Mundo ficciónIniciar sesiónAjustei a posição na cadeira de couro do meu escritório, sentindo uma pontada na
perna ainda em recuperação. Os papéis espalhados sobre a mesa de mogno pareciam borrados diante dos meus olhos, as palavras dançando sem fazer sentido. Fazia uma semana que não conseguia me concentrar direito no trabalho, uma semana desde que havia voltado daquele maldito hospital, uma semana desde que não via Ária. O beijo. Aquele beijo não saía da minha mente nem por um segundo sequer. Ainda conseguia sentir o gosto dos lábios dela, a suavidade da pele, o modo que ela havia se entregado ao momento. Depois, aquela expressão que eu não conseguia decifrar. Por que diabos eu havia feito aquilo? Comigo ela estaria sempre em perigo. No dia seguinte, quando acordei no hospital, foi Sofia quem encontrei ao lado da minha cama, não Ária. “Cheguei bem cedo e liberei Ária. Me desculpe por não ter vindo ontem, mas eu sabia que você ficaria bem com ela.” Ela havia explicado com naturalidade. “Ela parecia ter pressa para ir embora.” Pressa para fugir de mim, é claro. Talvez ela tivesse percebido o perigo que representava estar próxima a mim. Isso é o melhor a ser feito. Não contei sobre o beijo para Sofia, mas minha irmã tinha aquele jeito peculiar de perceber as coisas sem precisar de explicações. E ali estava ela, sentada na poltrona em frente à minha mesa como se fosse dona do lugar, os braços cruzados e aquela expressão determinada que eu conhecia desde a adolescência. Sofia nunca visitava minha empresa, nem mesmo quando precisava dos meus serviços. Mas hoje havia aparecido sem avisar, dispensado minha assistente e se instalado ali com a clara intenção de não sair até que dissesse tudo o que veio dizer. Droga! Eu conheço esse olhar. “Você não tem um casamento para planejar?” Ela continuou me encarando. “Vai ficar me encarando o dia todo ou vai começar logo o sermão? Se você tem tempo livre, eu não tenho.” Me recostei na cadeira, cruzando os braços em uma postura defensiva e espelhada a dela. Sofia suspirou, uma mistura de exasperação e carinho no gesto. “Idiota. Imbecil. Você está sendo um idiota, Frederico.” Ela sabe o quanto eu odeio quando falam meu nome inteiro. “Direto ao ponto, como sempre. De que porra você está falando?” Me fiz inocente. Mas eu sabia. Claro que eu sabia. “Ária. Do jeito que você se esconde atrás dessa mesa, sempre trabalhando, enterrado em papéis, quando não está levando tiros por aí, fingindo que não aconteceu nada.” Senti meu corpo enrijecer. “Ainda não faço ideia sobre o que está falando.” “Claro que faz.” Ela se inclinou para frente, os olhos castanhos brilhando com determinação. “Eu vi como vocês se olhavam na minha festa de noivado. Depois do nada ela te acompanha até o hospital, dispensa a Sônia pra ficar com você. Sim, a Sônia me contou. Também percebi como Ária estava afetada naquela manhã. Ela é sempre tão controlada, mas não naquele dia.” “Sofia…” “Não me interrompa.” Ela levantou a mão. “Você gosta dela. É óbvio para qualquer pessoa com dois olhos na cara. E, pelo que pude perceber, ela também gosta de você. Vocês são dois problemáticos, bem parecidos. Ela com aquele ex marido sempre aprontando e você…” Desviei o olhar, focando na vista da janela atrás de Sofia, mas as palavras dela ecoavam na minha mente como um eco doloroso. Gostar, não sei se é isso o que eu sinto por ela. Acho que o que eu sinto vai além disso, e é isso que me apavora. Sou um perigo pra ela. “Não é tão simples assim.” Murmurei. “Por quê?” A voz de Sofia ficou mais suave, porém não menos incisiva. “Porque você ainda se culpa pelo que aconteceu com Laura.” O nome do meu primeiro amor me atingiu como uma punhalada no peito. Fechei os olhos por um momento, mas não consegui afastar as memórias. Laura rindo no restaurante naquela última noite. Ela pegando minha mão enquanto caminhávamos pela calçada. O estampido do tiro. O sangue. Seus olhos se fechando para sempre nos meus braços. “Sofia, por favor…” “Não, Fred. Já passou da hora de alguém te dizer isso.” Sofia se levantou e começou a andar de um lado para outro em frente a minha mesa, as mãos gesticulando enquanto falava. “ Laura foi assassinada, Fred. Foi terrível, foi injusto, foi uma tragédia. Mas não foi sua culpa.” “Aquele tiro era pra mim!” As palavras saíram como um rugido desesperado, carregadas de toda a culpa que eu carregava como uma pedra no peito. “Era pra mim, Sofia! Por causa do meu trabalho, das pessoas que contrariei, dos inimigos que fiz. Laura