CAPÍTULO 06

UM DIA ANTES DA CERIMONIA.

Estava tão ansiosa, esperava com as mãos unidas e geladas a chegada do Cristian, ele finalmente conseguiu vim.

Eu sei que fui egoísta de mais quando pedi pra ele vim, quando fiz ele deixar tudo pra trás.

Mas não queria passar meus últimos tempos longe dele e ele era meu médico, me conhecia melhor do que ninguém.

Logo o vi aparecer no portão de desembarque com a mesma pressa de sempre.

Olhos atentos. Ombros tensos. Como se o mundo inteiro fosse um risco iminente e eu, o ponto mais frágil.

Sorri antes mesmo que ele me visse.

Não porque estava feliz.

Mas porque aprendi que o sorriso acalma as pessoas que me amam.

Ele me viu, um sorriso rápido surgiu em seus lábios.

— Você veio mesmo!

Ele largou as bolsas e me abraçou me tirando do chão. Meu coração acelerou tanto.

— Você ficou maluca?

foi a primeira coisa que ele disse ao me abraçar.

O abraço dele era diferente de todos os outros que já recebi dele.

Não tinha desejo.

Não tinha posse.

Tinha medo.

— Também senti sua falta, sabia?

respondi, brincando, para suavizar.

Ele se afastou só o suficiente para me olhar dos pés à cabeça, como fazia desde a faculdade.

Como fazia desde que decidiu que, além de melhor amigo, seria também meu médico. Por escolha minha. Por excesso de cuidado dele.

— Vem meu pai está te esperando...

Caminhamos pra fora do aeroporto.

— Que história é essa de casamento, Lara?

perguntou, já andando ao meu lado.

— Seu pai surtou de vez?

Entrei no carro do motorista do meu pai e encostei a cabeça no banco.

— Não é nada demais.

— Como não é nada?

ele rebateu, indignado.

— Casamento nunca é “nada”.

Suspirei.

— É só um acordo formal. Pra herança dele. Não quero falar disso.

Ele virou o rosto pra mim, incrédulo.

— Como assim você não quer falar disso? Um casamento não é algo negociável, isso chega a ser bizarro. E você falando assim com tanta naturalidade.... Lara, fala comigo.

Olhei pela janela, vendo a cidade passar depressa demais.

Suspirei profundo e olhei pra ele.

— É coisa dos meus pais. Eles querem me ver de noiva… você sabe. Antes de ir.

As palavras saíram suaves.

Como se não carregassem um peso absurdo.

— E casar com um cara que você nem conhece vai dar isso a eles?

Cristian suspirou fundo.

Aquele suspiro que eu conhecia tão bem. O que vinha antes das tentativas de me convencer a lutar mais um pouco.

— Eu achei um novo tratamento.

disse, finalmente.

— Fora do país. Na Suíça. Eles estão testando uma abordagem nova. Ainda é experimental, mas é uma chance real, Lara. Eu posso ir com você.

Sorri.

Não porque aquilo me deu esperança.

Mas porque já tinha feito as pazes com a ausência dela.

— Eu não vou mais a lugar algum Cristian.

respondi, simples.

— Como não vai?

A voz dele falhou.

— Isso pode te dar mais tempo. Pode até…

Não deixei ele terminar a palavra, estava tão cansada dessas falsa cura que nunca chegava.

— Eu não quero ser um experimento, Cristian.

falei, com calma.

— Eu quero viver.

Disse isso sorrindo.

Eu só quero viver.

Ele levou as duas mãos ao meu rosto, como se ainda pudesse me proteger do inevitável.

— Isso pode te fazer viver mais.

insistiu, os olhos marejados.

— Até se curar, esse casamento não deve nem acontecer porque não vai ser real pra eles, porque você não sente nada por esse cara. A gente pode mudar isso.

Neguei devagar.

— Eu não vou mais embora. Não de novo. Não vou passar meus últimos momentos em hospitais, longe de casa, longe de quem eu amo.

Ele fechou os olhos por um instante, vencido.

— Você sabe que está montando uma ilusão pra eles não sabe?

Suspiro fundo acenando.

— Ao menos, eles vão ter lembranças do que nunca pude ter...

Ele negou e me recusei olhar pra ele de novo.

Porque doía pensar nisso, mas eu só queria deixar meus pais bem aqui... Quando partir.

....

Chegamos em casa e ele foi recebido com abraços apertados, lágrimas contidas, carinho demais. Meus pais o acolheram como sempre.

— Sinta-se em casa, meu filho.

disse meu pai.

E eu sorri, porque aquilo era verdade.

Cristian sempre foi parte da nossa casa. Da minha vida. Da minha história.

— É tão bom saber que você veio, ela sente falta, só não diz.

Revirei os olhos e peguei a mão dele.

— Vem.

falei, puxando-o pelo braço.

— Vou te mostrar o quarto.

Subi as escadas sentindo o coração bater calmo, estranho, firme.

Porque, diferente de todos eles…

eu não estava fugindo da morte.

