6 Ária - Quando Você Dormia

Auxiliada por Sônia e o motorista de Fred, nós o levamos ao hospital, mesmo ele se

recusando a admitir que precisava de cuidado. Era a primeira vez que eu via a Sônia, uma

mulher madura, de poucos sorrisos, mas extremamente educada. Ela se apresentou como

assistente pessoal de Fred.

Depois de algum tempo de espera, o médico finalmente nos deu o diagnóstico.

Infecção. Fred havia deixado o hospital precipitadamente após a cirurgia para retirada do

projétil, e agora pagava o preço por sua teimosia. Precisaria ficar internado para receber

antibióticos intravenosos e ter a ferida devidamente tratada.

“Obrigada, Sônia.” Disse quando ela se ofereceu para ficar. “Pode ir descansar. Eu

fico com ele.” Ela hesitou por um momento, seus olhos me estudando com cuidado. Ela,

finalmente, se convenceu. Pegou um cartão com seu contato e me entregou.

“Qualquer coisa me ligue.” Então se foi, deixando-nos sozinhos no quarto silencioso

do hospital. Agora aqui estou eu, observando Fred dormir. Os medicamentos haviam, por

fim, tido efeito e ele parecia mais tranquilo, a respiração mais regular.

O soro gotejava lentamente cada gota carregando a promessa de sua recuperação.

Me aproximei da cama e quase sem perceber, estendi a mão até seus cabelos. Estavam

um pouco úmidos pelo suor produzido pela febre. Passei os dedos entre os fios castanhos

escuros e senti algo estranho acontecer, um calor que começou no peito e se espalhou pelo

resto do corpo como uma onda morna. Retirei a mão rapidamente, como se tivesse

queimado.

o que estava acontecendo comigo? Não era isso que eu queria, não era isso que eu

havia planejado. Uma relação amorosa definitivamente não fazia parte dos meus planos.

Fazia? Não. Não faz parte de plano nenhum. E Fred… ele é imprevisível, perigoso, um

enigma que ainda não consigo decifrar.

Contudo, ele está tão vulnerável agora, adormecido enquanto algo dentro de mim se

derrete. Meus escudos de proteção tão bem erguidos depois do meu divórcio. Balancei a

cabeça tentando afastar os pensamentos inconvenientes. Precisava me distrair. Arrastei a

poltrona reclinável para mais perto da cama e me acomodei nela, procurando meu Kindle na

bolsa. Talvez, a leitura me tire dessa espiral de confusão mental.

Abri o livro no ponto de onde havia parado - uma história sobre uma mulher forte que

nunca se deixava levar pelos sentimentos. Que ironia! Tentei me concentrar nas palavras na

tela, mas meus olhos teimando em desviar para o homem na cama.

“Concentre-se, Ária!” Murmurei pra mim mesma, forçando o olhar de volta para a

tela. Mas era inútil. Mesmo fingindo ler, toda minha atenção estava voltada para ele, para o

som de sua respiração suave, para a forma como os seus cílios longos e escuros faziam

sombra em suas bochechas, para o jeito como ele ocasionalmente franzia o cenho mesmo

dormindo.

Estou em território perigoso, e pela primeira vez em muito tempo não tinha a menor

ideia de como encontrar uma saída segura. Mas a tentação era mais forte que a minha

força de vontade. Deixei o kindle de lado e me aproximei novamente da cama. Desta vez,

permiti que meus dedos percorrerem seus cabelos com mais liberdade, sentindo a textura

sedosa dos fios. Um gesto íntimo demais para alguém que teoricamente é apenas… o quê?

Foi então que notei. Um sorriso sutil curvou os lábios de Fred, tão leve que quase

pensei ter imaginado. Meu coração disparou. Ele estava acordado? Ou apenas sonhando?

Seus olhos continuaram fechados, a respiração ainda regular, mas havia algo diferente em

sua expressão. Retirei a mão abruptamente, como se tivesse sido pega em flagrante.

Nesse exato momento, Fred abriu os olhos, ainda embaçados pela febre. Porém,

havia algo mais neles, uma intensidade que me fez engolir seco.

