4 Ária - O quase Beijo

O silêncio do meu escritório é quase acolhedor nesta tarde de domingo. Uma chuva

fina tamborila contra a janela enquanto eu olho para o documento aberto no meu laptop

sem realmente vê-lo. Meus dedos repousam imóveis sobre o teclado há quase vinte

minutos. Tento me concentrar no trabalho, mas é inútil. Minha mente insiste em voltar para

duas semanas atrás, para aquela dança, para Fred.

O arquivo que deveria revisar fica intocado, em vez disso, deixo-me levar pela

lembrança, como se fosse uma música que não consigo parar de ouvir.

“Última dança?”

“Eu não danço.”

“É só me acompanhar.”

Nossas mãos se encontraram e ele me puxou pra junto do seu corpo. Metálica era

uma escolha inesperada para o momento, talvez para qualquer momento, mas de alguma

forma também era estranhamente perfeita.

“Não sabia que era fã de rock.” Um sorriso espontâneo se formou em meus lábios.

“Há muitas coisas sobre mim que você desconhece, Ária.” Meu nome soava nem

mais bonito quando era pronunciado por esse arrogante. Ele me envolvia pela cintura,

enquanto sua mão direita segurava a minha , nossos braços semi flexionados. A música

preenchia o espaço ao nosso redor. Eu seguia seus passos surpresa com a naturalidade

com que ele conduzia.

“Onde aprendeu a dançar assim?” Perguntei enquanto ele me guiava em

movimentos suaves que nem de longe combinavam com a reputação rígida e formal que

Fred fazia questão de manter.

“Minha avó insistia em me dar aulas sempre que eu ficava em sua casa. Eu odiava.

Achava uma perda de tempo, mas ela dizia que um dia eu seria grato.”

A música nos envolvia e gradualmente, sem perceber, nos aproximamos mais. O

espaço entre nossos corpos diminuiu até que eu pude sentir o calor emanando dele, assim

como seu perfume habitual inebriante. Sua mão em minha cintura parecia queimar através

do tecido fino do meu vestido.

“Você está linda… você é linda.” Sua voz era quase um sussurro. Senti meu rosto

esquentar. Fred nunca havia sido tão direto assim. Nossas poucas conversas eram sempre

intensas, acaloradas, mas não íntimas.

“Você também não está nada mal.” respondi mantendo meus olhos no ponto onde

sua camisa estava desabotoada. Um grande erro, certamente. Ele riu e pude sentir a

vibração em seu peito. Levantei o olhar para encontrar seus olhos. Outro erro. Havia algo

neles, uma vulnerabilidade, um desejo mal contido que fez meu coração acelerar. A música

parecia ter se intensificado, ou talvez fossem apenas meus sentimentos em alerta máximo.

Podia sentir sua respiração em meu rosto, contar as pequenas linhas que se formavam no

canto de seus olhos quando sorria.

A música estava chegando ao fim, aquele solo de guitarra que parecia falar

diretamente ao coração. Nossos passos diminuíram até que ficamos parados no meio do

salão, apenas balançando suavemente no mesmo lugar. Seus olhos nunca deixaram os

meus enquanto sua mão subia pelas minhas costas. Podia sentir cada batida de seu

coração contra o meu peito sincronizado com o meu próprio, que se esforçava para não

escapar pela garganta.

A música acabou e outra que eu não consegui prestar muita atenção começou. O

tempo desacelerou enquanto Fred inclinava-se lentamente, seus lábios a poucos milímetros

dos meus. Fechei os olhos antecipando o contato, cada nervo do meu corpo em combustão

silenciosa. Mas ele parou. Senti sua hesitação como uma onda fria, abrindo meus olhos

para encontrar os dele, agora tomados por um conflito que eu não pude compreender. Ele

se afastou embora ainda me mantivesse em seus braços.

“Ária…” Ele começou, sua voz rouca e fraca. Vi seu pomo de adão subir e descer

quando engoliu seco. Mas o silêncio falou mais forte. O momento se estendeu entre nós

como um fio de seda prestes a romper-se. Então, como se tivesse tomado uma decisão

dolorosa, ele se afastou mais um passo, suas mãos deslizando pelos meus braços e

finalmente me soltando.

“Eu preciso ir.” Ele disse finalmente, como o Fred de sempre. “Tenho uma viagem de

trabalho pela manhã.” A decepção me atingiu como um golpe físico. Tentei não demonstrar

forçando um sorriso.

“Claro! Eu entendo.” Respondi tentando manter o sorriso e a normalidade. Mas eu

não entendia. Não entendia porque ele havia criado esse momento entre nós apenas para

recuar no último segundo. Não entendia o que havia visto em seus olhos, desejo

certamente. Mas havia algo mais como… medo?

Ele se inclinou e me beijou na face. Seus lábios permanecendo ali mais do que seria

apropriado para uma simples despedida entre meros conhecidos.

