Capitulo 10

Sammy — Dois meses depois.

Eu estava há mais de vinte minutos atrasada pra escola. Eu simplesmente não iria conseguir sair de casa com as duas espinhas enormes que haviam aparecido em ambas as bochechas. Eu sabia que espinhas iriam aparecer futuramente graças aos hormônios da gravidez, mas eu não sabia como iria me sentir. Meu rosto estava mais oleoso, com duas espinhas, eu estava sentindo minha barriga inchada e meus pés também. Minhas costas estavam doendo, os enjôos matinais estavam piores e as dores de cabeça também. Eu não era uma pessoa vaidosa, mas eu gostava sempre de estar me sentindo bem com minha aparência. E devo dizer, as malditas espinhas me tiraram esse bem estar.

Dois meses e alguns dias haviam se passado desde que me mudei para Chicago. Marcus e eu haviamos conversado pouco sobre nossa relação e mais sobre coisas de bebês. Tínhamos conseguido entrar em um clima mais amistoso. Ele não tocava em mim, obviamente, nem mesmo segurava minha mão. Claro que eu não esperava isso, mas caramba, teríamos um filho juntos. Deveríamos conseguir nos abraçar ao menos. Mas não, ele não ficava perto o suficiente. Na minha primeira ultrassom em Chicago, ele havia ido comigo. Eu estava nervosa e quando eu vi meu pequeno grão de feijão pelo aparelho, fiquei emocionada. Marcus não me consolou. Ele ficou lá ao meu lado, de braços cruzados enquanto olhava sem parar pro monitor. Ele estava tendo seu próprio momento, eu entendia. Era como se aquela imagem do bebê abrisse os olhos dele em um choque.

Ele estava indo mesmo ser pai. Teria alguém, pequenino, na vida dele que precisaria de seu amor, proteção e compromisso. Talvez isso fosse demais para ele e só estivesse envergonhado de me dizer. Mas eu não saberia dizer, já que não conversavamos tão bem. Em dois meses, saímos pra jantar três vezes e nas três vezes falamos sobre minha escola, sobre minha antiga vida em Manassas, sobre como eu e Branna nos tornamos melhores amigas e sobre nossas aventuras. Depois eu disse que não queria mais sair, estava me sentindo cansada demais. Então duas vezes por semana, ele ia jantar ou almoçar na minha casa. Já que teríamos um bebê e ele iria passar um tempo conosco, achei que seria uma boa começar a acostumar Benjamin com ele. Ficaria muito pesado para ele se acostumar com Marcus e um bebê ao mesmo tempo. Aquela era a solução mais lógica.

Marcus se propôs a cuidar do quarto do bebê, comprou o primeiro par de sapatinhos e o primeiro macacão. Brancos, já que não sabíamos o sexo do bebê. Eram as coisinhas mais fofas e pequenas do mundo. Minha barriga de três meses era pequena, mas estava ali. E eu não conseguia parar de tocar nela. Era algo que eu não tinha controle, eu só não conseguia parar de acariciar. E eu estava fazendo aquilo no momento, acariciando enquanto me olhava no espelho do banheiro. Sean entrou e se encostou na porta. Ele sorriu de leve.

— Meu sobrinho quer descansar, sabia?

Olhei pra ele pelo espelho e fiz biquinho.

— Tenho duas novas espinhas. — choraminguei e ele revirou os olhos.

— São quase inexistentes, Samantha.

— Não são.

— Eu tô indo pra oficina. Quer que eu diga algo ao Marcus?

Sean havia começado a trabalhar na oficina do Marcus há um mês. Marcus disse que estava precisando de braços novos e ele se ofereceu para ajudar. Duas semanas viraram um mês e Marcus pediu pra ele ficar permanente. Sean gostava de lidar com carros e essas coisas. Ele trabalhou na oficina do pai de um amigo em Manassas e aquilo era como uma terapia. Também começou a lutar na academia do Dylan e a frequentar a boate subterrânea do Evans.

— Não. — disse dando de ombros. O que eu poderia querer dizer a ele?, pensei comigo mesma.

— Tudo bem. — ele disse e puxou de leve uma mecha do meu cabelo. — Até mais tarde.

Lhe disse tchau e ele se foi. Saí do quarto depois e desci pra tomar o café da manhã. Papai havia conseguido comprar o espaço que ele queria, agora o lugar estava em obra e ele passava o dia lá para supervisionar. Com Sean trabalhando e lutando, ficava só Benjamin e eu em casa. Claro que eu estudava de manhã, então Benjamin ficava só na parte da manhã. Ele sabia das coisas, não se machucava nunca e nem fazia besteiras. Ele arrumava a casa toda, menos fazia comida. Da primeira vez que chegamos em casa e a vimos brilhando de limpa, ficamos tão orgulhosos dele. Não que pensássemos que ele fosse um inútil, mas só não achamos que ele fosse fazer. Demos intrusões claras para ele ficar em casa, sem sair e nem abrir a porta pra estranhos. Não mexer com fogo, nem quebrar nada. Ele fez isso, mas limpou a casa. Até o porão estava brilhando. Era a forma dele de nos dizer que era mais inteligente e capaz do que achávamos.

Benjamin estava na cozinha colocando seu café. Ele virou o rosto um pouco para me ver e depois voltou a derramar café na xícara.

— Bom dia, lindo.

— Bom dia, Samantha. — ele respondeu.

Nos sentamos na mesa e comemos em silêncio. Conversamos às vezes, mas ele não era muito de falar. Ele gostava do silêncio, da tranquilidade. Como sempre fazíamos quando terminamos de comer, ele lavou e eu sequei e guardei a louça.

— Vou fazer o almoço hoje. — lhe disse. — O que você quer fazer?

Benjamin pegou uma fruta e fechou a geladeira.