Eu estava, pela primeira vez, escolhendo a vida.

Ou o pouco que me restava dela.

— Não precisa se preocupar com nada, e eu já falei com meus pais, você vai monitorar tudo, mas...

Abrir a porta mostrando tudo a ele.

— Com mais liberdade pra mim agora.

Cristian vinha atrás de mim, em silêncio demais. O olhar dele percorria tudo: a cama, a janela, os detalhes.

— Não é bem com os seus cuidados que estou preocupado agora.

Ele me olhou tão diferente.

— Você tem noção do que está prestes a fazer?

perguntou, incrédulo.

Encostei na cômoda, cruzando os braços.

— Tenho.

Ele respirou fundo, passando a mão pelos cabelos.

— Você disse que não ia se relacionar com ninguém, Lara. Por causa da sua doença, mesmo eu dizendo pra você que deveria dar uma oportunidsde pra viver isso.

A voz dele saiu baixa, tensa.

— Quem em sã consciência iria se apaixonar por mim sabendo que eu tenho data de validade? Ninguém! E nem vamos nos apaixonar, ele não vai sofrer quando isso acabar.

Ele nega me olhando tão sério. Não gosto quando ele fica assim.

— Esse homem… ele sabe pelo menos o que você está enfrentando?

Balancei a cabeça em negativa.

— Não vai precisar saber.

Ele me olhou como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.

— Como assim não vai precisar saber?

deu um passo à frente.

— Você vai casar com um homem que não sabe das suas lutas? Do que você sente quando apaga do nada? Do medo? Da dor?

— Eu não quero ninguém me olhando com pena.

respondi firme.

— Não quero ser tratada como uma despedida ambulante.

Ele abriu a boca, mas eu continuei.

— O Gabriel é egocêntrico. Fútil. Vive a vida como se nada tivesse consequência.

Minha voz saiu fria, controlada.

— Ele não merece receber minha herança sem passar por nada.

Cristian franziu o cenho.

— Lara…

— Ele é o mais próximo de um filho que meu pai tem.

continuei, sentindo o nó crescer na garganta.

— Meu pai deixaria tudo pra ele. Porque não teria mais a mim. O futuro da empresa… é o Gabriel , por causa do pai dele, por causa do meu pai.

Ele me encarou, chocado.

— E você quer dar uma lição nele… com um casamento?

Suspirei, cansada demais para discutir.

— Você não consegue me entender, Cris.

Olhei nos olhos dele.

Não consegue porque não ouviu o que eu ouvir, nem a raiva que eu senti quando o vi falando daquele jeito de mim.

— Mas eu já decidi.

Silêncio.

— Amanhã eu cumpro o que me propus a fazer.

Ele se aproximou e segurou meu rosto com as duas mãos, como fazia quando eu tinha crises na faculdade. Como fazia quando achava que ainda podia me impedir de cair.

— A gente pode ir pra esse tratamento. Eu vou com você. A gente faz isso juntos, como sempre. Eu e você.

Sorri, tocando o rosto dele.

— Obrigada por estar comigo esse tempo todo.

Minha voz saiu suave.

— Mas agora… é hora de descansar, Cris.

Ele fechou os olhos, vencido, e beijou minha mão com cuidado.

— Não faz isso, você tá fazendo de novo, você me prometeu não me tratar diferente... Como se estivesse se despedindo a todo momento.

Ele nega.

— desculpa..

— Não vamos mais falar disso, tá?

pedi, sentindo a lágrima escapar.

— Por favor.

Ele limpou meu rosto com o polegar, assentindo.

— Passa o resto da minha vida comigo?

perguntei, brincando, tentando aliviar.

Ele negou na hora, a voz quebrada.

— Não faz isso.

Sorri ao vê-lo daquele jeito.

— Não faz isso comigo.

O abracei. Ele beijou meu ombro, demorando ali como se quisesse guardar aquele instante.

— Eu te amo.

ele disse.

Sorri entre lágrimas.

— Eu também te amo.

Quando me afastei, ele sorriu mesmo chorando.

— Tá…

falei, limpando o rosto com um sorriso.

— Não vamos mais chorar, tá? Eu já tô cansada disso.

Ele negou, emocionado.

— Fica à vontade ta. Eu te espero pro jantar.

Dei um passo atrás.

— E amanhã… você vai comigo pra minha cerimônia de noiva.

Ele suspirou pesado. Beijei o rosto dele.

Sua mão ainda na minha, segurando como se eu fosse morrer hoje mesmo.

— Descansa um pouco.

Ele pede cauteloso. Acenei sorrindo. aí deixando-o ali, sozinho com os próprios medos.

Entrei no meu quarto e fui direto ao closet.

O vestido estava lá. Intocado.

Protegido pelo saco branco.

Passei a mão sobre o tecido, devagar, com carinho.

Sorri.

Eu sabia que não viveria aquilo de

verdade.

Mas por alguns instantes…

eu podia fingir.

Sonhar.

E às vezes, sonhar era tudo o que o tempo ainda me permitia.

....

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