“Vamos ficar um tempo sem nos ver.” Ele murmurou contra minha pele antes de se

afastar. “Estarei fora do país por algum tempo.” Respirei fundo e assenti, incapaz de formar

palavras coerentes. Ele tomou minhas mãos e as apertou como se fosse doloroso se

afastar. Guardou seu celular, um silêncio ensurdecedor se formou.

“Boa noite, Ária!” Ele disse já se afastando em direção à saída. “Foi… perfeito.”

Fiquei parada, assistindo-o ir embora, as palavras presas em minha garganta. Levei

os dedos aos lábios, como se pudesse sentir aquele quase beijo.

O barulho de batidas na porta me arranca de minhas recordações.

“Pago o que você quiser pra descobrir o que você está pensando. Sua cabeça

estava bem longe daqui.” Sofia se aproxima da mesa e se senta à minha frente. Gabriel

está lá com seu avô e eu achei que a gente podia jogar conversa fora.” Sorri, ainda meio

perdida.

“Claro! Fez bem em vir. Quer beber alguma coisa?”

“Não. Quero saber se esse olhar perdido tem alguma coisa com meu irmão Fred.”

Me remexi na cadeira surpresa com a pergunta. Gaguejei sem conseguir formar uma frase

que fizesse sentido. Desisti quando ouvi a gargalhada de Sofia.

“Nem precisa dizer mais nada. Já entendi tudo. Os olhos do meu irmão ficaram em

você o tempo inteiro durante a festa.”

“Você estava ocupada demais, ficando noiva e cumprimentando pessoas para

perceber qualquer coisa. Isso é produção da sua cabeça imaginativa.” Saí por um momento

do escritório e pedi dois mojitos pra gente. Quando voltei, me sentei no sofá na lateral do

escritório e Sofia fez o mesmo. Ela sacudiu a cabeça balançando o dedo indicador de um

lado para o outro.

“Nada disso. Gabriel também percebeu.”

“E se fosse verdade. O que você pensaria sobre isso?” Sofia me olhou com

curiosidade, com um sorriso ainda maior em seu rosto. Um garçom entrou chamando a

nossa atenção. Ele colocou as bebidas sobre a mesinha em frente ao sofá. “Obrigada.”

Agradeci e logo estávamos sozinhas novamente. Tomei um gole da bebida e devolvi o copo

à mesa.

“Não há nada.” Olhei nos olhos dela. “Não há nada entre nós, pode ter certeza. Nem

vejo seu irmão desde o seu noivado. Não nos falamos. Não trocamos mensagens. Nada.”

“Me parece que você está um pouco ressentida.” Foi a vez dela beber. “Ele está

trabalhando. Também não falo com ele desde o meu noivado. Ele trabalha com segurança

privada e às vezes isso pode ser um pouco complicado. Já pedi pra ele não participar disso

pessoalmente. Ele deveria só administrar o negócio. Beto também já pediu pra ele não se

arriscar, mas ele é teimoso demais.” Me assustei com o que ela estava revelando.

“Ele está em perigo?” Talvez eu tenha perguntado um pouco alto demais. Sofia

voltou a sorrir enquanto bebia mais um pouco. “ Não tire conclusões precipitadas, Sofia.”

“Você sabe que ele não é meu irmão de sangue?” Ela perguntou. Dei toda minha

atenção pra ela, mas não respondi. Gabriel havia me contado alguma coisa, mas não quis

colocar meu amigo em dificuldade. “Ele é irmão biológico de Beto. Minha mãe casou com o

pai deles e meio que me sequestrou enquanto chantageava o meu pai para conseguir a

minha guarda. Meus pais nunca deram a mínima pra mim. Mas assim que inflei meus

pulmões ao nascer, me tornei um CPF valioso. Vou te poupar dos detalhes sórdidos. Tudo

tem um lado bom e a vantagem nessa história sórdida foi ganhar dois irmãos. Fred e Beto

salvaram minha existência e minha adolescência. Eles também não tinham um pai muito

amoroso. Fred tinha tudo pra ser revoltado. Ele sofria bullying em casa e na escola. Mas ao

invés disso, ele se tornou um protetor. Ele sempre quer cuidar de todos, resolver os

problemas do mundo… e por isso, foi magoado por muitas pessoas.” Ela segurou minha

mão. “Ele percebe o mundo de uma forma só dele. É super inteligente ao ponto de se tornar

irritante e ergueu uma muralha ao seu redor para se proteger.” Ela bebeu o resto do drink.

“Na verdade, vocês são muito parecidos.”

Eu não sabia o que dizer. Preferi ficar em silêncio enquanto tomava o resto do meu

mojito.

“Vocês já escolheram a data do casamento?” Resolvi mudar de assunto. Ela sorriu

percebendo minha intenção.

“Não. Mas não vai demorar. Você vai ser minha madrinha. Eu sei que você é mais

amiga de Gabriel…”

“Tenho certeza que ele não vai se incomodar com o lado do altar que eu vou estar.

Vai ser uma honra ser sua madrinha de casamento. Mas por favor, não me faça vestir nada

muito bufante.”

Nós rimos. Ficamos conversando por quase duas horas sobre os planos para o

casamento, até que Gabriel apareceu para buscá-la.

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