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7 Fred - A Linha Que Eu não Devia Ter Cruzado

A última coisa que saiu da minha boca foi provavelmente a mais honesta que já

disse na vida. Ária era mais perigosa do que qualquer tiro . E agora, observando-a procurar

o celular na bolsa com movimentos fortes, percebi que a culpa era minha.

“Vou ligar pra Sofia.” Anunciou quando conseguiu achar o celular. Senti algo

desagradável se contorcer no meu peito. Decepção, talvez. Mas mantive a expressão

neutra, uma habilidade que aperfeiçoei ao longo dos anos.

“Claro.” Respondi em uma voz tão sussurrada que não tenho certeza que ela tenha

escutado. Ela se afastou enquanto aguardava a ligação ser atendida. Começou a explicar a

situação no canto do quarto, falando baixo. Não podia ouvir a conversa, mas pela

linguagem corporal as coisas não estavam saindo como planejado. Bom, não que eu

quisesse que ela ficasse, muito menos queria que ela me deixasse.

Foi então que a porta se abriu e o médico entrou, acompanhado de uma enfermeira.

Troca de plantão, presumo. O Dr. Alguma coisa, não prestei atenção no nome quando ele

se apresentou. Estava ocupado observando como os olhos dele se fixaram em Ária,

instantaneamente.

“Boa noite, Frederico.” ele disse pegando meu prontuário. Ah, como eu odeio esse

nome!

Mesmo com o prontuário em mãos, ele não tirava os olhos dela. Que ainda estava

no celular. A conversa com Sofia parecia mais profunda do que só um breve aviso da minha

internação.

“Como está se sentindo?” Por um momento esqueci a presença do médico. A

enfermeira me olhava parecendo compreender tudo que não foi dito, mas ela estava

ocupada trocando o saco de soro.

“Melhor.” Respondi secamente. Minha atenção estava dividida entre ele e Ária, que

agora parecia estar discutindo com Sofia. Ela desligou o celular com um suspiro frustrado e

se virou para nós.

“Parece que vou ter que passar a noite aqui.” E foi quando a coisa ficou

interessante. O médico, Dr. Carvalho, li no crachá, sorriu para ela de uma forma que fez

meu maxilar se contrair involuntariamente.

“Que bom.” Ele disse, e o tom foi casual demais para ser profissional. “Quero dizer, é

importante que o paciente tenha um acompanhante. Sou Dr. Carvalho, responsável pelo

plantão noturno.”

“Ária.” Ela respondeu aceitando o aperto de mão que durou alguns segundos mais

do que o necessário.

“Nome interessante. É italiano?” Ela sorriu pra ele. Sorriu. Senti algo primitivo e

desagradável crescer no meu peito.

“Sim e não. Em italiano se refere tanto ao ar quanto à melodia. Em albanês significa

tesouro. Quem me deu o nome foi meu avô. Ele ama música.”

“Fascinante. Tesouro, ar e melodia. Com certeza é um nome criado para você. Eu fiz

residência em Roma. Cidade incrível. Já visitou?” E lá estavam eles, conversando

animadamente sobre a porra da Itália enquanto eu jazia como um móvel do quarto. Ária

estava claramente interessada na conversa e no médico, fazendo perguntas sobre os

lugares que ele havia visitado, rindo das pequenas anedotas que ele contava.

A fúria que senti foi tão intensa quanto irracional. Eu não tinha direito algum de estar

com ciúmes. Não tínhamos nada além de uma tensão sexual e uma amizade recente e

complicada. Mesmo assim estava de punhos cerrados, observando outro homem flertar

descaradamente com ela.

Quando ele mencionou algo sobre mostrar as fotos de Roma que tinha no celular, foi

meu limite. Me levantei da cama bruscamente, ignorando a dor lancinante que atravessou

minha coxa como uma lâmina. A ferida protestou violentamente, mas eu precisava fazer

alguma coisa. Me sentei na beira da cama esperando a dor passar.

“Fred!” Ária se aproximou imediatamente, estendendo as mãos para me ajudar. A

enfermeira, olhou com um franzido na testa e deixou o quarto. Ela não deveria me ajudar?

