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9 Fred - O Preço de Estar Ao Meu Lado

Ajustei a posição na cadeira de couro do meu escritório, sentindo uma pontada na

perna ainda em recuperação. Os papéis espalhados sobre a mesa de mogno pareciam

borrados diante dos meus olhos, as palavras dançando sem fazer sentido. Fazia uma

semana que não conseguia me concentrar direito no trabalho, uma semana desde que

havia voltado daquele maldito hospital, uma semana desde que não via Ária.

O beijo. Aquele beijo não saía da minha mente nem por um segundo sequer. Ainda

conseguia sentir o gosto dos lábios dela, a suavidade da pele, o modo que ela havia se

entregado ao momento. Depois, aquela expressão que eu não conseguia decifrar. Por que

diabos eu havia feito aquilo? Comigo ela estaria sempre em perigo.

No dia seguinte, quando acordei no hospital, foi Sofia quem encontrei ao lado da

minha cama, não Ária.

“Cheguei bem cedo e liberei Ária. Me desculpe por não ter vindo ontem, mas eu

sabia que você ficaria bem com ela.” Ela havia explicado com naturalidade. “Ela parecia ter

pressa para ir embora.”

Pressa para fugir de mim, é claro. Talvez ela tivesse percebido o perigo que

representava estar próxima a mim. Isso é o melhor a ser feito.

Não contei sobre o beijo para Sofia, mas minha irmã tinha aquele jeito peculiar de

perceber as coisas sem precisar de explicações. E ali estava ela, sentada na poltrona em

frente à minha mesa como se fosse dona do lugar, os braços cruzados e aquela expressão

determinada que eu conhecia desde a adolescência. Sofia nunca visitava minha empresa,

nem mesmo quando precisava dos meus serviços. Mas hoje havia aparecido sem avisar,

dispensado minha assistente e se instalado ali com a clara intenção de não sair até que

dissesse tudo o que veio dizer. Droga! Eu conheço esse olhar.

“Você não tem um casamento para planejar?” Ela continuou me encarando.

“Vai ficar me encarando o dia todo ou vai começar logo o sermão? Se você tem

tempo livre, eu não tenho.” Me recostei na cadeira, cruzando os braços em uma postura

defensiva e espelhada a dela.

Sofia suspirou, uma mistura de exasperação e carinho no gesto.

“Idiota. Imbecil. Você está sendo um idiota, Frederico.” Ela sabe o quanto eu odeio

quando falam meu nome inteiro.

“Direto ao ponto, como sempre. De que porra você está falando?” Me fiz inocente.

Mas eu sabia. Claro que eu sabia.

“Ária. Do jeito que você se esconde atrás dessa mesa, sempre trabalhando,

enterrado em papéis, quando não está levando tiros por aí, fingindo que não aconteceu

nada.” Senti meu corpo enrijecer.

“Ainda não faço ideia sobre o que está falando.”

“Claro que faz.” Ela se inclinou para frente, os olhos castanhos brilhando com

determinação. “Eu vi como vocês se olhavam na minha festa de noivado. Depois do nada

ela te acompanha até o hospital, dispensa a Sônia pra ficar com você. Sim, a Sônia me

contou. Também percebi como Ária estava afetada naquela manhã. Ela é sempre tão

controlada, mas não naquele dia.”

“Sofia…”

“Não me interrompa.” Ela levantou a mão. “Você gosta dela. É óbvio para qualquer

pessoa com dois olhos na cara. E, pelo que pude perceber, ela também gosta de você.

Vocês são dois problemáticos, bem parecidos. Ela com aquele ex marido sempre

aprontando e você…” Desviei o olhar, focando na vista da janela atrás de Sofia, mas as

palavras dela ecoavam na minha mente como um eco doloroso. Gostar, não sei se é isso o

que eu sinto por ela. Acho que o que eu sinto vai além disso, e é isso que me apavora. Sou

um perigo pra ela.

“Não é tão simples assim.” Murmurei.

“Por quê?” A voz de Sofia ficou mais suave, porém não menos incisiva. “Porque

você ainda se culpa pelo que aconteceu com Laura.”

O nome do meu primeiro amor me atingiu como uma punhalada no peito. Fechei os

olhos por um momento, mas não consegui afastar as memórias. Laura rindo no restaurante

naquela última noite. Ela pegando minha mão enquanto caminhávamos pela calçada. O

estampido do tiro. O sangue. Seus olhos se fechando para sempre nos meus braços.

“Sofia, por favor…”

“Não, Fred. Já passou da hora de alguém te dizer isso.” Sofia se levantou e

começou a andar de um lado para outro em frente a minha mesa, as mãos gesticulando

enquanto falava. “ Laura foi assassinada, Fred. Foi terrível, foi injusto, foi uma tragédia. Mas

não foi sua culpa.”

“Aquele tiro era pra mim!” As palavras saíram como um rugido desesperado,

carregadas de toda a culpa que eu carregava como uma pedra no peito. “Era pra mim,

Sofia! Por causa do meu trabalho, das pessoas que contrariei, dos inimigos que fiz. Laura

morreu no meu lugar!” Sofia parou abruptamente, os olhos se enchendo de compaixão.