— Lavar roupa.

Concordei e ele foi pra área de serviço. Meu irmão era um homem e tanto. Lavava até roupa. Sorri e comecei a fazer o almoço. Terminei antes das nove e fui ver como ele estava se saindo. Benjamin estava sentado no chão esperando a máquina acabar de lavar para colocar na secadora e estender. Me sentei ao lado dele e ficamos em total silêncio. A campainha tocou e eu fui atender bufando. Estava difícil me levantar, não por causa da barriga, ainda era minúscula, mas por preguiça mesmo. Abri a porta e o entregador sorriu gentil.

— Bom dia. Samantha Preston? — perguntou me entregando uma prancheta.

— Eu mesma. — disse assinando e pegando a caixa que ele me deu.

— Tenha um bom dia. — disse e foi embora.

Entrei e fechei a porta com o pé. Me sentei no sofá e abri a caixa. Tinha um envelope quadrado branco e um pequeno buquê de rosas roxas. Abri o envelope e tirei de lá algumas fotos minhas. Em uma delas eu estava dormindo no meu quarto, outra eu estava indo pra escola, na cozinha e almoçando com meus irmãos e meu pai. Me levantei nervosa e olhei pela janela. Incrivelmente, do outro lado da rua estava o antigo cara. Desta vez ele estava de frente pra mim, sorrindo de lado de um jeito perverso e eu o reconheci. Taxista fodido! , pensei engolindo em seco e me afastando da janela. Abri o bilhete que tinha e senti vontade de vomitar.

___

Hey, boca inteligente. Soube que está grávida. Meus parabéns. Pena que não vai durar muito...

Mande meus sinceros parabéns ao futuro papai e diga que ainda tem pessoas que se lembram do seu verdadeiro nome.

Atenciosamente, seu amado espião.

___

Fui para a janela de novo e ele não estava mais lá. Me sentei enjoada no sofá e vi minhas mãos tremendo. Benjamin entrou na sala e se sentou na poltrona. Peguei as coisas apressada e levei pro quarto.

— Que droga! — eu disse me sentando na cama e respirando fundo algumas vezes.

Meu Deus, ele entrou aqui! Enquanto eu dormia, ele estava aqui... , fechei os olhos e respirei fundo. Acariciei minha barriga lentamente por sob a roupa. Olhei em volta sem saber o que fazer, nem  o que pensar. O que ele ganharia fazendo aquilo? MarcusEle vai saber o que esse cara quer...

Peguei meu celular e mandei uma mensagem para Marcus dizendo que precisava dele. Ele respondeu dois minutos depois dizendo que estava vindo. Passei quase cinco minutos andando de um lado pro outro no quarto até que ouvi um barulho vindo do andar de baixo. Corri pra baixo e vi a porta aberta. Olhei em volta e não vi Benjamin.

— Benjamin! — gritei indo pra área de serviço e a encontrando vazia. — Benjamin!

Assim que voltei pra sala olhei de novo pra porta e ela estava fechada.

— Como assim? — perguntei confusa e algo lá em cima caiu.

Meu coração parou de bater. Tinha alguém na casa e Benjamin havia sumido. Eu estava só.

* * *   * * *

Coloquei um pé no primeiro degrau e respirei fundo. Subi os degraus devagar temendo ir, mas sabendo que era preciso. Eu não iria ficar amendrontada na sala até Marcus chegar. O corredor parecia estranhamente escuro e assustador. As portas do quarto de Sean, Benjamin e papai estavam fechadas, mas a porta do bebê estava escancarada, assim como a minha. Fiquei na entrada do quarto do bebê e segurei a respiração quando vi um cara de costas pra mim olhando pela janela. Ele estava vestido de preto dos pés a cabeça e de capuz. Ele levantou a cabeça e ouvi uma risada vir dele.

— Marcus acha que pode mudar? — falou com a voz grossa. Senti meus pelos da nuca se arrepiarem. — Não pode. Ele é quem é. Nada pode mudar isso...

— Quem é você? — perguntei. — O que está fazendo aqui?

O estranho riu baixinho de novo e se virou pra mim tirando o capuz. Mordi o lábio quando o vi. Metade do rosto dele era queimado e seus olhos azuis pareciam gelo. Me afastei um pouco, mas continuei em sua linha de visão.

— Isso. — ele apontou para o próprio rosto deformado com uma faca que segurava na mão. — É o que os Black fazem. Isso, querida Samantha, é o que o seu adorado Marcus me fez.

Engoli em seco e neguei.

— Marcus não machucariam alguém dessa forma... — falei, mas minha voz foi sumindo com o olhar que ele me deu.

— Marcus foi criado pra matar, garota. Como Walter, Dylan, Nina, Jonathan, Jasmine, Damon. Todos os Black são tóxicos.

— Marcus não é um Black. — disse e me afastei mais.

— Tem certeza? — ele inclinou a cabeça pro lado um pouco e riu. — Está tão despreparada pra esse mundo quanto a garota Peters e é por isso que vocês vão morrer.

— Cala a boca.

— Você vai morrer, sabe de disso. — ele disse e abaixou a cabeça. — Todos morrem, garota.

Suspirei aliviada quando a porta lá em baixo foi aberta e a voz de Marcus me chamou. O homem perto da janela deu de ombros e riu.

— Diga a ele que nos vemos no inferno. — disse sorrindo ddiabolicame e antes que eu conseguisse dizer algo, ele cortou a própria garganta.

Sangue espirrou pelo chão como cachoeria, ele caiu de joelhos antes de cair completamente deitado no chão e eu arregalei os olhos. Fiquei sem acreditar e quando notei que o que eu vi era verdade não me segurei e gritei.

Leia este capítulo gratuitamente no aplicativo >

Capítulos relacionados

Último capítulo