“Fred, o que você está fazendo? Você não deveria…”

“Estou bem.” Cortei, mais brusco do que pretendia, afastando-me de seu toque. Ela

recuou como se tivesse levado um tapa. Mas eu não podia aceitar sua ajuda, não quando

estava me sentindo assim… feito um idiota. Queria amassar aquele narizinho do tal doutor,

assim ele não teria tempo de manter os olhos nela.

“Senhor Frederico.” A voz do médico soou profissional novamente. “Realmente não

é recomendável que o se levante sem assistência. A sutura ainda está…”

“Eu sei perfeitamente qual é o estado da minha sutura. “ Respondi, minha voz

carregada de uma frieza que fez o ar do quarto esfriar alguns graus. O médico me

observou por um momento, e eu vi o exato instante que ele compreendeu a situação. Um

meio sorriso surgiu em seus lábios.

“Claro.” Disse ele guardando o prontuário. “Vou deixá-los à vontade. Qualquer coisa

é só me chamar.” Ele saiu levando consigo aquele sorrisinho irritante e deixando para trás

um silêncio pesado. Ária cruzou os braços e me encarou.

“Posso saber que diabos foi isso?”

Algo dentro de mim se rompeu. Talvez fosse a fúria, talvez, desejo reprimido ou

simplesmente o fato de ter passado o mês inteiro longe dela pensando no beijo que eu não

dei. Antes que pudesse processar racionalmente o que estava fazendo, atravessei os

poucos passos que nos separavam e a puxei pra mim.

Minha boca encontrou a dela com uma força que beirava a violência. Não foi gentil,

não foi romântico. Foi pura necessidade primitiva explodindo depois de tanto tempo de

contenção. Minha mão se enterrou em seus cabelos, inclinando sua boca para aprofundar o

beijo, enquanto a outra pressionava suas costas contra meu corpo. Ela gemeu suavemente

contra meus lábios, e esse som quase me destruiu. O gosto dela era tão maravilhoso

quanto da primeira vez que nos beijamos, com um toque especial de saudade doce e

intoxicante, com um traço de café que ela havia bebido mais cedo. Sua língua encontrou a

minha em uma dança desesperada e senti cada fibra do meu corpo reagir àquele contato.

“Eu queria isso há muito tempo.” Murmurei contra sua boca, as palavras escapando

sem permissão. “Cristo, Ária, eu não deveria… mas eu te quero tanto…”

Era agonia e êxtase ao mesmo tempo. Cada segundo daquele beijo era

simultaneamente a coisa mais certa e mais errada que eu já havia feito. Suas mãos se

agarraram ao meu pijama feio dado pelo hospital, puxando-me para mais perto e eu podia

sentir o calor de seu corpo se misturando com o meu.

Ela se entregou completamente ao momento, seus lábios respondendo aos meus

com uma paixão que combinava perfeitamente com minha fúria e desejo. Não havia

hesitação em seus movimentos, apenas a necessidade desesperada que me consumia.

Mas então a dor, que por um momento eu esqueci, me atingiu como um raio. Minha

perna protestou violentamente contra os movimentos bruscos e o peso, enviando ondas de

agonia no meu corpo. Precisei me separar dela com um gemido abafado, uma mão

pressionando a perna instintivamente.

“Merda!” Xinguei entre os dentes, cambaleando de volta para a cama. Quase caí no

chão, ofegante, não apenas pela dor, mas pelo que havia acabado de acontecer. Minha

respiração estava descompassada, o coração batendo como se tivesse corrido uma

maratona. Ária permaneceu onde estava, congelada no lugar onde eu a havia deixado.

Seus lábios estavam inchados e vermelhos, os cabelos desalinhados onde meus dedos

haviam se enterrado. Também ofegante, os olhos arregalados como se tentasse processar

o que acabara de acontecer.

O silêncio era ensurdecedor. Eu pude ver o momento exato em que a realidade

voltou a atingi-la, a mesma que agora me encarava como um balde de água fria. Eu havia

acabado de cruzar uma linha que não queria. Que não podia. E pelo seu olhar, ela sabia

disso também.

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