Mundo de ficçãoIniciar sessãoMarina voltou ao provador em silêncio, mas dessa vez havia uma decisão dentro dela. O segundo vestido era bonito, elegante e chamativo, mas não havia despertado nada além de admiração. Era como olhar uma obra de arte perfeita, mas sem sentir aquela emoção que fazia o coração reconhecer algo especial.
Ela retirou o vestido com cuidado e entregou à atendente.
— Acho que ainda não encontrei o meu vestido. Sinto que o próximo será aquele certo. — disse Marina, sorrindo.
A atendente concordou.
— Vamos tentar mais um. Vestidos é o que não falta por aqui. Às vezes o vestido perfeito é aquele que encontra a noiva, e não o contrário. — respondeu a atendente.
Poucos minutos depois, ela retornou segurando outro modelo.
Mas, dessa vez, algo foi diferente.Antes mesmo de vestir, Marina sentiu.Seus olhos brilharam ao ver o vestido.Era difícil explicar.Parecia que aquela peça carregava uma história esperando para fazer parte da sua.A renda fina desenhava o busto com delicadeza, as mangas suaves davam um toque romântico e a saia leve parecia flutuar, como se tivesse sido criada para acompanhar cada passo dela até o altar.
Marina passou a mão pelo tecido.Um arrepio percorreu seu corpo.
— Vamos experimentar este. — disse Marina, com um sorriso tímido.
A atendente levou o vestido até o provador.Do lado de fora, Gorete cruzou os dedos.
— Esse é o escolhido. Estou sentindo. — disse Gorete, convencida.
Lúcia apenas sorriu.Ela conhecia a filha.
Sabia que Marina não escolheria apenas pela beleza.Ela escolheria pelo sentimento.Pelo significado.Pelo momento.Alguns minutos depois, a cortina abriu.
E Marina apareceu.Por alguns segundos, ninguém falou nada.O tempo pareceu parar.
O vestido se encaixava perfeitamente nela. A renda destacava sua delicadeza, a saia caía suavemente e havia uma luz diferente no rosto de Marina.Não era apenas uma mulher usando um vestido.Era uma noiva vendo o próprio futuro diante do espelho.Gorete levou a mão à boca.
— Meu Deus! — sussurrou Gorete, emocionada.
Lúcia ficou imóvel.Seus olhos se encheram de lágrimas.Não eram lágrimas de tristeza.Eram lágrimas de lembranças.Naquele instante, ela voltou no tempo.Lembrou-se do próprio casamento.Do vestido que usou.Do homem que segurou sua mão naquele dia.Do amor que viveu e das memórias que permaneceram mesmo depois da despedida.
— Marina... é esse. — disse Lúcia, com a voz embargada.
Marina virou lentamente diante do espelho.Passou os dedos pela renda.Respirou fundo.E então sentiu.Uma certeza tranquila tomou conta dela.Seu coração havia escolhido antes mesmo de sua boca dizer.
— É esse... — murmurou Marina.
Gorete começou a bater palmas.
— Eu sabia! Eu sabia que seria esse! — disse Gorete, sorrindo.
Marina sorriu, mas seus olhos também estavam cheios de lágrimas.
Ela caminhou até a mãe.
— Mãe...
Lúcia segurou as mãos da filha.
— Seu pai ficaria tão orgulhoso de ver você assim. — disse Lúcia, emocionada. — Você está exatamente como eu sempre sonhei.
Aquelas palavras tocaram um lugar profundo dentro de Marina.A saudade veio forte.Saudade do pai.Da infância.Dos dias em que a maior preocupação era uma brincadeira ou uma prova na escola.Ela abraçou a mãe com força.
— Obrigada por estar comigo nesse momento. — disse Marina, emocionada.
Lúcia fechou os olhos durante o abraço.Para ela, aquele momento valia mais do que qualquer riqueza.Gorete observou as duas e tentou quebrar a emoção.
— Se vocês continuarem assim, eu vou acabar chorando e minha maquiagem vai embora. — brincou Gorete.
As três riram.Mas nenhuma delas percebeu que, enquanto aquele momento de felicidade acontecia, outra história começava a ser escrita.
No escritório de George Castro, Vilma estava diante do pequeno espelho sobre sua mesa.
Retocava o batom lentamente.Seu olhar era diferente.Não havia insegurança.Não havia vergonha.Havia determinação.Ela encarava o próprio reflexo como alguém planejando cada movimento antes de agir.
— Agora começa. — murmurou Vilma para si mesma.
Ela fechou o espelho.Para Vilma, a rejeição de George não havia sido um fim.Era apenas um desafio.Ela nunca havia encontrado um homem que resistisse ao seu charme.Não estava acostumada a ouvir não.E, principalmente, não estava acostumada a perder.Ela levantou-se e caminhou até a sala de George.
Bateu na porta.
— Entre. — respondeu George.
Vilma entrou segurando uma pasta.
Mas naquele dia sua aparência tinha sido cuidadosamente pensada.O cabelo estava mais solto.A maquiagem destacava seus traços.A roupa era elegante, mas escolhida para chamar atenção.
Nada era por acaso.
— Senhor George, trouxe os documentos que pediu. — disse Vilma, aproximando-se.
George levantou os olhos.Percebeu imediatamente.Aquilo não era coincidência.
— Deixe sobre a mesa. — respondeu George.
Vilma colocou os papéis.Mas não saiu.Permaneceu próxima.
George fechou a expressão.
— Precisa de mais alguma coisa? — perguntou George.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Talvez uma opinião. — respondeu Vilma.
George suspirou.
— Sobre o quê?
Vilma fingiu olhar os documentos.Depois levantou os olhos lentamente.
— Sobre mim.
O silêncio tomou conta da sala.
George ficou sério.
— Isso não é apropriado, Vilma já te falei que não quero falar desse assunto ,entre eu e você além de profissionalismo não quero saber de mais nada..
Ela sorriu.
— Mas o que o senhor está imaginando? Nem sabe o que eu queria perguntar. — disse Vilma, tentando inverter a situação.
George não mudou a expressão.Ele conhecia aquele jogo.
— Seja qual for a sua intenção, minha resposta é a mesma. Eu sou um homem comprometido e respeito minha noiva. — respondeu George.
Por um instante, o sorriso de Vilma desapareceu, mas voltou rapidamente.
— Claro, senhor George. Peço desculpas se ultrapassei algum limite. — disse Vilma.
Ela saiu da sala.Assim que a porta fechou, seu rosto mudou.O sorriso educado desapareceu.Restou apenas a frieza.Ela havia recebido outra rejeição.Mas, ao invés de desistir, decidiu mudar de estratégia.George não seria apenas um homem que ela desejava conquistar.Ele havia se tornado um objetivo. Ela percebeu que ele era um homem fiel,só sobrava uma alternativa.
No ateliê, Marina já havia retirado o vestido escolhido.
Ela estava feliz.
Mas, enquanto olhava novamente para a peça guardada cuidadosamente, sentiu uma pequena inquietação.Um sentimento estranho.Difícil de explicar.Ela levou a mão ao peito.Não sabia o motivo.Era apenas uma sensação.







