documentos. Sempre fui boa em informática, teria me formado na área se não tivesse perdido a bolsa na faculdade, então modificar arquivos e ajustar informações não foi difícil.

Eu não podia correr o risco de ele reconhecer meu nome e me descartar imediatamente.

Então, escolhi outro. "Helena Lima" sse seria meu novo nome.

Havia a possibilidade de ele me reconhecer pela aparência, afinal, meu rosto não mudara tanto em cinco anos. Por isso, editei discretamente a foto que enviaria. Nada exagerado, apenas o suficiente para suavizar traços familiares.

Eu precisava tentar. Precisava ao menos ter a chance de ficar diante dele outra vez. Agora Leonardo era um homem poderoso, inalcançável. Aquela era minha única oportunidade de entrar na vida dele.

Depois de ajustar os documentos, caprichei no currículo. Se tratava da família Almonte, então precisava chamar atenção.

Felizmente, eu me encaixava perfeitamente no que procuravam. Não exigiam grandes títulos acadêmicos, mas experiência e vocação. E disso eu tinha de sobra.

Anos trabalhando com crianças, certificados da instituição, reconhecimentos da prefeitura pelos projetos sociais, recomendações impecáveis, inclusive do próprio prefeito, cujo filho eu havia sido tutora particular.

Eu não tinha diplomas de elite, mas tinha algo mais valioso e de que eles precisavam: dedicação e vocação verdadeira.

Meu currículo estava perfeito.

Eu conseguiria aquela vaga. Não. Eu tinha que conseguir.

No dia seguinte, entreguei os documentos à diretora, que prontamente os enviou para os Almonte.

Agora, restava esperar.

Mais tarde, fui ao refeitório enquanto as crianças dormiam. Assim que entrei, senti os olhares curiosos das outras cuidadoras. Quando me sentei, quase todas vieram para a mesma mesa.

— É verdade que você vai se candidatar para ser babá da família Almonte? — perguntou uma delas.

— Vou sim — respondi, com um leve sorriso.

— Ouvi dizer que o senhor Almonte é extremamente rigoroso. Essa é a terceira babá que ele tenta contratar este ano.

— E dizem que as outras saíram de lá chorando!

— Claro, para ele a filha é o maior tesouro. A menina só anda com seguranças, tem empregadas só para ela. A casa de brincar é praticamente um palácio rosa no jardim! Deve ser uma criança mimada, dessas “filhinhas do papai”.

Apertei o garfo com força. Tesouro? Ele tratava a filha como um tesouro, enquanto a minha…

Respirei fundo tentando me acalmar.

— Ela é filha única, herdeira de uma fortuna bilionária — continuou outra. — É natural que seja tratada como princesa. Cercada de luxo, riqueza e amor. Aposto que o que gastam com ela em um mês sustentaria esse abrigo por um ano. Às vezes o mundo é injusto…

Bati o garfo na mesa, assustando todas, e Levantei-me.

— Vou ver as crianças. Com licença.

Saí antes que percebessem o fogo nos meus olhos.

— Acho que a Júlia vai conseguir — ouvi uma delas sussurrar. — Ela ama essas crianças como se fossem dela.

— Depois de perder a filha ao nascer, é normal que ela tenha tanto amor por crianças…

Saí do refeitório e caminhei até os quartos.

Ao ver os pequenos dormindo, meu peito se acalmou. Aqueles anjinhos eram minha terapia, eu não conseguia entender como alguém podia abandonar ou machucar criaturas tão inocentes.

Como Leonardo o fez.

Mas ele logo logo teria seu castigo.

No fim do dia, Joaquim me levou para casa. E o caminho todo eu fiquei em silêncio.

— Você está quieta. Não falou das crianças hoje… aconteceu alguma coisa? — perguntou ele.

Olhei para ele, pensando em contar. Joaquim era meu melhor amigo, sabia da minha dor, do meu ódio por Leonardo.

— Eu me candidatei a uma vaga de babá na capital.

Ele franziu a testa.

— Na capital? Por quê? Não gosta mais de trabalhar aqui?

— É para a família Almonte.

O carro freou bruscamente.

— o-o que? De que família Almonte você está falando? — perguntou ele ainda em choque.

— Para a família de Leonardo Almonte.

— Júlia… por quê?

— Porque eu quero me aproximar dele, quero me vingar. Eu vou destruir a família perfeita dele, como ele destruiu a minha. Vou fazer ele se arrepender e pedir perdão no túmulo da minha filha!

— Júlia! — ele levantou a voz. — Você não é assim! Você vai à igreja, faz caridade, cuida de crianças! Desde quando fala em vingança?

— Eu tive uma gravidez difícil! — minha voz falhou. — Perdi minha filha enquanto ia atrás daquele homem que nos abandonou! E ele vive feliz com esposa e filha? E a justiça para minha menina?!

Joaquim respirou fundo.

— Entregue nas mãos de Deus.

Virei o rosto para o lado.

Perdoar era fácil quando a dor não era sua.

Eu perdoava muitas coisas, Mas aquilo? Eu nunca perdoaria.

Aquele rancor só cessaria quando eu fizesse justiça.

Os dias seguintes foram de ansiedade sufocante. Já havia enviado tudo, mas nenhuma resposta chegava. O medo de ser rejeitada me consumia, eu precisava passar. 

Até que, numa manhã, a diretora me chamou em sua sala, e me deu a notícia.

— Você foi chamada para entrevista na mansão dos Almonte! 

O mundo pareceu parar por um segundo.

A entrevista seria em dois dias. Então ela logo me dispensou para que eu pudesse me preparar para partida.

Mas antes, eu precisava ir a outro lugar.

Como fazia todos os dias há cinco anos, fui até o cemitério.

Ajoelhei-me diante da pequena lápide e coloquei o buquê de flores que eu mesma colhi.

Limpei as folhas secas e sorri, com os olhos marejados.

— Meu amor, eu finalmente vou puder vingar a sua morte. Aquele homem vai pagar por tudo, vai pagar por você estar aí. Então aguente um pouco, a mamãe vai ficar um tempo fora, mas eu prometo voltar logo. — 

 Beijei a cruz e me sentei ao lado dela como sempre, mas agora com esperança de que finalmente teríamos justiça.

No dia seguinte, ja estava no aeroporto pronta para embarcar.

O mesmo aeroporto onde me despedi de Leonardo cinco anos antes.

O mesmo lugar que marcou o início da minha tragédia.

As lembranças da perda da minha filha vieram como uma onda, mas, em vez de me derrubar, me deram força.

Quando cheguei à capital, instalei-me em uma pensão simples. A entrevista seria no dia seguinte.

Não consegui dormir pela ansiedade.

Passei a noite encarando o teto, imaginando o momento em que ficaria frente a frente com ele.

Quando o sol nasceu, eu já estava pronta.

Terno bem passado, saia social, saltos discretos. Cabelo preso, postura firme. Profissional. Impecável.

Peguei um táxi e parti.

Durante todo o trajeto, imaginei a expressão dele ao me ver.

Será que me reconheceria? Será que sentiria culpa? Não conseguia para de pensar naquilo.

Minutos depois, o carro parou.

E quando desci, estava diante da mansão enorme, imponente, digna de um rei.

Leonardo era dono de tudo aquilo.

Era por aquele luxo, por aquela vida extravagante, que ele havia nos trocado tão facilmente.

Respirei fundo mantendo minha postura, e entrei pelos portões. 

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