As três amigas continuavam reunidas na sala depois do jantar.
Os sapatos já haviam sido deixados de lado.
As taças de vinho estavam novamente cheias.
As pernas estavam confortavelmente esticadas sobre o enorme sofá.
Era um daqueles momentos raros em que ninguém precisava fingir ser forte.
Ali, elas podiam ser vulneráveis.
Podiam ser apenas Lizzy, Lisa e Beth.
Mulheres reais.
Com medos reais.
Com cicatrizes reais.
Lisa foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Vocês já perceberam que todos os nossos relacionamentos deram errado por motivos absurdos?
Lizzy soltou uma risada.
— Pensando bem, sim.
Beth sorriu.
— Muito absurdos.
Lisa se ajeitou no sofá.
— Hoje é o dia da verdade, vamos falar sobre os homens que passaram pelas nossas vidas.
Beth levantou uma sobrancelha.
— Isso parece perigoso.
— Mas terapêutico. — respondeu Lisa.
Lizzy começou a rir.
— Concordo.
Lisa apontou para Lizzy.
— Começa você.
— Por que eu?
— Porque tens a lista mais longa.
— Muito engraçada.
As três riram.
Lizzy suspirou.
— Está bem.
Ela tomou um gole de vinho.
— Meu primeiro relacionamento sério foi aos vinte e três anos.
— O Ricardo. — respondeu Beth.
Lizzy assentiu.
— Eu era completamente apaixonada.
Seus olhos ficaram distantes.
— Ele era inteligente, educado, bonito.
Lisa sorriu.
— E um idiota.
Lizzy riu.
— Sim, um idiota.
Ela respirou fundo.
— No começo era perfeito.
Jantares.
Flores.
Mensagens de bom dia.
Longas conversas.
Tudo parecia um sonho.
Mas, aos poucos, ele começou a mudar.
— Como assim? — perguntou Beth.
— Começou a se incomodar com o meu trabalho.
— Ah, aquele velho problema. — comentou Lisa.
Lizzy assentiu.
— Primeiro vieram pequenas observações.
Ela começou a lembrar.
— Você trabalha demais.
— Por que precisas ganhar tanto dinheiro?
— Será que não podes desacelerar?
Beth fechou a expressão.
— Red flag.
— Exatamente.
Lizzy continuou.
— Depois ele começou a reclamar quando eu tinha audiências importantes.
— Ridículo. — respondeu Lisa.
— E, por fim, começou a competir comigo.
Ela sorriu sem humor.
— Era como se meu sucesso o incomodasse.
Beth segurou sua mão.
— Você merecia mais.
Lizzy assentiu.
— Hoje eu sei disso.
Ela sorriu.
— Mas naquela época achei que o problema era comigo.
— Nunca foi. — disseram as amigas.
Ela sorriu emocionada.
*****
Agora era a vez de Lisa.
Ela já começou a rir.
— Onde começo?
Beth gargalhou.
— Pelo menos tenta resumir.
— Está bem.
Lisa ajeitou-se.
— Meu primeiro grande desastre foi o Henrique.
Lizzy soltou uma risada.
— O músico.
— Exatamente.
Beth também começou a rir.
— Meu Deus.
Lisa levou a mão à testa.
— Que vergonha.
Ela suspirou.
— Eu achava que estava vivendo um filme romântico.
— E estava vivendo?
— Não, Estava financiando a vida dele.
As amigas caíram na gargalhada.
— Ele dizia que estava construindo a carreira dele.
— E estava? — perguntou Lizzy.
— Estava construindo a carreira dele às minhas custas.
As três riram.
Lisa continuou.
— Eu pagava restaurantes.
— Viagens.
— Presentes.
— Combustível.
Beth arregalou os olhos.
— Até combustível?
— Até combustível.
Ela suspirou.
— E sabem qual era a pior parte?
— Qual?
— Eu fazia tudo feliz.
Lizzy começou a rir.
— Porque estava apaixonada.
— Muito apaixonada.
Ela abaixou a cabeça.
— Até descobrir que ele tinha outras duas namoradas.
— Duas? — perguntou Beth.
— Sim.
As três começaram a rir da própria desgraça.
— Aparentemente, eu patrocinava o romance coletivo.
Beth segurou a barriga de tanto rir.
— Lisa!
— Hoje eu rio, na época eu chorei.
Ela suspirou.
— Depois disso, virei extremamente exigente.
Lizzy sorriu.
— Ainda bem.
****
Então o ambiente ficou mais silencioso.
As duas olharam para Beth.
Ela já sabia que chegara sua vez.
Beth mexeu na taça de vinho.
— O meu foi o pior.
As amigas imediatamente ficaram sérias.
Ela respirou fundo.
— Porque eu realmente acreditava que tinha encontrado o homem da minha vida.
Seus olhos ficaram marejados.
— Cinco anos.
Cinco anos de amor.
Cinco anos de construção.
Cinco anos de sonhos.
Ela sorriu tristemente.
— Eu sabia a cor da nossa futura casa.
— O nome dos nossos filhos.
— Os lugares que visitaríamos.
— Os aniversários que celebraríamos.
Sua voz começou a falhar.
— Eu imaginava envelhecer ao lado dele.
Lizzy segurou sua mão.
Lisa também.
Beth continuou.
— E, de repente, tudo acabou.
Ela fechou os olhos.
— Não foi apenas uma traição.
— Foi uma destruição completa.
O silêncio tomou conta da sala.
— Passei semanas sem dormir.
— Sem comer direito.
— Sem conseguir olhar para o espelho.
Ela sorriu tristemente.
— Porque a traição tem uma maneira cruel de fazer a vítima se sentir insuficiente.
Lisa imediatamente respondeu:
— Mas você nunca foi insuficiente.
Lizzy assentiu.
— Nunca.
Beth sorriu emocionada.
— Eu sei disso hoje.
— Mas demorei a aprender.
Ela respirou fundo.
— E ainda estou aprendendo.
*****
As três permaneceram em silêncio durante alguns segundos.
Então Lisa resolveu mudar o clima.
— Sabe de uma coisa?
— O quê? — perguntaram as duas.
— Nós temos um padrão.
Lizzy riu.
— Temos?
— Sim.
— Qual?
Lisa levantou os dedos.
— Primeiro - escolhemos homens emocionalmente indisponíveis.
— Segundo - tentamos consertar homens quebrados.
— Terceiro - damos amor demais e recebemos migalhas.
Beth começou a rir.
— É assustadoramente verdadeiro.
Lizzy também riu.
— Talvez estejamos finalmente aprendendo.
Lisa abriu um sorriso.
— E talvez seja exatamente por isso que aquela ideia dos maridos de aluguel seja interessante.
Beth fechou os olhos imediatamente.
— Meu Deus.
— Lá vem ela outra vez. — disse Lizzy rindo.
Lisa pegou o celular.
— Pensem comigo.
— Homens educados.
— Responsáveis.
— Sem promessas falsas.
— Sem jogos emocionais.
Beth a interrompeu.
— Porque é um serviço profissional.
— Exatamente. — respondeu Lisa.
Lizzy ficou pensativa.
— Talvez seja justamente por isso que parece seguro.
Beth olhou para as duas.
— Vocês estão mesmo considerando isso.
As duas sorriram.
— Estamos.
Beth balançou a cabeça, tentando não rir.
Mas, no fundo, até ela já começava a sentir curiosidade.
Uma pequena.
Minúscula.
Perigosa curiosidade.
Sem perceber, a vida delas já estava saindo da direção que haviam planejado.