Mundo de ficçãoIniciar sessãoAo cruzar os portões daquela imensa propriedade, me deparei com uma cena completamente incomum e diferente do que esperava.
Estava tudo caótico.
Havia empregados andando de um lado para o outro, os rostos transfigurados pela ansiedade, movendo-se em direções opostas como se procurassem desesperadamente por algo precioso.
— Dália! — ouvi alguém chamar em um tom agudo, quase em súplica.
— Senhorita Dália! Onde você está? — gritou outra voz vinda dos fundos.
— Menina Dália! Apareça, por favor! —
O coro de vozes se intensificava.
Os gritos preenchiam toda a propriedade, deixando claro que estavam procurando por alguém.
"Dália..." Aquele nome incomum, me pareceu estranhamente familiar.
Eu estava parada perto da entrada, ao lado do jardim, sentindo-me uma intrusa naquela tempestade de pânico alheio.
Diante daquela confusão, pensei se deveria ficar e esperar aquele caos passar, ou simples dar meia volta e sumir por aqueles portões.
Enquanto me perguntava se deveria ir embora ou ficar, um som específico silenciou o barulho dos gritos dos empregados em meus ouvidos.
Era um som que eu conhecia bem: o som agudo e interrompido da respiração de pânico.
Durante os anos em que trabalhei com crianças traumatizadas no centro infantil, aprendi a ignorar o barulho ao redor para focar no desespero silencioso.
Eu reconhecia aquele som em qualquer lugar, aprendi a identificar o ritmo errático do pulmão que se fecha e a correr antes que o pior acontecesse.
Guiada apenas por esse instinto, ignorei os empregados e segui o som. Meus pés se moveram por entre os arbustos de flores densas, próximos à vedação de ferro que delimitava o jardim. Foi ali, escondida entre as cores vibrantes e o perfume das flores, que eu a vi.
A menina estava sentada no chão, de costas para mim, os ombros pequenos subindo e descendo.
Ela buscava desesperadamente por ar, mas seus pulmões pareciam ter se tornado pequenos demais para o seu peito.
Rapidamente, e com movimentos automáticos ditados por anos de prática, me ajoelhei diante dela. No instante em que meus olhos encontraram o rosto dela, meu peito apertou com uma força que quase me fez perder o equilíbrio.
Ela estava pálida, com os lábios levemente azulados e os olhos arregalados em um terror puro.
Pela forma como o tórax dela se retraía, notei imediatamente que não era apenas um ataque de pânico psicológico; ela estava em meio a uma crise aguda de asma.
As duas condições estavam agindo em conjunto, sufocando aquela pequena vida diante de mim.
Sem hesitar, abri minha bolsa com mãos firmes. Eu sempre carregava uma bombinha de asma reserva para as crianças do centro, um hábito.
Com cuidado, fiz com que ela se encostasse no meu corpo, oferecendo o suporte para suas costas trémulas, e coloquei o inalador em sua boca pequena.
— Respire, querida... — sussurrei.
Ela logo começou a inalar o medicamento enquanto eu, com a outra mão, massageava lentamente o corpo dela em movimentos circulares, tentando dissipar a tensão em seu peito.
— Tudo bem, querida... já passou, já passou. Está tudo bem agora. Respire devagar, bem calminha... eu estou aqui com você. Já passou, meu anjo, já passou.
Senti o corpo dela relaxar contra o meu à medida que o remédio fazia efeito e o oxigênio voltava a entrar em seus pulmões normalmente.
A respiração dela, antes um assobio de agonia, tornou-se mais rítmica e profunda.
Afastei os fios que grudavam em sua testa suada, e olhei diretamente para o seu rosto.
Naquele momento, meu peito bateu forte e apertou tanto que chegava a doer.
Ela era linda. Absolutamente perfeita.
Os cabelos castanhos-claros emolduravam um rosto de porcelana, com olhos castanhos profundos, o nariz delicado e a boquinha desenhada, logo abaixo do olho esquerdo, havia uma pequena pintinha escura, tal como..
Leonardo.
"Esta... esta é a filha do Leonardo?"
Me perguntei, sentindo um choque elétrico percorrer minha espinha. O espanto me paralisou por alguns segundos.
Ela era uma cópia perfeita dele, uma versão em miniatura e angelical do homem que tinha me abandonado à própria sorte.
Ajeitei melhor os fios de cabelo dela, meus dedos agindo por conta própria, acariciando a pele macia e suave de seu rosto.
Eu a admirava, encarando-a fixamente com uma mistura de fascínio e dor.
Não pude conter a lágrima solitária que escapou e escorreu pelo meu rosto, me perguntando como seria o rosto da minha filha se ela estivesse viva? Ela teria a mesma idade que esta menina. Também teria os traços dele?
Os olhinhos castanhos da pequena se direcionaram a mim, e inconscientemente, sorri para ela.
— Oi, meu amor. Está tudo bem agora, você está segura. — Falei, fazendo um leve carinho em sua bochecha. — Você está bem? Está sentindo alguma dor? Está machucada?
Procurei por arranhões ou hematomas em suas pernas pequenas, mas a pele dela estava intocada.
Quando voltei a olhar para ela, percebi que ela ainda me encarava fixamente, com uma intensidade que me desarmava. Aquilo me fez sorrir novamente, sentindo uma conexão que eu não deveria permitir.
— Vamos, você não pode ficar aqui escondida, pequena. Estão todos loucos atrás de você.
Passei meus braços por baixo dela e a peguei no colo, levantando-me com cuidado.
Automaticamente, ela se encaixou em meu colo com uma perfeição que me deixou tonta, o peso do seu corpo contra o meu fazendo meu coração bater em um ritmo frenético, me fazendo ter sentimentos confusos: raiva pelo que ele tinha e eu não, uma inveja por ele ter aquela menina e a minha estar debaixo da terra, e também, dor e mágoa.
— DÁLIA! MEU AMOR, APAREÇA!
Aquela voz me despertou do transe. A voz que eu tinha enterrado em meus pesadelos por cinco longos anos.
Leonardo.
Me virei lentamente na direção do som.
Meu peito disparou, as batidas do meu coração ecoando em meus ouvidos de forma ensurdecedora quando meus olhos finalmente encontraram os dele.
Ele estava ali. Parado a escassos passos de mim, o rosto transfigurado pela angústia que se transformou em choque ao olhar para mim.
O tempo pareceu congelar, com apenas nos três ali.
Depois de cinco anos após ele ter me deixado, eu finalmente estava na frente dele.
Leonardo Almeida.