“Você não sabe disso.”

“Eu sei, porra!” Bati o punho na mesa, fazendo os papéis voarem. “Laura estava

comigo e pagou por estar ao meu lado. Ela era o meu ponto fraco.” O silêncio que seguiu foi

ensurdecedor. Sofia me olhava com uma mistura de tristeza e frustração, e eu senti como

se todas as emoções que havia reprimido depois de tanto tempo estivessem explodindo ao

mesmo tempo.

“É por isso que você não pode ficar com Ária? Ela nem sabe de nada. Sabe por

quê? Porque você não deu chance pra ela escolher se vale a pena correr algum risco por

você.” Sofia disse suavemente. Engoli seco, sentindo minha garganta seca como lixa.

“Escuta o que você está dizendo, minha irmã. Eu não posso colocar Ária em perigo.

Não posso assistir outra pessoa morrer por minha causa.”

“Fred…” Sofia voltou a sentar, desta vez inclinando-se para frente com os olhos

cheios de lágrimas. “Você tem certeza de que aquele tiro era pra você? A polícia nunca

encontrou evidências disso.”

“A polícia nunca encontrou evidência de nada!” Explodi novamente. “O atirador

nunca foi pego, nunca descobriram o motivo, nunca…” Minha voz falhou. “Mas eu sei, Sofia.

No fundo do meu coração, eu sei que Laura morreu porque estava comigo.”

“E se você estiver errado?” Ela perguntou gentilmente, com a voz chorosa. “E se foi

um caso de violência urbana aleatório. Não seria o primeiro nem o último.” Balancei a

cabeça violentamente.

“Não posso arriscar. Não com Ária. Não sobreviveria se algo acontecesse com ela

também.”

“Você está vivendo agora?” Sofia perguntou, e a simplicidade da pergunta me atingiu

como um soco. “Porque pelo que eu vejo, você morreu naquela calçada junto com Laura.

Só esqueceu de se enterrar.” Senti como se ela tivesse arrancado todas as minhas defesas

de uma vez. Porque ela não está de todo errada. Eu apenas existia, passando os dias numa

névoa de culpa e medo.

“Eu vi como você estava no dia da festa. Havia algo diferente em você, Fred. O jeito

que olhava pra ela…” Sofia continuou com a voz embargada. “Você conseguiu se divertir,

Fred. Estava mais leve, falante.”

Era verdade. Ária tinha um efeito em mim, que eu não sabia como descrever.

Parecia bem próximo do que Sofia havia descrito.

“E se eu a perder também?” A pergunta saiu como um sussurro quebrado.

“E se nada disso acontecer?” Sofia retrucou. “E se você desperdiçar a chance de ser

feliz de novo por medo de algo que pode nunca acontecer. E se você passar o resto da vida

sozinho e descobrir que estava errado sobre tudo? Você é o Frederico Almeida, o grande

Fred que protege todo mundo. Que me manteve segura quando eu estava em perigo. Você

construiu esse império.” Ela gesticulou olhando em volta. “Faça o seu melhor e mantenha

nossa Ária segura, também.”

Olhei pras minhas mãos, notando como elas tremiam. Mesmo assim, eu não fui

capaz de proteger a Laura. Aquela emboscada que sofri, o tiro, a infecção foram lembretes

de como a vida podia mudar de uma hora para outra. Lembrete de que eu não tinha

controle sobre tudo.

“Fred…” Sofia se levantou e veio até mim, colocando as mãos nos meus ombros.

“Laura se foi. Eu sei que dói, que você sente a culpa do sobrevivente. Mas você não pode

honrar a memória dela desperdiçando sua vida.” Levantei os olhos para encontrar o olhar

compreensivo da minha irmã. “Talvez a vida não seja tão generosa com você no futuro.” Ela

continuou. “Talvez essa seja sua única chance real de viver um novo amor. Você vai

deixá-la passar?”

“Ela saiu correndo, Sofia. Depois que a beijei, ela saiu correndo. Talvez seja melhor

assim.” Murmurei com a voz embargada.

“Eu sabia!” Ela bateu a mão sobre a mesa. “Talvez ela precise saber que você está

disposto a lutar por vocês dois, afinal de contas ela já viveu com um covarde, inútil, traidor.

A sua culpa do passado não vai proteger a Ária, Fred. Só vai te impedir de viver as alegrias

que ainda estão por vir.” Franzi o cenho, confuso. “Laura não escolheu morrer enquanto

você está escolhendo não viver.” Ela se levantou e caminhou até a porta, mas antes de sair,

virou-se uma última vez. “Preciso ir. Não quero mais te ver com pena de si mesmo. Como

você disse, tenho um casamento para organizar.”

A porta se fechou com um clique suave, me deixando sozinho com meus

pensamentos em ebulição. Pela primeira vez, depois de muito tempo, a vontade de tentar

viver um relacionamento, era maior do que o medo de falhar. Mas se eu falhar, quem paga o

preço mais alto é ela.

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