“Ária.” Meu nome saiu de seus lábios como um sussurro rouco.

“Como você está se sentindo?” Perguntei, tentando soar casual enquanto dava dois

passos para trás. Talvez a distância pudesse amenizar a tensão que imediatamente se

instalou no quarto. Ele me estudou por um momento longo demais, seus olhos febris

percorrendo meu rosto com uma atenção que fez meu rosto queimar.

“Melhor agora.” Ele respondeu com um tom de voz que fez meu estômago dar

cambalhota. “Não precisava ter ficado.”

“Alguém precisava garantir que você não fugisse do hospital novamente.” Cruzei os

braços tentando recuperar minha compostura habitual. “Aparentemente, você tem o

péssimo hábito de ignorar ordens médicas.” Um belo sorriso surgiu em seus lábios.

“Está me repreendendo, enfermeira?”

“Não brinque comigo, Fred. Você podia ter morrido.” O sorriso dele desapareceu, e

por um momento, a vulnerabilidade apareceu novamente, mas desta vez ele estava

acordado.

“Você se importa?” A pergunta me pegou desprevenida. Claro que eu me importo.

Mais do que deveria, presumo. Mais do que é seguro, inclusive.

“Claro que me importo se alguém morre!”

“Alguém.” Ele repetiu a palavra, havia uma nota de sarcasmo em seu tom.

“Fred…” Tentei me explicar, porém, as palavras não colaboraram.

“Obrigado.” Ele falou sério. “Por ficar. Por cuidar de mim. Eu sei que não deveria…”

“Não deveria o quê?” Ele me olhou por um longo momento, como se estivesse

travando uma batalha interna.

“Não deveria querer que você ficasse.” O ar entre nós parecia carregado de

eletricidade. Eu sabia exatamente o que ele queria dizer, porque sentia a mesma coisa.

Aquela atração magnética que ambos tentávamos ignorar, aquela sensação que tornava o

simples ato de respirar no mesmo ambiente um desafio.

“Seu trabalho…” Comecei tentando me agarrar ao concreto. “É isso que te deixa

nesse estado?”

“Entre outras coisas.” Ele desviou o olhar. “Não é um mundo seguro, Ária.

Especialmente para pessoas que… se importam.”

“Está me avisando para manter distância?”

“Estou tentando.” A honestidade crua em sua voz me atingiu como um soco. “Mas

aparentemente não sou muito bom nisso.” Ri, um som sem humor.

“Bem-vindo ao Clube, Frederico.” Ele sacudiu a cabeça em negativa quando

pronunciei o nome inteiro. Parecia irritado.

“Mas está aqui.”

“Sim. Infelizmente.” Revirei os olhos

”Infelizmente.” Ele repetiu sem olhar na minha direção.

“O que você quer ouvir, Fred?” Minha voz saiu mais alta do que eu gostaria.

“Nada. Estou procurando uma razão pra mandar você embora antes que isso…” Ele

gesticulou vagamente. “… saia do controle.”

“E se eu não quiser ir embora?” Os olhos dele escureceram ainda mais.

“Então estamos muito fodidos. Porque eu também não quero que você vá.” Aquelas

palavras pairaram no ar, carregada de todas as possibilidades não ditas, todos os desejos

que tentávamos suprimir. Senti minha respiração acelerar, e pela expressão no rosto de

Fred, não passou despercebido. “Ária, pare de me olhar assim.”

“Como eu estou te olhando?”

“Como se quisesse fazer coisas que nenhum de nós deveria estar pensando em

fazer.” Engoli seco. Tentei não me mostrar afetada pelas palavras dele.

“E se eu estiver?” Ele fechou os olhos por um momento, como se estivesse reunindo

forças.

“Então, você é mais perigosa do que qualquer tiro que eu já levei.”

“É melhor você descansar. Vou ligar pra sua irmã. Avisar que você está aqui e

quando ela chegar, vou embora. É melhor assim.” Esperei que ele dissesse alguma coisa

que me impedisse de ligar pra Sofia. Que ele me pedisse pra ficar, mas ele só olhou na

direção oposta.

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