Mundo de ficçãoIniciar sessãoNão consegui ficar um segundo a mais naquele quarto. Peguei minha bolsa sem
olhar para Fred, sem perguntar se ele estava bem, se a dor havia passado. Simplesmente fugi como uma covarde completa. Meus passos ecoaram pelo corredor do hospital enquanto eu praticamente corria, esbarrando em pessoas sem pedir desculpas, sem me importar com os olhares irritados que recebia. Precisava sair dali. Precisava respirar. Precisava… eu não sabia o que precisava. O ar noturno quente em comparação ao ar condicionado gelado me atingiu como um tapa quando finalmente cheguei ao estacionamento. Parei no meio do asfalto, ofegante, como se tivesse corrido quilômetros em vez de apenas alguns metros de corredor. O que mais me deixava sem ar era a recordação dos lábios dele contra os meus. Aquele beijo… Deus, aquele beijo havia me atingido como um raio. Violento, desesperado, carregado de urgência e paixão que eu não sabia que existia entre nós. Ou que eu preferia pensar que não existia. Encostei em um carro qualquer, tentando organizar meus pensamentos que insistiam em se dispersar como folhas ao vento. O que eu ia fazer agora? Não podia simplesmente ir embora. Por mais que cada fibra do meu ser gritasse para correr para casa, me trancar e fingir que nada havia acontecido, eu não podia abandoná-lo. Peguei o celular, para ligar para Sônia. Ela poderia vir. Era trabalho dela e eu poderia evitar essa situação. Mas meu dedo hesitou no teclado. Que tipo de pessoa eu seria se fizesse isso? Que tipo de pessoa abandona alguém assim? Meu estômago roncou alto, me lembrando que já fazia tempo que não comia nada. Olhei para o hospital, suas luzes brilhando contra o céu escuro. Já era noite alta e eu estava ali presa naquele limbo emocional. Voltei para o prédio, desta vez caminhando devagar, tentando recuperar algum senso de normalidade. O restaurante do hospital ainda estava aberto, graças a Deus por isso. Me acomodei em uma mesa no canto e pedi algo simples: um sanduíche e um suco. Comida de hospital não é exatamente gourmet, mas naquele momento eu comeria qualquer coisa só pra ter algo a fazer além de pensar naquela porra de beijo. Mas foi inútil. Mesmo mastigando mecanicamente, minha mente continuava voltando para o quarto 312. Para a forma como Fred havia me puxado para ele, como se não conseguisse mais se conter. Para o gosto dele, para o calor do corpo dele contra o meu, para o gemido abafado quando a dor o atingiu… Paguei a conta e me dirigi à recepção. Me acomodei em uma das cadeiras desconfortáveis e observei o vai e vem das pessoas. Visitantes saindo, funcionários trocando turnos, a vida do hospital seguindo seu ritmo noturno mais lento. Aos poucos o movimento diminuiu. As horas passaram sem que eu percebesse. O beijo havia mudado tudo entre nós, isso era inegável. Mas tudo o quê? A culpa começou a me corroer. Eu havia deixado Fred sozinho, machucado, depois de um momento tão intenso. Ele provavelmente achava que eu havia fugido por que me arrependia, porque não havia gostado, porque… A verdade era muito mais complicada. Fugi porque eu havia gostado demais Naquele beijo havia paixão, desejo, uma conexão que ia muito além do físico. E isso me deixa apavorada. Quando finalmente criei coragem para voltar para o quarto, já passava da meia-noite. Empurrei a porta devagar, esperando encontrá-lo acordado, talvez furiosos comigo. Mas ele dormia profundamente, a respiração lenta e regular. “Ele tomou um sedativo.” Disse uma voz atrás de mim. Me virei para encontrar uma enfermeira diferente da que esteve aqui mais cedo, uma mulher de meia-idade com um olhar compreensivo. “Sedativo?” Perguntei, tentando não soar tão preocupada quanto me sentia. “Ele estava muito inquieto. Agitado. O médico achou melhor dar algo pra ele descansar.” Ela me olhou com curiosidade. “Vocês brigaram? Ele tentou ir atrás de você, coitado.” “Algo assim.” Murmurei com tristeza, não sabendo como explicar o que havia acontecido. Ela assentiu com conhecimento de causa. “Essas situações de hospital sempre deixam as pessoas um pouco tensas. Mas ele vai ficar bem. A febre baixou. Já, já ele volta pra casa.” Agradeci e ela saiu, me deixando sozinha com um Fred adormecido e com o peso do que havia acontecido entre nós. Me acomodei na poltrona ao lado da cama, observando seu rosto. Mesmo dormindo, ele parecia carregar o peso do mundo nos ombros. E eu… eu estava apaixonada por esse homem complicado e perigoso sem fazer a menor ideia do que fazer com esse sentimento.






