5 Fred - Desisto

O jato particular cedido pelo meu cliente pousou sob um céu cor de chumbo, as

nuvens carregadas prometendo uma tempestade que eu podia sentir ecoar em meu peito.

Eu não estava feliz de necessitar de uma cadeira de rodas para chegar até o carro

que me esperava . Respirei fundo, meus dedos apertando os braços da cadeira como que

para afastar a incômoda lembrança da emboscada que havia sofrido. A perna esquerda

latejava sob as faixas, mas era o vazio no peito e a lembrança de Ária que doíam mais.

Os assistentes me ajudaram até o carro, mas quando a porta se abriu, ergui a mão.

“Deixa.” Minha voz saiu áspera, como se tivesse engolido areia durante o voo. Com a

bengala de ébano em punho, me levantei, ignorando a facada de dor que subia pela perna.

Cada passo até o banco traseiro do carro foi uma batalha, mas eu precisava sentir-me dono

do meu próprio corpo outra vez.

Dentro do carro o silêncio foi quebrado pelo zumbido do celular ligado após um mês

de escuridão. A tela explodiu de notificações de clientes, de amigos, de Sofia e dela, Ária.

As primeiras eram perguntas sobre onde eu estava, o motivo do meu silêncio, depois,

preocupação disfarçada de irritação, “Pelo menos me diz se você está bem.” A última, uma

facada de uma palavra só: “Desisto.”

Engoli seco e tomei alguns goles de água de uma garrafa que minha assistente

Sônia me deu, atenta como sempre. Em seguida, ela me entregou um relatório.

“O ex-marido de Ária apareceu algumas vezes e os rapazes precisaram intervir.”

“No bar ou na casa dela?” Perguntei lendo as primeiras linhas do relatório.

“No bar. Ela não se deu conta da escolta.”

“Melhor assim. Vamos para o bar. Ela já deve estar lá.”

“Fred, sua perna. Não é melhor você ir pra sua casa, antes?” Tirei meus olhos do

relatório e a encarei sem precisar responder sua pergunta. Ela deu a ordem ao motorista.

Nem lembrei do que estava vestindo, um moletom largo o bastante para me deixar

confortável durante o voo e não apertar minha perna enfaixada e recém-operada.

A chuva começou a bater no vidro quando o carro parou na rua de paralelepípedos.

O bar ainda estava fechado, as luzes externas apagadas. Olhei para outro lado da rua e

observei o carro preto estacionado. O motorista abaixou o vidro e me cumprimentou com a

cabeça.

A porta do bar rangeu quando a abri. Dois funcionários arrumavam as mesas,

encostando as cadeiras com um barulho seco que ecoava no salão vazio. Acenei com a

cabeça evitando olhares. Meus dedos suavam em volta da bengala, a perna esquerda

pulsando como o projétil ainda estivesse ali, enterrado no músculo. Uma pontada de dor a

cada passo.

O corredor do escritório parecia ter quilômetros. A porta entreaberta deixava escapar

um filete de luz quente e o som de teclas batendo rápido. Ela digitava rápido como se o

teclado lhe devesse dinheiro. Encostei na moldura, antes de empurrar a porta. Ária estava

curvada sobre a mesa, os cabelos caídos como uma cortina sobre o rosto. A blusa larga

escorregava de um ombro, revelando a curva do seio que me forcei a não encarar. Quando

ela ergueu os olhos, o queixo trincou.

“Fred.” Meu nome saiu como um suspiro. Ela levantou tão rápido que a cadeira

quase caiu. Os olhos verdes percorreram meu corpo, o moletom, a bengala, a perna

imobilizada e uma ruga de preocupação furou sua testa.

“O que aconteceu com você?”

“Trabalho.” Resmunguei, entrando e fechando a porta com mais força do que

deveria, sendo tomado imediatamente pelo perfume dela.

“Um mês sem uma palavra, e você aparece assim?” A voz dela trêmula, mas as

mãos se apertaram na cintura. “Pensei que…”

A última mensagem dela queimava na minha mente. Desisto. Avancei alguns

passos, a perna gritando.

“Seu ex tentou invadir o bar mais de uma vez enquanto eu estive fora.” Falei

precipitadamente.

“Como você sabe disso?” Ela sacudiu a cabeça. “O que aconteceu com a sua perna.

Você parece estar com dor.” Ignorei e prossegui.

“Coloquei uma escolta te seguindo. Você nunca notou, né?” Dei mais uma passo na

direção dela encurtando o espaço entre nós. Ela riu sem parecer muito feliz.

“O que eu sou? Uma mocinha desprotegida? Seu novo projeto? Você some depois

de quase me… Não responde nenhuma mensagem, agora chega aqui mancando como se

fosse meu guardião? Quem te pediu isso?”

Passei a mão pelos cabelos. A bengala escorregou no chão e meu corpo pendeu

para frente. Ela esticou os braços instintivamente me amparando. Seus dedos fechando nos

meus braços. Senti seu toque queimar na minha pele. Paramos. A respiração dela acelerou.

Os lábios entreabertos. Quase a puxei contra mim para sentir aquela raiva toda colada no

meu peito, transformando aquela briga boba em outra atividade mais prazerosa. Mas seus

olhos baixaram para a minha perna enfaixada sob o moletom e o momento acabou. Ela me

empurrou até o sofá na lateral do escritório e deixei um gemido de dor escapar enquanto

sentava. Ela se sentou ao meu lado, suas pernas bem torneadas à mostra, as coxas

cobertas por um short jeans.

“Vai passar a noite toda assim?” Meus olhos não conseguiam se desgrudar de suas

pernas nuas. Ela revirou os olhos e ignorou minha pergunta.

“O que aconteceu, Fred?” A voz dela era suave, quase um acorde.

“Alguns homens queriam meu cliente morto. Eu sobrevivi. Ele também. Fim da

história.” Meu polegar moveu-se sozinho, esfregando o pulso dela antes que eu pudesse

parar. “Não vim falar disso, Ária. Você precisa pedir uma ordem de restrição contra o seu

marido.” Ela puxou a mão.

“Por que se importa tanto?”

“Porque ele não vai parar.” Na verdade, o que eu queria dizer é que a cada noite

naquele bar eu ficava observando cada detalhe dela, do sorriso até uma pinta no pescoço

que aparece sempre que ela vira de lado. O silêncio ficou pesado entre nós. Seus dedos

apertaram meu braço, migrando para o cotovelo, depois o ombro e subiu até o meu rosto.

“Você está com febre, Fred.”

“Estou com dor. O esforço foi grande. Não é nada de mais.” Minha febre era outra.

Um desejo estúpido de enterrar a cara na curva daquele pescoço, morder com força até

arrancar um gemido dela.

“Você precisa de um médico.”

“Preciso que você não morra, Ária!” A frase saiu mais áspera do que eu esperava.

Ela soltou um som entre o riso e o choro.

“Você é um idiota, Fred. Um que precisa de um médico.” Puxei-a para perto de mim,

ou foi ela que se inclinou? Não importava. Nossas testas se tocaram, o mundo se reduzindo

ao cheiro dela, ao gemido sufocado que escapou de sua garganta quando subi minha mão

por sua perna.

“Pede a ordem.” Sussurrei contra seus lábios, sem me importar se era um ultimato

ou uma súplica.

“Depois resolvemos isso. Agora, vou te levar pra casa e chamar um médico."

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