morreu no meu lugar!” Sofia parou abruptamente, os olhos se enchendo de compaixão. “Você não sabe disso.” “Eu sei, porra!” Bati o punho na mesa, fazendo os papéis voarem. “Laura estava comigo e pagou por estar ao meu lado. Ela era o meu ponto fraco.” O silêncio que seguiu foi ensurdecedor. Sofia me olhava com uma mistura de tristeza e frustração, e eu senti como se todas as emoções que havia reprimido depois de tanto tempo estivessem explodindo ao mesmo tempo. “É por isso que você não pode ficar com Ária? Ela nem sabe de nada. Sabe por quê? Porque você não deu chance pra ela escolher se vale a pena correr algum risco por você.” Sofia disse suavemente. Engoli seco, sentindo minha garganta seca como lixa. “Escuta o que você está dizendo, minha irmã. Eu não posso colocar Ária em perigo. Não posso assistir outra pessoa morrer por minha causa.” “Fred…” Sofia voltou a sentar, desta vez inclinando-se para frente com os olhos cheios de lágrimas. “Você tem certeza de que aquele tiro era pra você? A polícia nunca encontrou evidências disso.” “A polícia nunca encontrou evidência de nada!” Explodi novamente. “O atirador nunca foi pego, nunca descobriram o motivo, nunca…” Minha voz falhou. “Mas eu sei, Sofia. No fundo do meu coração, eu sei que Laura morreu porque estava comigo.” “E se você estiver errado?” Ela perguntou gentilmente, com a voz chorosa. “E se foi um caso de violência urbana aleatório. Não seria o primeiro nem o último.” Balancei a cabeça violentamente. “Não posso arriscar. Não com Ária. Não sobreviveria se algo acontecesse com ela também.” “Você está vivendo agora?” Sofia perguntou, e a simplicidade da pergunta me atingiu como um soco. “Porque pelo que eu vejo, você morreu naquela calçada junto com Laura. Só esqueceu de se enterrar.” Senti como se ela tivesse arrancado todas as minhas defesas de uma vez. Porque ela não está de todo errada. Eu apenas existia, passando os dias numa névoa de culpa e medo. “Eu vi como você estava no dia da festa. Havia algo diferente em você, Fred. O jeito que olhava pra ela…” Sofia continuou com a voz embargada. “Você conseguiu se divertir, Fred. Estava mais leve, falante.” Era verdade. Ária tinha um efeito em mim, que eu não sabia como descrever. Parecia bem próximo do que Sofia havia descrito. “E se eu a perder também?” A pergunta saiu como um sussurro quebrado. “E se nada disso acontecer?” Sofia retrucou. “E se você desperdiçar a chance de ser feliz de novo por medo de algo que pode nunca acontecer. E se você passar o resto da vida sozinho e descobrir que estava errado sobre tudo? Você é o Frederico Almeida, o grande Fred que protege todo mundo. Que me manteve segura quando eu estava em perigo. Você construiu esse império.” Ela gesticulou olhando em volta. “Faça o seu melhor e mantenha nossa Ária segura, também.” Olhei pras minhas mãos, notando como elas tremiam. Mesmo assim, eu não fui capaz de proteger a Laura. Aquela emboscada que sofri, o tiro, a infecção foram lembretes de como a vida podia mudar de uma hora para outra. Lembrete de que eu não tinha controle sobre tudo. “Fred…” Sofia se levantou e veio até mim, colocando as mãos nos meus ombros. “Laura se foi. Eu sei que dói, que você sente a culpa do sobrevivente. Mas você não pode honrar a memória dela desperdiçando sua vida.” Levantei os olhos para encontrar o olhar compreensivo da minha irmã. “Talvez a vida não seja tão generosa com você no futuro.” Ela continuou. “Talvez essa seja sua única chance real de viver um novo amor. Você vai deixá-la passar?” “Ela saiu correndo, Sofia. Depois que a beijei, ela saiu correndo. Talvez seja melhor assim.” Murmurei com a voz embargada. “Eu sabia!” Ela bateu a mão sobre a mesa. “Talvez ela precise saber que você está disposto a lutar por vocês dois, afinal de contas ela já viveu com um covarde, inútil, traidor. A sua culpa do passado não vai proteger a Ária, Fred. Só vai te impedir de viver as alegrias que ainda estão por vir.” Franzi o cenho, confuso. “Laura não escolheu morrer enquanto você está escolhendo não viver.” Ela se levantou e caminhou até a porta, mas antes de sair, virou-se uma última vez. “Preciso ir. Não quero mais te ver com pena de si mesmo. Como você disse, tenho um casamento para organizar.” A porta se fechou com um clique suave, me deixando sozinho com meus pensamentos em ebulição. Pela primeira vez, depois de muito tempo, a vontade de tentar viver um relacionamento, era maior do que o medo de falhar. Mas se eu falhar, quem paga o preço mais alto é ela.






